Psicóloga Teresa Paula Marques sobre Judite Sousa: "Este ataque é cruel e desprovido de sentido"

Quis o destino que eu estivesse no mesmo aniversário em que a jornalista Judite Sousa estava, na noite em que o filho teve o fatídico acidente.

Psicóloga Doutorada em Psicologia
  • 29 jun, 13:40
Teresa Paula Marques lança livro "Odiolândia"
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Talvez por isso, embora nunca tenhamos trocado qualquer palavra, na minha memória ficou retida a sua imagem feliz e descontraída, que contrastava com a dor que espelhava, passadas escassas horas.

Perder um filho é algo anti natura, é descer ao inferno e, muitas vezes, levar o resto da vida a tentar de lá sair.

Algumas pessoas que estão a ler esta crónica poderão dizer: "Como é que o sabes? Não tens filhos!". Realmente, não tenho filhos, mas, para além de ter assistido à dor da minha mãe que perdeu um filho (meu único irmão), com 22 anos, e que, apesar de já terem passado mais de trinta anos, ainda o chora, basta-me ser uma pessoa empática. Aliás, ser empático significa isso mesmo, conseguir colocar-se no lugar do outro.

Podemos não ter passado pelo mesmo, mas, se imaginarmos a dor de perder a pessoa que mais amamos, não será certamente muito difícil ter a noção daquilo de que estamos a falar.

Judite não se vitimiza. A mãe Judite sofre. E muito! Por muito sucesso profissional que tenha, nada compensa a dor. Quando refere que muitas pessoas se afastaram, não fico espantada. É, infelizmente, muito comum ouvirmos dizer: "Eu não gosto de ir a velórios"; "Eu não gosto de ir a funerais" e, por conseguinte, não comparecem. Ocorre-me perguntar se alguém gosta deste tipo de cerimónias. Certamente que não, a menos que seja sádico ou masoquista.

Contudo, é necessário perceber e, sobretudo, sentir, que as pessoas enlutadas precisam do nosso apoio, tanto naquele momento, como nos que se seguem.

Certo é que, como a jornalista referiu, muitos foram o que se afastaram. Porquê? Mais uma vez se impõe falar do egoísmo humano. A tristeza e a dor de Judite não os fazia sentirem-se confortáveis? Não sabiam o que dizer e como ajudar? Não é preciso muito. Ninguém possui explicações para a morte, sobretudo quando é precoce, mas estar presente, saber escutar, dar um abraço, respeitar o silêncio, todos conseguem fazer… basta quererem!

Muito sinceramente, não consigo perceber a diferença de tratamento que Judite Sousa teve (e tem), quando comparada com outras mães/pais famosos que perderam os filhos. Confesso que, como ser humano e como mulher, sinto-me envergonhada perante tudo o que tenho lido acerca deste assunto.

Este ataque é cruel e desprovido de sentido. Um grande beijinho, Judite!

Teresa Paula Marques
Psicóloga Doutorada em Psicologia

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