"O cancro levou Xana, mas não levou a decência", por Catarina Pereira

OPINIÃO
Catarina Pereira
Comentadora MaisFutebol
Catarina Pereira

Quando Luis Enrique anunciou a morte da filha Xana, de apenas 9 anos, vítima de cancro, o mundo do futebol (e não só) ficou chocado com a triste notícia.

De todo o lado, choveram mensagens de lamento e de apoio (o pouco que se pode dar…) ao ex-futebolista e ex-selecionador de Espanha, mas, sobretudo, ao pai.

As fotografias de Luis Enrique com Xana, na altura, a celebrar títulos do Barcelona, no relvado, encheram as redes sociais e os corações dos que gostam, ou não, de futebol, dos que torcem, ou não, por um clube, dos que têm, ou não, filhos.

O cancro é capaz de levar a pequena Xana e tantos outros pequenos, porque é injusto, é cruel e não faz qualquer sentido. Mas, desta vez, pelo menos, não foi capaz de levar a decência.

É que só naquele dia, quinta-feira, 29 de agosto, é que soubemos a razão pela qual Luis Enrique tinha abandonado a seleção espanhola, já em junho.

Segundo pudemos, agora, saber, na altura, a Federação Espanhola de Futebol explicou, de imediato, aos jornalistas o que se passava. Eles, claro, tinham imensas perguntas para fazer, porque o afastamento de Luis Enrique seria sempre motivo de notícia.

Só que a Federação, ao dizer a verdade e evitar especulações, pediu-lhes, logo, também, uma espécie de acordo: que não divulgassem a razão desse afastamento.

Ou seja, durante mais de dois meses, vários jornalistas tiveram a informação da doença de Xana e não a divulgaram. Pela decência. Pelo respeito. Pela luta que aquela família mereceu ter direito a travar em paz.  

A notícia nunca saiu, até o pai entender dá-la. O momento certo, portanto, mas que, tantas vezes, não é respeitado.

Por uma vez, a ânsia de ser o primeiro a dar e o desespero de explorar a dor disfarçado de informação não foram mais fortes.

Que grande exemplo este, que nos chegou de Espanha. Da Federação, dos jornalistas, dos meios de comunicação social.

Descansa em paz, querida Xana.