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Marcos Pinto: "Bolsonaro e Trump, a culpa é do hashtag"

Marcos Pinto

Não se aprendeu com Trump. Um milionário extremista, presunçoso, sexista, vulgo apresentador de um reality-show, chegar à Casa Branca? "No way, we are cool".

Pensou-se que o tio Sam não desperdiçaria uma outra oportunidade histórica, depois de Obama, de ter, pela primeira vez, uma mulher presidente. Pelo sim, foi mais pelo não, inventaram-se uns hashtags (#notrump #notmypresident #resistrump), juntaram-se grandes nomes da música e do cinema, mais as histórias de assédio sexual, divulgadas nas principais redes sociais, para (re)forçar o óbvio e pensou-se que os ditos influenciadores chegariam, de forma eficaz, ao eleitorado.

O resto é uma história mirabolante que só terá fim daqui a dois ou, até, seis anos, com uma personagem principal que devia ter sido ignorada e remetida apenas à condição de candidato! Pelo contrário! Ganhou força com a campanha "anti" levada ao extremo no digital e pelo disparate das ideias propostas que agradaram a quem não tem e-mail ou conta no Facebook. Provou-se que os "anti" dos "antis" foram os grandes vencedores! Também lhe chamam democracia!

No Brasil, tinha tudo para ser diferente e repete-se a história! O #elenão foi o empurrão para Jair Bolsonaro ganhar as eleições! O general adepto da tortura, orgulhoso dos tempos da ditadura, que se pudesse acabaria com o congresso! O presidente que, imagine-se, vai dar uma arma a cada brasileiro para acabar com o crime!

E repetiu-se o erro. Juntaram-se os atores de novela e os músicos que chegam a milhões de espetadores e seguidores, partilharam links com os momentos mais anedóticos de Bolsonaro, que o ridículo chegaria para estancar o perigo e convencer o povo. Só que veio dar mais força a um candidato, que, cedo, percebeu que bastava estar calado para ganhar um país perdido e que parece já não estar abençoado por Deus! E, tal como Trump, foi mais inteligente ao perceber que as eleições não se ganham nas redes sociais, mas no eleitorado descrente e revoltado!

Bolsonaro e Trump! Duas vitórias perfeitamente anormais levadas ao colo pelo cardinal dos hashtags e por um mundo digital que, do bom propósito, foi mal medido nestes casos, estando a gerir um presente perverso, capaz de desvirtuar o futuro e as grandes conquistas da humanidade, dando um sentido perigoso à célebre frase de Churchill que "a democracia é a pior forma de governo com a excepção de todas as outras".