WebSummit 2019, por Ricardo Tomé

OPINIÃO
Ricardo Tomé
Diretor Coordenador da Media Capital Digital
Ricardo Tomé

Sem dúvida que a WebSummit continua a colocar Lisboa e Portugal no mapa mundial. As conferências continuam a abarrotar de gente, com os pavilhões a serem já pequenos demais. A Altice Arena está sempre bem composta e ouvem-se mais línguas estrangeiras que o português, ou não fossem dos 74,000 visitantes a maioria estrangeiros. Este é mesmo um evento ímpar que põe o mundo digital no epicentro da agenda e Portugal também.

O que retirar desta edição de 2019?

Principais temas: Privacidade, dados e personalização. O impacto da inteligência artificial no bem, no mal - e um foco na proteção do planeta. As redes 5G. E mais um rol de ideias capazes de mudar o mundo. Em suma: inspiração, provocação, reflexão. 

Comecemos pela privacidade: nunca se falou tanto na mesma. A começar pela abertura com Edward Snowden. O mote estava dado. E repercutiu-se em muitas outras conferências e nos variadíssimos 'corners' junto de startups e empresas mil. A recolha dos dados pessoais é um tema sensível. A utilização dos mesmos pior ainda. Queremos todos maior controlo. Queremos menos abuso e manipulação em cima dos nossos dados, do que fazemos, do que visitamos, do que lemos, vemos, conversamos. A publicidade endereçada um-a-um via programática assusta utilizadores (uns) e entusiasma outros (marcas) mas é sobretudo na manipulação de ideias e a reboque das fake news e das deep fake news que o tema ganha relevância, sobretudo num mundo onde os exemplos em redor de eleições são palpáveis – Bolsonaro, Brexit e Trump. Os media mais tradicionais, como nós, têm aqui um papel fundamental pela curadoria de conteúdos num ecossistema mais “seguro".

Sobre inteligência artificial: quase sempre presente em todas as palestras. Se por um lado se banalizou ou relativizou (um simples feed de notícias é composto por I.A.) por outro idolatrou-se: teremos futuramente entidades não-humanas e cuja inteligência será atroz de orgânica, não programada, mas eficaz em papéis no nosso dia a dia e capazes de replicar emoções humanas. Mas a mensagem nunca demais a reter e repetir veio da Microsoft, com uma apresentação feita no Palco Central pelo seu presidente Brad Smith a dar nota de que qualquer ferramenta pode ser uma arma (tema do seu livro) e que esta I.A. deve portanto também servir de arma para combater as desigualdades, procurar um equilíbrio energético maior no planeta, eternizar a memória cultural, amplificar as acessibilidades ou lutar pela defesa da sustentabilidade do planeta, dando o exemplo e trazendo a palco a OceanMind, organização que ajuda a policiar os oceanos graças à I.A. e onde o mote é poderoso: 1 em cada 5 peixes no planeta são pescados ilegalmente!

Daqui para o 5G.

Repetiu-se, sublinhou-se, tweetou-se, e foi talvez a expressão que conseguiu rebater a I.A. para a medalha de prata das hashtags. Porque chegou. Está aí. Inaugurada em Portugal este ano (em piloto). Idem no resto do mundo. E com a promessa de o revolucionar. A Verizon, aliás, trouxe Ronan Dunne ao nosso país vestido de t-shirt (queimem-se as camisas, gravatas e fatos – digital é feito de coolness com ganga e camisolas, algumas a custar 780 euros, ao que parece...), CEO da divisão de grande consumo e que sumarizou e bem os 8 impactos do 5G: Maior velocidade (imagine aquilo que tem em casa no wi-fi, mas agora em qualquer lugar); Mais robusta; Sem latência, ou seja sem quebras de sinal e sempre com performance elevada, no pico, o que torna finalmente possível ter dispositivos ligados em simultâneo; Capaz de assegurar ligação a equipamentos em deslocação a alta-velocidade, como comboios ou automóveis; Rapidez na disponibilização de serviços sobre a rede; Maior espectro e finalmente a muito maior eficiência energética, onde para a mesma performance com 4G seriam precisos consumos de recursos 10x maiores.

Por fim, as ideias!

Da responsabilidade das marcas aos conteúdos das mesmas em digital, às redes sociais que hoje dividem os feeds com as plataformas de chats por onde falamos em grupos privados, aos dispositivos de voz como as colunas que hoje trazem humanização ao que outrora eram apenas máquinas, ao desafio da Huawei de criar um novo ecossistema de apps junto com Android e iOS, à cruzada da reinvenção das propostas de valor das marcas num mundo em constante mutação, ao rebranding e ao papel do marketing digital, aos desafios da comunicação feroz num mundo VUCA e de mil e um canais online e offline onde marcas tecnológicas como MailChimp ou Spotify tiveram de se aprimorar e ser mais portadoras de valores e de emoções do que de zeros-e-uns. Enfim, horas cheias de ideias, provocações, reflexões. Tudo o que serve para nestes 3 dias e meio encher a mente a borbulhar e fazer a diferença. Nos negócios. Na conquista pessoal. No impacto na sociedade.

No final, essa continua a ser a mensagem da Websummit – a de que qualquer um de nós, com uma ideia poderosa, pode mudar o mundo através da tecnologia. Para melhor, claro.