"Em 2019 uma boa história dificilmente tem final feliz", por Marco António

OPINIÃO
Marco António
Jornalista
Marco António

Um rapaz - Carson King - adepto de uma equipa de futebol americano universitária, faz uma graçola numa transmissão televisiva e tenta "angariar fundos para reforço do stock de cerveja".

A piadola alcança a viralidade nas redes sociais, começam a chegar "donativos" em dinheiro e o rapaz decide doar todo o valor que angariasse a um hospital pediátrico. Acaba por angariar cerca de 1 milhão de dólares (!!!) - centenas de milhar desses dólares oferecidos... pela marca de cerveja (!) a que se referiu inicialmente no “pedido de reforço de stock".

Mas - recordo - estamos em 2019.

Obviamente, tudo o que viraliza na net é escrutinado (até o que não viraliza, quanto mais o que se torna viral) e um jornal local - chamado Des Moines Register - passa a pente fino o feed de Twitter de Carson King, descobrindo que em 2012 (quando o rapaz tinha 16 anos) escreveu dois tweets com piadas (agora) consideradas racistas.

O rapaz apressa-se a pedir desculpas e até agradece ao jornal ter-lhe chamado a atenção para os tweets que, hoje em dia, mais velho, garante abominar. O que é certo é que a marca de cervejas que se associou à angariação de fundos (e até criou uma lata especial para o efeito - obviamente "sem qualquer intento publicitário ou proveito de boa imagem pública", acrescento eu) se demarca publicamente e de imediato da imagem do rapaz, embora - menos mal - mantenha o prometido donativo ao hospital pediátrico.

História acabada?

Não. Porque estamos em 2019.

Acontece que o feed de Twitter do jornalista - Aaron Calvin - que passou a pente fino o feed de Twitter de Carson King também acaba passado a pente fino pela "twittersfera" e também lá é descoberto conteúdo considerado racista, datado entre 2010 e 2013. O Washington Post - um dos mais conceituados jornais do mundo - noticia este facto. Aaron Calvin pede publicamente desculpas e protege a conta de Twitter. Aguarda-se agora um comunicado do jornal para o qual trabalha.

Estamos em 2019.

O mais importante desta história - até neste post - coube em menos de uma linha de texto. Um hospital pediátrico foi ajudado em cerca de 1 milhão de dólares. No entanto, tudo o resto - que dá início, meio, mas dificilmente dará um fim à "história" - é que é supostamente de interesse e continua a encher linhas de texto por essa net fora.

O combate aos vírus que afetam crianças doentes não viraliza tanto na net como uma boa polémica iniciada por um simples momento de boa disposição - que em 2019 tem obrigatoriamente de ser esmiuçado até não haver um sorriso sequer relacionado com esse momento de boa disposição (que até resultou em algo de profundamente positivo, recordo.)

Em 2019 uma boa história dificilmente tem final feliz.

O Mundo está assim.

Será que desejamos mesmo um Mundo melhor?