"A televisão que muda", por Jorge Nuno Oliveira

OPINIÃO
Jorge Nuno Oliveira
Jornalista
Jorge Nuno Oliveira

Há uma aplicação na Apple TV que te permite ver as notícias do dia em 10, 15 ou 30 minutos. Tu escolhes a duração do noticiário. Um algoritmo escolhe as notícias. Não há “pivot”, só notícias.

Daqui a pouco tempo, vamos poder fazer isso em casa, no televisor da sala. Escolhes o canal, vais ao menu e selecionas as notícias que queres ver, através de uma lista. Simples.

E esta realidade nem sequer é virtual. Já existe, impelida por avanços tecnológicos imparáveis e cada vez mais surpreendentes.

Ainda sou de tempo em que as notícias se faziam em filme de 16 mm, que precisava de ser revelado antes de cortado e colado numa máquina Steenbeck. Depois chegou o vídeo em cassete eletromagnética. E depois a cassete digital. E depois o cartão digital. E depois… sabe-se lá o quê mais.

Estas transformações são espetaculares e estão a mudar a televisão em todos os níveis: no modo de ver e no modo de produzir. Hoje é tudo muito mais rápido, vertiginoso e próximo. Nunca a televisão foi tão pujante, variada e interessante como hoje. Milhares de canais, milhares de opções, concorrência revigorante e um mercado que não para de crescer e de deslumbrar.

Neste robusto mercado da televisão, o jornalismo ganha uma importância crucial e decisiva. É a intervenção do jornalista que credibiliza e valida as notícias, separando o trigo do joio e ajudando a combater a praga das fake news e das publicações pretensamente informativas das redes sociais. Se há momento na história da Comunicação Social em que o papel do jornalista é absolutamente imprescindível, é este.

É através do jornalista que o público confia nas notícias. E é através do jornalista que as realidades são interpretadas e enriquecidas, sem distorções nem manipulações.

O futuro da televisão que muda vai continuar a passar pelos jornalistas. E somos nós que vamos ter de liderar as transformações que a tecnologia nos oferece. A existência de uma playlist de notícias, à disposição do espectador, não vai acabar com os noticiários. Vai, isso sim, obrigar a reinventar os noticiários, com uma aposta clara nos eventos em direto e em conteúdos muito personalizados. Provavelmente, teremos daqui a pouco tempo “noticiários de autor”, em vez dos habituais telejornais clássicos. Haverá interatividade. Tu escolhes as notícias que queres ver num menu. Nós escolhemos os eventos em direto e interpelamos-te, convidamos-te a participar e envolvemos-te nas notícias que deixam de ser “do dia” para passarem a ser “do momento”. Vai ser um mundo admirável, irresistível, uma permanente sedução entre quem faz as notícias e quem as vê.

A televisão que muda está aqui. E vai tornar-se irreversível assim que todas as famílias tiverem na sala uma smart tv ligada à internet e a um operador de conteúdos. Quando esse dia chegar, temos de estar preparados. Para tudo o que conseguimos prever e para o que ainda estiver para vir.