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Francisco Moita Flores chora a morte do pai: "Chegou a hora de dizer adeus ao meu grande herói"

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O escritor Francisco Moita Flores está de luto.

Esta quarta-feira, dia 17, Francisco Moita Flores informou que o pai do escritor faleceu, aos 97 anos. Através do Facebook, Francisco Moita Flores prestou uma sentida homenagem ao progenitor.

"Foi pelos seus olhos que aprendi a amar os livros. E a amar o mundo, os animais e as pessoas. Pelos seus olhos e pela ternura da minha mãe. Íamos os dois, quinzenalmente, à Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, que estacionava em frente à Igreja de S. João Batista. Uma fila de esfomeados, putos e graúdos, à espera de alimento. Era um homem rijo, sem horas para trabalhar, intrépido e insurreto. Não suportava o Regime [Salazarista] e, com ele, descobri as emissoras clandestinas, que se diziam em voz sussurrada", começou por descrever o autor.

"Mostrou-me Eça de Queiroz, Florbela Espanca, Camilo [Castelo Branco] e o Padre António Vieira, o seu escritor de estimação. E todos os outros daqui e d'além mundo. O [Ernest] Hemingway, o [John] Steinbeck, o [Miguel] Cervantes e por aí adiante. E, também, o Teatro. [Bernardo] Santareno, [Almeida] Garrett, [William] Shakespeare e o Canto e Castro, a fazer de Tristão, e a Carmen Dolores, de Isolda, no folhetim radiofónico", acrescentou.

Para Francisco Moita Flores, o pai teve uma "vida dura": "Reparava tratores e ceifeiras. Era a ambulância do Monte da Defesa de S. Brás. Quando alguém adoecia, de noite ou de dia, saltava para o jipe e conduzia quem necessitava ao hospital de Moura. Nesse tempo, ainda havia um hospital."

"Seguindo os seus conselhos, foi fácil equilibrar-me na bicicleta e foi a prenda da minha alegria, quando passei nos exames do segundo ano (atual sexto ano). Era um grande contador de histórias, que embeveciam os putos, como eu. E lia! Por causa de um livro, que o emocionara, fomos visitar o Palácio da Vila Viçosa. O primeiro que os meus olhos, espantados, viram. Foi com ele que soube existirem livros proibidos. Esses estavam escondidos, encapados com papel pardo. O Aquilino [Ribeiro], o [Alves] Redol, o Soeiro Pereira Gomes, escondidos, numas caixas de sapatos. Foi neles que percebi que havia outro mundo, para além daquele que nos era ensinado, com fome de justiça e de lonjura. Só mais tarde, conheci as cantigas proibidas. Caçador exímio. Pronto a ajudar quem lhe pedia e sempre disposto a ensinar o seu ofício. Foi assim que ficou conhecido por Mestre Chico Flores. Nunca desistiu de nenhum desafio, por mais doloroso que fosse. E lia sempre", continuou a descrever Francisco Moita Flores.

"Muitos anos depois destes dias de puto, percebia a sua alegria, quando lhe oferecia os meus romances ou quando ele via as séries que escrevi para os vários canais de televisão. Encantado, mas crítico. Afinal, a sua sementeira dera frutos. Os netos tornaram-se na sua maior herança e, quando o Alzheimer chegou, contou com o cuidado e o carinho da Residência para Idosos de Brejos de Azeitão. Da Diretora Graciana e respetiva equipa. Nunca mais vou esquecer estes profissionais da dádiva e do afeto", acrescentou.

No final desta homenagem emotiva, Francisco Moita Flores recordou, ainda, a recente luta do pai contra a Covid-19: "Ainda venceu o coronavírus, num último combate. Recuperou, mas a luta deixou-o frágil. Poucos dias depois desta derradeira vitória, a minha 'irmã' Graciana telefonou. Chegou a hora de dizer adeus ao meu grande herói. Despedimo-nos, em paz. Agradeci-lhe, escorreu-lhe uma lágrima, pelo rosto cansado, e outra, dos meus olhos, apertámos a mão, demos o último beijo e a última carícia. E, nessa noite, quando adormeceu, o Mestre Chico Flores da Defesa de S. Brás partiu, em sossego, depois de uma vida comprida. E cumprida! Veio aconchegar-se na minha memória. De onde nunca mais sairá."