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EXCLUSIVO

"O dia em que voltei a acreditar no Pai Natal", por Marcos Pinto

Houve um dia em que deixei de acreditar no Pai Natal - tinha cinco anos. Passei essa noite de Consoada, longe dos meus pais e mais perto dos tios e primos, no calor da lareira da avó Maria, em Riodades. Naquela noite longa, o "momento" da noite foi uma revelação dura e inesperada - afinal, ele não existe!

Como se explica que o meu primo Filipe, um cabo dos trabalhos para a paciência dos meus tios, tenha sido presenteado com o carro telecomandado topo de gama, e eu… um par de meias?! Logo eu, bom miúdo, calminho.

Espera, agora tudo faz sentido, pensei: a prima Natália, que se justificou com uma ida à casa de banho, regressa para alertar-nos que as prendas chegaram? Foi ela. Foi, assim, sem mais, nem menos, um impacto emocional fortíssimo que ficaria para a vida.

Ficou até agora. Não fica mais. Foi uma história que estava por ler. Descobri, agora. E é neste Natal que reescrevo essa história do meu tempo.

Este que é o Natal mais desafiante que estamos a viver, nesta era pandémica, longe das pessoas que mais amamos, dá-nos uma nova oportunidade de ressignificar a nossa vida, tudo o que nos aconteceu, as coisas mais impactantes com uma nova oportunidade de lhes podermos dar um outro sentido. Foi essa a perspetiva trazida por este ano desafiante, com quarentenas, confinamentos e de um distanciamento mais físico do que social. 2020 foi um ano de luta, dor, coragem e resiliência, em que o universo nos deu a vacina de despertarmos o melhor de nós. Mesmo num contexto adverso e por mais que façamos planos, a vida segue lá fora, sempre, a testar-nos, e essa é uma oportunidade sublime de evolução. Para sairmos todos, disto, a ganhar.

O passado é passado. A primeira palavra lida deste texto já é passado. O que podemos fazer é entrar na linha do tempo e ressignificar o que já lá vai, mas que pode ser para sempre. Hoje, vejo que o Filipe foi merecedor do presente, que a Natália fez o melhor que podia e que o par de meias foi o melhor que me podia ter acontecido, naquela noite fria de Natal. Que a minha "tristeza" teve só a ver com as saudades dos meus pais, que estavam longe de mim, no Natal. Ter saudades é muito bom. Sempre.

Hoje, reescrevo este meu conto de Natal. Hoje, foi o dia em que voltei a acreditar no Pai Natal e saberei receber o que ele tiver para me dar.

Marcos Pinto​