Nacional

Ana Rocha revela que foi violada, na adolescência: "Espero que já não uses a fama para assediares jovens"

A realizadora Ana Rocha de Sousa partilhou uma história de culpa e de superação, ao receber o Prémio ACTIVA Mulheres Inspiradoras 2020.

Foi na passada quinta-feira, dia 27, que decorreu a cerimónia de entrega dos Prémios ACTIVA Mulheres Inspiradoras 2020, que reconheceu o trabalho de figuras femininas nas mais diversas áreas: desde a Ciência à Arte.

Ana Rocha de Sousa foi distinguida na última categoria e, ao aceitar o galardão, partilhou uma história traumática que viveu, em 1995, quando tinha, apenas, 17 anos.

"Não existe uma mulher que não tenha tido medo de atravessar um parque escuro à noite, ou qualquer outro sítio mais óbvio de perigo eminente", começou por sublinhar a realizadora do filme "Listen".

"Existe, sempre, um momento em que baixamos a guarda. E, um dia, também eu baixei a guarda e não devia. Culpei-me. Até porque era tão ingénua, própria da tenra idade, que, mesmo avisada com estranheza do perigo, achei ser impossível. Hoje, falo para meninas, adolescentes, recém mulheres. O perigo não está apenas nos lugares óbvios. Protejam-seSeja perante a casualidade do homem anónimo escondido nas dunas. Seja perante o cantor famoso que acham conhecer e parece tão seguro, porque vos encantou com palavras líricas e bonitas. Foi em 1995 a história que não vos posso contar. Arrependo-me de muito pouco na vida, mas lamento ter guardado a história que tenho cravada por contar. A ti, menina, mulher, adolescente, eu digo: não tens culpa. Lembra-te e repete: não tens culpa. A ti, tenho imenso para dizer que pode ajudar. Escreve, se te fizer algum sentido, o que acabo de contar", afirmou Ana Rocha de Sousa.

Entretanto, a artista dirigiu algumas palavras ao abusador: "A ti, assediador, violador. Sejas tu um outro, um patrão, um homem da duna ou um cantor famoso. Fui ensinada a desejar o bem. O bem te desejo. Não pretendo nunca destruir a vida de ninguém. Jamais. Quero acreditar que, passados mais de 25 anos, és outra pessoa. Esperemos que sejas diferente e muito melhor. Quero acreditar que deixaste de fazer uso da tua fama para assediar e aliciar teenagers para o teu universo sexual, violento, louco e promiscuo. Quero acreditar que fui a única a ser forçada a crescer bruscamente sozinha na vergonha da minha culpa. Que assim tenha sido. Oxalá que assim seja. Repito: nem sou capaz de te desejar mal. Compreendo que só uma alma muito dorida, perdida e atormentada faz o que tu sabes que me fizeste. Ouve bem: nunca mais voltes a fazer. Nunca mais voltes a fazer."

Relacionados