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SELFIE SEM FILTROS

Wanda Stuart: "Já senti imenso preconceito de alguns pseudointelectuais do meio"

Wanda Stuart: "Foi a primeira vez em que o meu pai chamou 'trabalho' àquilo que eu fazia"
Wanda Stuart: "Durante anos, todos os dias me arrependia de não ter ficado lá"
Wanda Stuart: "Vai haver sempre comparações. Na nossa profissão e em Portugal, há esse preconceito"
Wanda Stuart como nunca a viu, na SELFIE SEM FILTROS

Convidada da rubrica SELFIE SEM FILTROS, Wanda Stuart aceitou abrir o coração, para falar sobre a carreira e aquilo de que menos gosta no meio artístico.

Questionada sobre se é fácil trabalhar com a Wanda Stuart, a cantora foi perentória na resposta: "É fácil, porque adoro dividir protagonismo, mesmo com quem está a começar, puxo-os para mim, ponho-os ao meu lado, a brilhar tanto como eu e a mostrar o melhor que eles têm. Por outro lado, também exijo muito, mas não exijo mais aos outros do que exijo a mim própria, portanto, é justo."

Já sobre o respeito que conquistou junto da classe, a artista confessou: "Até podem não gostar de mim, mas que me respeitam, respeitam. Uma vez, o Tozé Brito disse-me uma coisa que, na altura, me deixou um bocadinho triste: 'Devias focar-te só num estilo musical, embora cantes bem todos os géneros.' E eu disse-lhe: 'Mas versatilidade é bom!' Percebo que, se me tivesse focado num estilo, se calhar, era mais fácil ter uma editora que pegasse em mim, mas não sei, é uma incógnita... E ele também me disse: 'Mas tiro-te o chapéu: no meio, és muito respeitada!'".

Um respeito que foi conquistado, sobretudo, com "honestidade": "Sempre levei muito a sério o meu trabalho, com muito respeito. Sempre respeitei o trabalho dos outros, posso não gostar de determinado artista, mas sempre o respeitei. Cada pessoa tem o seu estilo, respeito muito o outro e acho que todos os estilos têm o seu lugar. Sou amiga de pessoas cujo estilo musical não tem nada a ver com o meu e que eu nem sequer gosto da maneira como cantam ou das canções que cantam!"

Daí que a cantora não veja com bons olhos as rivalidades que existem no meio: "A desunião, o preconceito.... Eu já senti imenso preconceito de alguns pseudointelectuais do meio que acham que o meu trabalho pode ser menor. Até me verem cantar no palco! Porque as pessoas veem que me entrego, que dou tudo o que tenho no palco. Até podem não gostar de determinadas coisas que eu faça, mas dizerem que está mal feito, não podem dizer. Dou mesmo muito, não me poupo para o espetáculo do dia a seguir. Se tiver que morrer no palco, eu morro ali. Depois, amanhã, logo se vê. E, depois, claro, chego a casa, esgotada, e são as pessoas que vivem comigo que me dizem: 'Tu nasceste para isto! Se tu desistes, o que vai ser de nós?' Por isso, nem sequer me pode passar pela cabeça desistir. Eles não me deixam, e ainda bem (risos). Eu sou muito acarinhada pelo público, graças a Deus, e as pessoas dizem-me sempre: 'Nem imagina a força que me dá. Quando estou em baixo, penso na Wanda, que é uma mulher de garra!' E eu só penso assim: 'Se soubesses que eu, às vezes, também estou em baixo....' Não posso nunca mostrar o lado frágil, porque as pessoas veem em mim um exemplo de força, então, obrigo-me, muitas vezes, a ser esse exemplo. Daí, muitas vezes, não mostrar a minha vulnerabilidade."

"Eu convido muita gente para trabalhar comigo, mas o inverso não acontece. Essa é outra mágoa que tenho com a minha classe", contou, retomando a resposta sobre aquilo de que menos gosta no meio artístico. "Há pessoas com quem eu vou trabalhar pela primeira vez e que me dizem: Afinal, tu não és nada daquilo que me tinham dito sobre ti. É tão fácil trabalhar contigo! Diziam-me que tu és muito complicada, mas não!' E é aí que sinto um bocadinho de mágoa, mas eu convido muita gente para trabalhar comigo, nomeadamente, pessoas que pouca gente conhece e eu gosto de as puxar, dividir o meu protagonismo com essas pessoas, que, às vezes, estão em início de carreira. Se, depois, as pessoas não sabem dar valor a isso, já é problema delas. Eu só vejo a vida com sentido se nós nos ajudarmos uns aos outros e marcarmos a diferença na vida uns dos outros. Precisamos de dinheiro para pagar as nossas contas, mas, se não temos aplausos... os aplausos são o alimento da nossa alma, sem dúvida nenhuma!"

Sobre aquilo que ainda gostava de fazer, Wanda Stuart lamentou: "Gostava de já ter feito mais coisas. Com esta idade, ainda ter que lutar muito para ter uma estabilidade, que ainda não é estável, então, na minha profissão em que não tenho um ordenado ao final do mês... Tenho pena de ainda não ter conseguido ter essa estabilidade para não ter tantas preocupações, e sei que nunca vou deixar de as ter. Sei que, com 80 anos, ou ainda estou boa a cantar, ou, então, vou ser um peso para a minha filha, e isso não queria, sinceramente. Nunca fiz cinema, e adorava! Gosto imenso de conversar e, também, acho que daria uma boa apresentadora de televisão. Pode ser que, um dia… Se calhar, o público ainda não está preparado para ter uma apresentadora de televisão com a minha imagem. Talvez, daqui a dez ou vinte anos, já olhem para mim de outra forma. Acho que ainda vou ser uma velha enxuta, por isso... (risos). Eu aprendi no Brasil um provérbio muito engraçado, que é: 'O homem faz planos e Deus ri.' De cada vez que faço um plano e anseio muito por ele, as coisas não saem como eu queria, então, acabo por ter uma desilusão. Prefiro deixar a vida encarregar-se daquilo que acha que eu mereço."

Já sobre as amizades e a forma como escolhe aqueles que quer ter ao lado, Wanda Stuart confessou que a intuição nem sempre funciona: "Já tive tantas desilusões, avalio muito mal as pessoas. Muitas vezes, dou muita confiança e, depois, não é que me arrependa, porque também não sei ser de outra maneira, mas levo muito na cabeça por ser assim. Dizem que já devia ter aprendido... É com cada facada nas costas. Já tentei ser mais fria, não dar tanto às pessoas, mas era infeliz e não me sentia bem comigo própria, portanto: aproveitem o melhor de mim, se não quiserem aproveitar, o problema é vosso. Vocês é que perdem! É muito fácil magoarem-me, porque confio muito nas pessoas. Acho que as pessoas são todas fantásticas e que, se lhes der o melhor de mim, essas pessoas também me vão retribuir, e isso nem sempre acontece. De maneira que já tive mais amigos, mas, com 53 anos, se eu não aprendesse um bocadinho, burra seria. Só que nas relações humanas, sou muito ingénua ainda. Sou uma parva (risos), mas, pronto, também não sei ser de outra maneira e perdoo muito facilmente."

E o que será que a tira do sério? A resposta foi fácil: "A maldade. As injustiças. Ver pessoas a tratarem mal outras pessoas… Viro fera! Fico doente, é mais forte do que eu e, por mais que tente não me meter, lá estou eu. Devo ter algum síndrome de justiceira."

Já a palavra que melhor a define é "verdade": "Porque detesto mentiras e só quando estou no palco é que sei mentir bem. Na vida, sou péssima. E se não revelo oralmente aquilo que estou a pensar, acho que a minha cara diz tudo..."

Mesmo tentando não faz muitos planos, daqui a cinco anos, os objetivos estão traçados: "Quero continuar a trabalhar muito, quero continuar a fazer espetáculos, quero estar um bocadinho mais magra, porque quero continuar a dançar e que os bailarinos não se queixem, e, basicamente, quero continuar a fazer aquilo que me faz feliz, quero ver a minha filha já com uma carreira mais ou menos consolidada, quero ouvir as músicas dela a passar na rádio, quero que ela seja muito feliz e quero continuar a trabalhar…até cair para o lado e, quando cair para o lado, que seja num palco, para ter o último aplauso!"

Leia a entrevista na íntegra AQUI