EXCLUSIVO

Autora de "Amar Demais" conta tudo sobre novela da TVI: "Em nome do amor, fazem-se as melhores e as piores coisas"

Maria João Costa

Em entrevista, exclusiva, à SELFIE, Maria João Costa aguçou a curiosidade dos fãs sobre a próxima novela da TVI, "Amar Demais".

Está quase a estrear "Amar Demais". Ansiosa?
Um pouco. Uma estreia desta natureza dá direito a um nervoso miudinho. Há sempre uma grande responsabilidade associada.

Esta foi a primeira vez que terminou uma novela sem ter qualquer feedback do público. Sentiu falta desse outro olhar dos espetadores?
Senti muita falta, até porque sou uma autora que gosta desse contacto com o público, e que considera o feedback importante. Assim é que se percebe que tramas estão, ou não, a resultar, o que nos permite ir fazendo ajustamentos. Aqui, tive de navegar à vista, e deixar-me guiar, apenas, pelo instinto e pelo feedback imediato das equipas que lidaram com o projeto.

É certo que um autor vive, praticamente, em quarentena, mas, não por causa de uma pandemia. Como foi lidar com toda esta situação?
Um autor que vive numa espécie de quarentena permanente (são meses e meses de isolamento) não sofre com a parte de ter de ficar fechado em casa por alguns meses,. De facto, isso é o nosso normal. Acontece que a pandemia foi muito mais do que isso, sobretudo pela questão da incerteza que nos trouxe a todos, e os autores não são exceção. O facto de se tratar de um vírus desconhecido, cujas consequências eram difíceis de prever, tornou tudo mais assustador. E, depois, há a responsabilidade social aliada a isso: como escrever depois disso? A pandemia deve ser refletida nos projetos em curso, ou não? Como vai ficar o mundo depois disso? E as pessoas? Vão ser iguais? É esse o trabalho que o autor tem de fazer nessa hora: refletir sobre o mundo à sua volta.

Como é que se escreve uma novela, quando o nosso estado de espírito é de preocupação?
Num cenário desses, confesso que é muito difícil escrever, porque a novela pede criatividade e alguma alegria na escrita, mas o nosso estado de espírito é de alarme e insegurança. Nos primeiros dias, fiquei presa, em frente à televisão e a sites de notícias: queria saber o máximo possível sobre o que se estava a passar. Acho que, tal como todos, queria saber como lidar com o que se estava a passar. Estava, especialmente, obcecada com a questão da distribuição alimentar. O que mais me preocupava era que isso falhasse, porque, se assim fosse… seria o caos. Imaginem a comida deixar de chegar às cidades? Iríamos assistir ao começo de um novo "Walking Dead", só que protagonizado pelos nossos amigos e vizinhos. Assustador. Por outro lado, foi um ótimo exercício criativo imaginar como seria a vida se o vírus avançasse mais. Se tiver de escrever uma distopia, estarei bem mais preparada para isso.

Sem fins de semana, feriados... qual foi o método de trabalho? Quando gosta mais de escrever?
Gosto de começar a escrever logo de manhã, que é a altura do dia em que tenho a cabeça mais fresca, mas isso não significa que não trabalhe até tarde, muitas vezes. Infelizmente, o método tem muito a ver com a criatividade do dia. Não sou como um relógio suíço, que está sempre afinado. Há dias em que a escrita não flui tão bem, e em que o trabalho se arrasta pelo dia inteiro. Por outro lado, há fases em que temos mais trabalho acumulado. Numa novela, até pela duração do projeto e pela quantidade de pessoas envolvidas, a possibilidade de surgirem imprevistos é enorme. Não se tem apenas de escrever a trama dos episódios seguintes, é preciso estar sempre a gerir as questões que surgem, o que nos obriga a ter de trabalhar em várias frentes, em simultâneo. E, sim, quem escreve não tem feriados nem folgas, nem fins de semana. Porque há sempre algo a fazer. É um trabalho difícil e pesado, braçal mesmo, porque o desgaste físico é enorme, mas é, também, um desafio incrível, que testa os nossos limites. Costumo dizer que quem escreve novela, escreve qualquer coisa: não há impossíveis.

E, sobre a novela que aí vem, o que podemos saber?
Está já perto de se estrear, e aquilo que mais importa dizer é que é uma novela emocional, com uma história com que todos se vão identificar. O amor é o tema chave deste projeto. E a desculpa para tudo o que as nossas personagens fazem. Em nome do amor, fazem-se as melhores e as piores coisas. E é essa ambivalência que a novela explora. Por exemplo: porque ama demais a mãe, o nosso protagonista aceita ser preso por um crime que não cometeu, para tentar salvá-la. Tal como outra personagem acha normal ficar com um filho que não é dela, para suprir a dor que sente pela morte da própria filha. São apenas dois exemplos, mas isto permeia toda a novela. E o público é quem vai ajuizar se isso faz, ou não, sentido, vai-se questionar se seria capaz de ir tão longe, se o caso se passasse consigo. No fundo, a novela tem este lado provocatório: o que é que você faria se fosse consigo? Sem julgamentos. Mas também faz com que muitos se vejam ao espelho, e repensem as suas decisões.

Vamos ter personagens icónicas? Quem as interpreta? O que nos pode revelar?
Vamos, sim. E, desta vez, serão várias. Para além dos protagonistas - Zeca (Graciano Dias), Ema (Ana Varela), Raul (Sérgio Praia), Vanda (Fernanda Serrano) e Célia (Sofia Ribeiro) - que têm a função de levar a história adiante, deixo alguns nomes que vão, também, dar muito que falar, já para aguçar a curiosidade: Peter (Joaquim Nicolau), Rute (Ana Guiomar), Arnaldo (João Lagarto), Fana (Salvador Nery), Evelina (Susana Arrais), Antonieta (Lia Gama) e dona São (Estela Novais).

Podemos levantar a ponta do véu sobre as personagens de alguns dos atores?
Vamos ter um pouco de tudo, deixo alguns exemplos: temos uma rica (Vanda, Fernanda Serrano) que esconde a riqueza para poder continuar a acumular benefícios pessoais, ao mesmo tempo que a sua empregada (Emília, Dina Félix da Costa) se faz passar por rica, simulando que tem a vida da patroa, como se fosse esta última. Carolina (Joana Manuel), uma aristocrata falida, vê no casamento com um novo rico a salvação para o seu estilo de vida, mas encontra, na nova família, um novo sentido para a vida. Dona São (Estela Novais), que, depois de sofrer um AVC, perde o filtro e - não só diz tudo o que lhe passa pela cabeça, como se torna asneirenta - o que causa um embaraço permanente. Evelina (Susana Arrais), uma antiga escritora de sucesso em decadência, que está disposta a tudo para voltar à lista dos mais vendidos.

E há uma história de amor que sobrevive ao tempo, não é?
Sim, uma história que vai apaixonar os portugueses, na qual o amor é o tema-chave da narrativa. Não só o amor de um homem por uma mulher, como, também, o amor de um filho pela mãe, bem como de um irmão pelas irmãs. De um pai por uma filha. Zeca, o nosso protagonista, tem todas essas nuances. É uma boa alma que, cedo, foi obrigada a perder a ingenuidade. Um homem que sabe bem o que quer, justiça, sem nunca ter deixado que isso o tornasse calculista, frio, ou incapaz de sentir ou amar... Talvez isso seja o seu lado feminino a manifestar-se, fruto de ter crescido com uma mãe e quatro irmãs. Afinal, não dizem que as mulheres são feitas para aguentar todo o tipo de provações? Bom, Zeca é uma versão de calças destas mulheres lutadoras. O filho que se sacrifica pela mãe. O irmão protetor. O homem que, pela mulher que ama, roda o mundo. O pai que, pela filha, se descobre um novo homem, capaz da força de um leão. Zeca é um hino às mulheres que o educaram, é o fruto da sua influência, desse amor. Sim, porque o mundo em que vivemos pode ser considerado, ainda, dos homens, mas é do ventre das mulheres que eles nascem, são elas quem os educa, são a sua maior influência. O que mostra que, na realidade, o mundo está nas mãos das mulheres, a quem compete fazer dos seus filhos novos Zecas: homens tolerantes, homens amorosos que as amem e respeitem acima de tudo, e que as tratem como iguais.

Nas redes sociais, mostrou o Bairro da Fortuna. O que vai acontecer neste bairro?
O Bairro da Fortuna é um bairro tradicional de Lisboa, que está sob forte especulação imobiliária, quando a novela começa. Os seus habitantes estão a receber cartas de despejo, para que naquele lugar possa nascer um empreendimento de luxo, o que deixa todos revoltados, porque não só temem perder as suas casas, como, também, as suas vidas. Há pessoas para quem a vida no bairro é tudo, pois funcionam como uma família.

O que as personagens de "Amar Demais" vão ser capazes de fazer por amarem demais?
Vão ser capazes do melhor e do pior. O amor é feito destes picos: positivos e negativos, também. Teremos as maiores demonstrações de amor altruísta, como as maiores sacanices. Nos extremos, não há limites.

Em nome do amor, somos capazes de tudo?
Acredito que, em nome do amor, somos capazes de quase tudo. O limite tem a ver com o padrão moral de cada um. Quem tem essa moral, coloca-se algumas barreiras, e são essas fronteiras que nos impedem, tantas vezes, de fazer disparates. Quando a ultrapassagem dos limites é feita sabendo que não se vai prejudicar terceiros, é uma coisa. Agora, quando não é assim, e se arrasta tudo e todos no caminho, é diferente; são histórias que, normalmente, acabam muito mal. Na novela, temos de tudo.

Quando podemos considerar que estamos a amar demais?
Há uma frase de que sempre gostei e que diz que a única medida do amor é amar sem limites. Quando esse amor é saudável, será isso um problema? Acho que se começa a falar de amar demais de forma pejorativa, quando, em nome de um amor, se ultrapassam barreiras intransponíveis. Mas, quando isso acontece, também acho que é muito questionável perguntarmo-nos se se trata de amor de verdade, se não estaremos a entrar no campo da obsessão. Não acredito que o amor permita tudo. Na ficção, é interessante explorar essas zonas negras e cinzentas. Mas, na vida real, posso garantir que é muito negativo e um grande prejuízo para a vida de quem é "alvo" de todo esse "amor" (falso amor).

Em "Amar Demais", como foi o processo de decidir os finais? Um processo solitário?
Começamos a pensar nos finais, uns dois meses antes do fim da novela, para saber para onde apontar o "porta aviões" para as grandes viradas finais. Nem sempre os finais correspondem aos que, primeiramente, defini, com a minha equipa, porque as personagens estão sempre a dar voltas imprevistas e surpreendem-me até ao ultimo episódio. O processo da escrita é solitário, o dos finais é intuitivo. Mas feito entre todos: eu lanço as ideias que tenho e, depois, discutimo-las. Umas mantêm-se, outras alteram-se. Depois disso, vejo, com o José Eduardo Moniz, os finais em que estamos a pensar, e sigo para a linha da meta.

A par desta novela, está a trabalhar em duas minisséries e em projetos para cinema, na área da produção. O que podemos saber?
Uma das minisséries que refere, que tem o nome de trabalho "Pecado", está já a ser filmada. Espero que a possam ver, em breve, na TVI. Acho que o público vai gostar, porque se trata de uma história que está muito concentrada em poucas personagens: seis personagens principais, seis segredos. E, à medida que a história avança, percebemos que tudo se interliga. Tem uma estética mais cuidada, o elenco é excelente, e espero que surpreenda. É uma história atual, que pretende lançar a discussão sobre a obrigatoriedade do voto de celibato dos padres. Por que a Igreja lhes exige isso, quando o celibato nem sequer é um dogma de fé da Igreja? Existe muita hipocrisia à volta desse tema, por causa dessa proibição. São quantas as histórias de padres que, afinal, se relacionam com mulheres? Padres com filhos não reconhecidos? Padres envolvidos em todo o tipo de escândalo de natureza sexual?… Não seria melhor aceitar que padres são pessoas de carne e osso, como nós, com direito a vida pessoal? Em que é que ter uma família pode prejudicar a sua atividade como padres? A outra minissérie em que estive a trabalhar é histórica, e está a aguardar financiamento. Vamos esperar que avance para se falar nela. No cinema, tenho grandes desafios. Estou a começar a trabalhar num filme sobre a história secreta da Amália, baseada no livro Amália, uma história secreta que deriva de uma grande investigação do jornalista Miguel Carvalho, que nos conta que - ao contrário do que a maioria pensa, - Amália não era fascista, pelo contrário. Durante anos, não só ajudou refugiados políticos, como financiou atividades do partido comunista. Acho que se trata de uma reposição histórica justa e necessária. Amália merece isso. E é uma grande história. E ela era uma mulher que desafiava o seu tempo. Esse é um tema que me interessa: esse das mulheres fortes, que estão à frente da sua época. O segundo filme em que estou a trabalhar, em Portugal, tem a mesma natureza. Além disso, tenho um guião de longa para entregar no Brasil, para uma história que será feita entre os dois países, um original meu, um dramedy, na verdade, cujo tema de fundo assenta na precariedade do sistema de segurança social, que está em crise um pouco por todo o mundo e cuja potencial falência põe em causa os direitos adquiridos de tantos idosos. Este é, para mim, um dos grandes temas do momento e que tem de ser falado.