Paulo Salvador: "Talheres, essas esquisitices!"

Paulo Salvador (1) - MasterChef Júnior 11.05.16  Foto: João Cabral/Lux

No outro dia fui a um dos bons locais nos arredores de Lisboa, onde se pode comer pratos tradicionais, petiscos e essas coisas que os médicos dizem fazer mal mas que depois estão lá caídos a molhar o bico, e senti na pele aquilo que já tinha percebido, mas em locais bem menos recomendáveis. A degradação das ferramentas do prazer gastronómico.

Desde que aprendemos a comer à mesa com talheres, o ritual de uma refeição tem mantido um protocolo constante ao longo dos séculos, pelo menos na Europa que é o que para o caso importa.

Passámos a usar pratos, copos, guardanapos e talheres para cortar, espetar, beber e servir. Não sei se por causa das hordas estrangeiras que não valorizam o ritual da mesa ou se por um crescente desleixo lusitano, o que é certo é que algo está a mudar no aprumo das nossas mesas. Estava então eu nessa dita “tasca” de boa fama e melhor proveito, quando me preparo para atacar uns belos linguados com arroz de feijão.

Nada podia correr mal a partir dali. É segura a qualidade da cozinheira. No entanto, quando já os mirava no prato, rendidos ao destino, reparo que não tinham colocado os talheres de peixe. Pedi a ferramenta e eis que a resposta foi um surpreendente “-Já não temos!”.

Rendido, derrotado pela evidência, lá lutei com os dois pleuronectiformes demersais da subordem Pleuronectoidei com garfo e faca próprias para atacar e desfazer um animal de grande porte e pouca delicadeza. Na verdade, não fora a primeira vez que tal desilusão me abalava o apetite, já em tempos encontrei um restaurante de peixe onde também não havia talheres para os mesmos.

Não se trata de ser picuinhas ou de uma embirração. Por algum motivo a civilização foi aprimorando ao longo de séculos uma ferramenta que facilitasse a tarefa de abrir do peixe sem esmagar a polpa, retirar as espinhas sem esquecer uma só que nos arruine refeição, retirar as miudezas com precisão cirúrgica.

O talher de peixe não é uma esquisitice é uma app intemporal da gastronomia. Podemos comer sem eles? Claro que sim, mas, então, podemos também tentar comer sopa com colheres de chá, carne com talheres de sobremesa ou beber vinho em canecas de madeira. Sim, podemos, mas nunca será a mesma coisa e ficamos sempre com a sensação de que estamos a andar para trás. Não sei quem nos levou a isto. Protestando pode ser que o processo de inverta e um dia os turistas e portugueses comecem a aceitar que o peixe não é um filete e que merece respeito e ferramentas à altura. Nunca vos aconteceu?