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Dalila Carmo desabafa sobre a pandemia: "Este ano, levei uma 'tareia'. Seria hipócrita negá-lo"

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"Fraturante". É desta forma que Dalila Carmo caracteriza o ano de 2020, inevitavelmente marcado pela pandemia de Covid-19. Mas, mesmo nos momentos de maior provação, podemos tirar as mais importantes lições e "o ano de todos os horrores" não é exceção. A atriz acredita que a pandemia nos deixou mais atentos às nossas limitações e é uma razão para repensarmos na nossa vida. Numa entrevista exclusiva – e franca – à SELFIE, Dalila Carmo fala, ainda, sobre as novidades no futuro profissional, porque, como a própria defende, a Cultura "é o que nos permite voltar a ter esperança".

Já passou quase um ano desde o fim das gravações de "Na Corda Bamba", a última vez em que marcou presença no pequeno ecrã. Por que motivo é que esta novela – e, particularmente, a sua personagem, Lúcia Lobo – a marcou tanto?
A Lúcia teve muitas camadas. E camadas que estavam escritas, desde o início. Foi uma personagem com uma amplitude, um espetro de cores muito grande. Também me deu um gozo particular trabalhar uma personagem que fosse difícil, devido à incidência que tinha na história. É sempre um compromisso muito grande, mas, nesta novela, não dava para ser de outra maneira. E a história foi algo que me captou desde o início. Eu lia a escrita do Rui compulsivamente. Lia compulsivamente os guiões e toda a trama, que é uma "teia" bastante complexa – e esse aspeto é que é, para mim, o apelativo desta história. Foi um desafio. Como é que ia fazer justiça a esta personagem tão paradoxal e ao humor negro, de que também gosto bastante? Além disso, gostei muito de alguns elementos que a equipa de realização trouxe a este projeto. O Marcos Schechtman [realizador], a Helena Varvaki [diretora de atores]... Nós tivemos a liberdade da mise-en-scène. Na ficção para televisão, ainda estamos muito reféns da parte técnica e vemos sempre os atores muito conscientes das câmaras. Aqui, o foco era a cena e, na maior parte das vezes, os atores nem sabiam onde estavam as câmaras e, assim, obrigava a que toda a gente ficasse realmente concentrada naquilo que estava a fazer. Partiram-se todos os "espelhos". Se alguém trabalhava com um "espelho", deixou de o usar. Obrigou toda a gente a estar ali, em cena, sem saber em que momento iriam ser filmados. Este foi apenas um dos muitos aspetos de que eu gostei, porque, dessa forma, as cenas adquiriam um naturalismo, que, dentro da linguagem televisiva, pelo menos aqui, não é tão frequente. Até agora, nunca tinha sentido essa liberdade, em cena, só para nos concentrarmos no que estamos a fazer, sem nos preocuparmos se estamos a ser filmados por uma determinada câmara, se a luz está boa... Nesta novela, só a realização é que se ocupava desses aspetos. E, assim, os atores eram muito mais espontâneos e trabalhavam mais em cima da verdade do momento. Além disso, como a equipa e o elenco acreditavam na novela, e estavam comprometidos neste projeto, criaram uma cumplicidade. Quando se grava a um ritmo intenso, às vezes, há aspetos do ponto de vista humano em que, se calhar, posso ter-me negligenciado. Corre-se o risco de se ficar um pouco mais desatento, mas, nesta novela, senti-me apoiada por todos e tentei sempre dar esse retorno. Foi um grupo particularmente coeso, a nível técnico e de elenco.

A novela ganhou uma nomeação para os Emmy. É um reconhecimento de que este é um produto de primeira linha?
Sim, de facto, "Na Corda Bamba" é de primeira linha. Quero acreditar, também, que é um sinal de que estamos no bom caminho. Para mim, e eu já o afirmei publicamente, várias vezes, foi o meu projeto preferido, em muitos anos de TVI, e acredito profundamente nesta novela. É, realmente, o meu projeto de eleição, a um nível universal. Do texto à realização, à iluminação, à banda sonora... Reúne muitas qualidades que eu acho que poderiam começar a ser uma opção, na nossa ficção. Além de achar que deve haver uma maior variedade de formatos (telefilmes, séries, minisséries...), acredito que, dentro da própria linguagem de escrita de novela, deve-se aceitar que existem vários universos e que podem não ser tão transversais... Obviamente que há sempre um público-alvo, mas isso não quer dizer que não se desenvolva, que não se trabalhe, no sentido de diversificar para esse mesmo público ou, até, conquistar novos públicos, que, hoje em dia, só estão nas plataformas e já não querem saber da televisão para nada. Temos de partir do princípio de que estamos sempre a começar. Nunca dar nada como garantido.

Por falar em não dar nada como garantido, como é que tem lidado com a pandemia?
Tenho lidado mal com a pandemia. Este é um ano que eu acho que está a ser terrível, no geral, para toda a gente. A nível pessoal e profissional, tem sido fraturante para muitas pessoas, grupo no qual estou incluída. Este ano, levei uma "tareia". Seria hipócrita negá-lo. Acho que os próximos anos vão ser um bocadinho complicados. Por enquanto, temos de gerir os problemas de 2020, mas, também, teremos de gerir os problemas que irão surgir, nos próximos anos... 2021, para já, também não se avizinha muito simpático... Acima de tudo, temos de continuar a nossa caminhada e ter consciência dos nossos limites... Acho que este ano serviu para isso, para ficarmos mais atentos a essa limitação. Tudo nos ultrapassou, fomos "atropelados por vários camiões". Mas é preciso ter consciência de que, mais do que nunca, vamos ter de repensar a nossa vida, a nossa profissão, as nossas valências... E temos de pensar como é que podemos, construtivamente, desenhar, agora, o nosso futuro, o nosso plano de vida para os próximos anos.

Infelizmente, os efeitos negativos da pandemia fazem-se sentir, bastante, no setor da cultura. Aliás, no passado sábado, dia 21, até aconteceu a Manifestação pela Cultura. Vê com preocupação a crise sem precedentes que essa área está a atravessar?
Óbvio. Vejo com muita preocupação. Tem sido terrível, terrível. Eu tenho uma peça de teatro, cujos ensaios iriam começar, agora, em janeiro e... não sei. Não sei se a peça vai acontecer, se não vai acontecer... É terrível. Assim como acontece com outros setores. Não quero minimizar os restantes setores, como a restauração. Acho que, neste momento, está toda a gente a sofrer muito com a pandemia. Mas a verdade é que o setor da cultura é muito precário. Tenho imensos colegas que não têm trabalho, que estão a passar fome... Na verdade, muitas pessoas não veem na cultura uma necessidade primária e, por isso, sempre se subestimou esta área. E, neste momento, é urgente termos muito cuidado com a classe artística, que abrange milhares de profissionais. Milhares de profissionais, entre atores, músicos, bailarinos, técnicos, escritores... Inclui tanta, tanta gente... Temos muitas pessoas a precisar de garantias e cujos trabalhos continuam a ser adiados, cancelados... É que é tudo: concertos, peças de teatro, estreias de filmes... Nós queremos acreditar que tudo isto é transitório... mas nada garante que assim seja. Neste momento, precisamos de ser ouvidos e estamos a lutar por isso. E acho que, num ano como este, tornou-se evidente que a cultura é um "balão de oxigénio", que nos permite voltar a ter esperança. Eu não teria sobrevivido este ano, se não tivesse os meus livros, as minhas músicas, os meus filmes... É inacreditável como ainda não se valoriza a cultura.

Sendo uma "viajante profissional", tem saudades de viajar?
Sim, tenho saudades de viajar. Mas, neste momento, não é o mais importante. Não viajar é uma chatice, mas não é um problema grave. Apesar de não estar a viajar, agora, à partida, sabemos que existe essa perspetiva. No entanto, até essa viagem, há outras coisas que é preciso resolver. Viajar é um bem de luxo, que pode esperar perfeitamente. Agora, temos de nos preocupar com as necessidades primárias.

A avó de Dalila Carmo faleceu há cerca de uma semana. É especialmente difícil fazer um luto neste período de pandemia?
Não sei... No meu caso, seria mais difícil fazer o luto a trabalhar, sobretudo, se não tivesse tido esta oportunidade de estar perto. Dentro do horror da pandemia, essa foi uma boa conspiração do universo. Ter-me dado a possibilidade de estar um mês e meio perto da minha avó. Se não tivesse acontecido isso, se estivesse a gravar e não pudesse estar perto, no Porto, aí, teria sido muito pior... Aí, teria sido, realmente, muito mais duro para mim. E, depois, na minha família, nós somos poucas pessoas. A minha mãe e a minha avó são os grandes pilares. Portanto, para mim, no meio do horror, foi uma situação que acabou por me dar alguma paz. A pandemia, pelas piores razões, deu-me tempo para poder "olhar para dentro", para poder parar, dedicar-me à memória da minha avó, de uma forma mais tranquila. Há pessoas que gostam de trabalhar - e eu também quero trabalhar -, mas o que preciso, agora, também, é de um bocadinho de silêncio. A pandemia deu-me esse silêncio, mas não deixa de ser o “ano dos horrores”. E eu tive esta possibilidade de estar perto da minha avó. Não era todos os dias, mas consegui. Agora, as pessoas que não tiveram a oportunidade de se despedir dos seus familiares, por causa da pandemia... Só consigo imaginar o que será esse sofrimento. Para todos os efeitos, a pandemia é a pior coisa do mundo. No meu caso, tive tempo. Só isso. Tive tempo, que me possibilitou estar perto, privilegiar a minha vida, em detrimento das minhas funções diárias... Mas a verdade é que a pandemia dificultou os lutos de toda a gente, porque estamos todos sem poder estar perto uns dos outros.

Falando, agora, em novidades profissionais, vai estrear, em breve, na TVI, a minissérie "Pecado", de cujo elenco faz parte. Com as gravações já terminadas, que balanço faz deste trabalho? Muitas expetativas pela estreia?
Em primeiro lugar, fico feliz por ser um formato de minissérie. Andei anos a incentivar para que se apostasse neste tipo de produto e, agora, finalmente, os canais estão a apostar em formatos mais curtos. Acho que o público quer formatos mais curtos. E, portanto, ficámos muito contentes por ser uma minissérie, por ter um tratamento mais cinematográfico... Estávamos todos muito contentes. Todos. Queríamos todos explorar uma outra linguagem, no universo televisivo. O [Pedro] Lamares, o Diogo [Infante], o Tó Correia [António Borges Correia, realizador], que, também, quis explorar coisas novas... Tenho grandes expetativas para saber como ficou o resultado. Ainda não vi nada, mas estou curiosa, sim. E, acima de tudo, estou contente por os canais estarem, agora, a diversificar a linguagem e os formatos. É bom, para a ficção televisiva.

Além disso, está previsto um regresso aos palcos, com a peça "Noite de Estreia" [em princípio, estará em cena, no Teatro da Trindade, entre 25 de fevereiro e 11 de abril de 2021]. Por que motivo este projeto lhe é tão especial?
"Noite de Estreia" é um filme do John Cassavetes, de 1977, que é sobre uma peça. Há uma peça dentro do filme e nós, agora, vamos fazer uma peça que é sobre um filme que é sobre uma peça [risos]. O texto levanta tantas, tantas questões... Foi a história que me fez perguntar ao Martim [Pedroso, responsável pela adaptação e direção] se não queria adaptar o filme para teatro. O texto coloca várias questões pertinentes e universais. Além de explicar as inter-relações entre toda a gente da indústria - desde o encenador aos atores, aos escritores -, é um texto intemporal, porque a personagem principal é alguém que não gosta de envelhecer, que tem os seus problemas com o tempo. A história aborda a pressão do tempo, da juventude... fala do desencanto, da perda da ingenuidade... Está tudo neste texto. Ao mesmo tempo, a personagem principal sofre um conflito existencial enorme, porque, durante toda a vida, só se dedicou ao trabalho. É sobre essas questões existencialistas. Será sempre um texto intemporal. E está adaptado de uma forma muito intimista, ou seja, gosto do naturalismo, da estética do naturalismo, gosto de sentir o público perto e que o público sinta a nossa respiração... O público vê os nossos poros, as rugas... a nossa intimidade. Acho que é isso. Esta peça mostra a nossa intimidade.