Ana Sofia Cardoso: "Bolsonaro? Um perigo. Fernando Haddad? Outro perigo"

Ana Sofia Cardoso

Quando o candidato do Partido dos Trabalhadores nos deu uma entrevista em exclusivo, eu e o repórter de imagem Romeu Carvalho  tínhamos acabado de aterrar no Rio de Janeiro, uma das cidades mais perigosas do mundo.

Nessa entrevista, Fernando Haddad comparou o adversário, Jair Bolsonaro, ao ditador português Oliveira Salazar. E, pelo menos em parte, tem razão.

Jair Bolsonaro, político há mais de 2 décadas, tem um historial de declarações polémicas: contra as mulheres, contra as minorias raciais, contra os homossexuais.

Bolsonaro é o candidato, por agora, mais próximo de chegar ao Planalto. O antigo militar já mostrou simpatia pela ditadura e pela tortura.

Esses tempos, de que parece ter saudades, são também inspiradores para a campanha de Fernando Haddad. Basta ler o programa eleitoral do PT.
Não defende expressamente o "lápis azul" dos tempos da ditadura, mas advoga que os meios de comunicação social têm de ser controlados.

Isso não seria também uma ditadura?

Os dois candidatos à segunda volta das presidenciais têm relações próximas com os media. Recordemos o último debate antes da primeira volta. Foi na TV Globo. Haddad foi, mais Jair Bolsonaro faltou, alegando que os médicos o aconselharam a não participar, porque será ainda difícil para Bolsonaro falar mais do que 10 minutos seguidos, depois de 2 intervenções cirúrgicas, por causa do ataque com uma faca, que lhe perfurou o intestino.

Depois de recusar o debate com os principais candidatos, Bolsonaro deu uma entrevista de cerca de meia hora, em exclusivo à TV Record, a principal adversária da TV Globo, que precisamente à mesma hora transmitia o debate pré agendado.

Haddad poderia também ter boicotado o debate da TV Globo e ter preferido uma entrevista sozinho? Podia. Mas não o fez. A Rede Globo é um dos alvos de ataque de Jair Bolsonaro. O candidato da extrema-direita garante, que se chegar à presidência do Brasil, vai cobrar as dívidas da cadeia de televisão, que se têm acumulado nos últimos anos,  durante os governos do PT. 

Em simultâneo, Bolsonaro recebeu um apoio de peso. De quem? Do dono da TV Record, a quem deu a entrevista exclusiva antes da primeira volta, em concorrência directa com o debate da Globo.

O apoio do dono da TV Record é visto no Brasil como fundamental para qualquer candidato chegar ao Planalto. O dono da TV Record é Edir Macedo, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. No Brasil, 22% da população é evangélica. 

A tradição eleitoral brasileira diz-nos que o voto dos evangélicos pode ser quase decisivo. Lula da Silva, agora detido, falhou a eleição ao Planalto por duas vezes. Só conseguiu eleger-se na campanha em que o fundador da IURD o apoiou. Esse apoio foi também dado a Dilma Rousseff, mas esse voto de confiança no Partido dos Trabalhadores terminou. Foi agora transferido para Jair Bolsonaro, provavelmente o próximo presidente do Brasil.