Marco António: "Não contem comigo nos próximos tempos"

OPINIÃO
Marco António
Jornalista
Marco António

Um certo dia, chuvosamente solarengo, entro na empresa onde trabalho, por acaso cruzo-me com o meu patrão e acontece o seguinte diálogo:

Eu: Ora ainda bem que o vejo! Amanhã não venho.

Patrão: Não?

Eu: Não. E nos dias seguintes também não.

Patrão: Então, porquê?!

[Note-se a rápida exasperação no tom de voz do meu patrão. E na expressão facial também - mas isso não se nota tanto num texto escrito.]

Eu: Não venho porque quero ser aumentado.

Patrão: Mas o seu ordenado foi atualizado no final do mês passado!!

Eu: Perdão. Não me expliquei bem. Quero ser aumentado daqui a três anos. Ah… talvez não venha a próxima semana toda…

Patrão: A semana toda?!

Eu: Evidentemente. Aliás… fazemos assim; só volto quando acertarmos o aumento.

Patrão: Mas qual aumento?!?!

[Viu? Mais exasperação. Vê-se bem que o homem sabe que é um mau patrão e que está encurralado entre a espada e a parede com a inequívoca justiça que significa, já no presente, o facto de eu ser aumentado… no futuro, daqui a três anos.]

Eu: O aumento daqui a três anos, como já lhe disse.

Patrão: Mas o seu ordenado já foi atualizado, homem! E nessa atualização já acertámos aumentos para o ano que vem e até para o ano seguinte!

Eu: Pois, mas não para daqui a três anos.

Patrão: Mas sabe-se lá o que acontece até lá no nosso ramo. E na economia. E… sabe-se lá se estamos vivos daqui a três anos!

Eu: Isso não me interessa muito. Interessa-me é que se eu estiver vivo daqui a três, quero ter a certeza já de que sou aumentado nessa altura. Bom… então vou andando, ok?

Patrão: Mas vai onde?! Não ia faltar só amanhã?!?

Eu: Sim, mas acho que esta nossa negociação está a correr mal…

Patrão: Mas qual negociação?!?!?

Eu: Vê? Não se consegue falar consigo. Não está sequer aberto à possibilidade de negociação e é por isso que eu não dialogo consigo.

Patrão: Mas… nós estamos a falar!...

Eu: Pois, mas acabou-se. Falamos quando me der o aumento.

Patrão: MAS QUAL AUMENTO?!

Eu: O aumento para daqui a três anos, já lhe disse. Até um dia destes, então. Só volto quando houver aumento. Ah! E quero todos os subsídios aumentados também.

 

Então? O que é que lhe parece toda esta troca de galhardetes? Faz sentido? Não faz sentido? É bizarra ou é perfeitamente aceitável? De que lado está? Do meu ou do lado do meu patrão?

Seja qual for o lado que tenha escolhido, esta situação podia ter sido muito pior. Em vez de passar-se entre mim e o meu patrão (num mundo imaginário, criado apenas para este texto) podia passar-se no mundo real, com pessoas reais e num ramo da economia que afetasse realmente todo o país e não só a imaginária relação entre mim e o meu patrão e o hipotético serviço que eu presto à empresa.

De uma coisa começo a estar convencido. O meu patrão não tem jeito nenhum para ouvir hoje a voz da razão do futuro e este meu talento para negociar com ele devia ser posto ao serviço do país. Talvez ainda me meta na política e me candidate a qualquer coisa numas próximas eleições...