"Covid-19? Bom senso e canja de galinha", por Marco António

OPINIÃO
Marco António
Jornalista
Coronavírus

Foi este o meu avio de supermercado de hoje. Em quase nada diferente do avio de um outro dia qualquer. Com base no que já havia em casa, trouxe o que poderia faltar nos próximos dias; que - espante-se! - é o que fazemos cá em casa em qualquer outra altura.

2 x 500g de massa

2 latas de ervilhas

2 latas de feijão

6 latas de atum

6 litros de leite

3 pacotes de polpa de tomate

1 caixa de almôndegas

1 queijo

2 pães de forma

1 x 4 rolos de papel de cozinha

1 x 12 rolos de papel higiénico

Há dias (nos finais de fevereiro), numa consulta de rotina com a pneumologista para avaliar a evolução da minha recém-contraída asma, deixei para o fim uma pergunta sobre o que já se vinha falando desde o início de janeiro: quais as precauções (se algumas) deveria ter - sendo asmático (e, por isso, entrando nos grupos de risco) - em relação ao Covid-19, para proteger-me e proteger quem contacta comigo? A médica, com base no meu tipo de asma (crónica, mas não grave) e sendo eu um indivíduo saudável de uma forma geral, disse-me que só teria de ter as precauções básicas, como grande parte da população.

Isso bastou-me para colocar como “fasquia” para mim mesmo as indicações dadas por que quem sabe do assunto. A mim e ao resto da população. Segui a minha vida e ainda hoje sigo a minha vida, tão normalmente quanto me seja possível, dadas as indicações se quem sabe do assunto para que nos mantenhamos cautelosos e menos socialmente ativos de momento. Vou onde tenho de ir, faço em casa todo o trabalho que seja possível fazer em casa, compro apenas aquilo que preciso de comprar.

Não me parece um plano complicado de cumprir.

E não acho que sou um exemplo para ninguém.

Simplesmente, estou a fazer aquilo que o (meu) bom senso manda.

Caso tenha sintomas que me levem a crer que possa ter de ser avaliado, pois que farei o que as autoridades me indicarem. O bom sendo - o meu, volto a sublinhar - também já me disse para proceder assim, adaptando o meu comportamento a uma nova circunstância, se algo do género acontecer.

E se as escolas fecharem e a minha filha tiver de ficar em casa, pois que a vida se adaptará também a esse detalhe. Estarmos prontos para adotar medidas excecionais em tempos excecionais faz parte. Ou, no mínimo, devia fazer.   

Percebo que os cenários apocalípticos que as histórias dos livros e dos filmes acerca de vírus nos fazem temer mexam connosco. Confesso que ontem até mexeram comigo. Fui à Staples comprar material para o escritório e dei comigo a olhar para os outros clientes da loja (que até estava pouco frequentada), a tentar ver se percebia neles alguns sinais de “doença”. Ao regressar ao carro apercebi-me de que o receio também é de certa forma uma maleita e decidi combatê-lo com os melhores remédios que me ocorreram naquele momento: auto-rádio e bom senso.Estarmos bem informados é essencial, sermos cautelosos também, tal como é essencial - parece-me - pensarmos nisto como um possível tsunami que sabemos que pode vir e bater forte, mas que temos tempo de evitar, colocando-nos a todos em local seguro, ajudando quem precisa a chegar a esse lugar seguro.

Seria bom não sermos como aquelas pessoas que em dias de grandes incêndios vão “ver o fogo” e atrapalham quem luta para os apagar, ou quem sabe que é perigoso ir para junto da costa em dias de grande temporal e sai de casa precisamente para ir tirar fotos nos paredões e nos molhes, “abraçados” pelos enormes salpicos ondulação que bate nas rochas ali a meia dúzia de metros (se tanto). Tem-se visto muito desse tipo de comportamento por estes dias em que nos foi dito que o melhor é ter cuidado e evitar correr para o problema.

Mais uma vez, não acho que eu seja um exemplo para ninguém.

Mas o meu bom senso diz-me que estamos longe daquela cena estranha que se vê no filme “Twelve Monkeys” - precisamente sobre um vírus que mas boa parte da população mundial - em que os animais do zoo correm livremente pelas ruas da cidade. 

Decidi, portanto, adotar os procedimentos que as autoridades recomendam (e vierem a recomendar) e ainda outros mais que o bom senso me diga para juntar aos primeiros.

Mas… vá. Também não sou fundamentalista neste aspeto. Se, por mero acaso, me aperceber que andam girafas, cangurus ou um par de rinocerontes a passear por aí… poderei, eventualmente, rever a letra miudinha dos “termos e condições” do meu bom senso e chegar à conclusão de que não é lá grande coisa.

* Sim, eu sei que não mencionei a canja de galinha. Entenda, a canja ajudava a criar um título minimamente decente. E, de facto, até é um prato fácil de fazer e que se faz com pouca coisa, em caso de escassez de produtos no supermercado. Ah... e, como diz a expressão, não faz mal a ninguém. Embora - e bem - os médicos nos lembrem frequentemente que "canja não é sopa!" ("Sopa é com legumes. Ponto.")