"Socorro! Estou na parte colorida da zona cinzenta!", por Marco António

OPINIÃO
Marco António
Jornalista
Marco António

Há dias, uma senhora ao telefone perguntou-me se eu era "aquele humorista que apresenta notícias na televisão". Hesitei em responder, mas lá respondi: “Não, esse é o Ricardo Araújo Perei…”, altura em que a senhora me interrompeu. “Não! Esse eu sei quem é! O senhor não é aquele humorista que apresenta umas notícias malucas à hora de almoço ao fim de semana?...”

Aí, sim, percebi que a senhora se referia, de facto, a mim e à rubrica “Acredite Se Quiser”, do Jornal da Uma da TVI de sábado, de que sou autor e apresentador. Lá lhe respondi que, sim, era esse tal que apresentava ‘fait-divers’ internacionais na tv da forma mais divertida possível, mas que não era humorista e sim jornalista, que todas as notícias que apresento são verídicas porque - ao contrário dos humoristas - eu estou obrigado à objetividade e à verdade no meu trabalho, que os humoristas têm a opção de fazer piadas com a verdade ou de “subverter a informação” (um termo mais elegante do que “mentir”) para obter efeito cómico...

E, esclarecido isso, a conversa lá continuou, normalmente, acerca do outro assunto que realmente motivava o telefonema.

Mas fiquei a pensar naquilo.

Eu sempre abordei as notícias do “Acredite Se Quiser” - na escolha, na escrita, na edição e na apresentação - pelo lado mais divertido (cómico, se preferir); e isso é perfeitamente visível e audível a cada sábado, no Jornal da Uma. Daí até ser tomado por humorista… nunca me passou pela cabeça.

Não me afeta nada a confusão da senhora. Aliás, tanto tomo como um verdadeiro elogio essa alusão ao meu suposto humorismo quanto espero que não se ofendam os humoristas que leiam estas linhas. Adoro humor, gosto muito de fazer e experimentar piadas com as pessoas com quem contacto de perto e sou fã de vários humoristas; muitos, mesmo! 

No trabalho como jornalista, há muito que optei por tentar ver (e reportar) a vida - já o escrevi aqui - um bocadinho “de esganfia” e isso faz-me bem. Sobretudo, livro-me das (más) notícias que abrem jornais (“bad news is good news” - diz a velha máxima do jornalismo) e que quase sempre tornam o trabalho de um jornalista em algo muito cinzentão: objetivo e profundamente triste, abordando temas duros, desagradáveis e por vezes trágicos. Por outro lado, a minha opção permite-me exercitar a criatividade a tentar apresentar notícias menos impactantes de forma que capte o interesse do espectador. (E até do ouvinte, já que também sou autor de um podcast de reportagem, com histórias de vida reais, que tento apresentar de forma leve e agradável. Esse programa chama-se “Histórias de Portugal, de Saudade e Outras Coisas”.)

A isto acresce o meu recente regresso a uma rubrica que em tempos tive no MaisFutebol da TVI24, o “Bola na Barra” - que agora voltei a fazer. Também aí o meu papel é produzir (no terreno e na edição) um vídeo divertido a partir de uma premissa aparentemente enfadonha: com um remate do meio campo, um plantel de uma equipa de futebol tenta (quase sempre em vão) acertar com a bola na barra de uma baliza.

Contas feitas, uns dias depois do telefonema que motivou este texto, cheguei a uma conclusão complexamente simples (ou simplesmente complexa): não sou humorista, sou jornalista e por isso não deixo de estar obrigado a determinados “cinzentismos” do jornalismo; mas, afinal e pelos vistos, estou numa parte extremamente colorida dessa zona cinzenta.

Se isso é bom ou não, não sei. Só sei que, nesse espaço de reduzidas dimensões (há muito pouco espaço para boas notícias ou para sorrisos abertos na informação) tento ser e fazer o melhor possível para que a vida seja mais colorida do que cinzenta.

PS: Repare-se que não disse que “tento ser e fazer o melhor possível para pintar a vida de forma mais colorida”. Não vá alguém ligar-me e perguntar seu eu sou “aquele pintor que…”