Crónicas

"O adeus de Cristiano Ronaldo esconde uma pergunta que todos devíamos fazer: quem somos quando deixamos de ser indispensáveis?", por Vera de Melo

A despedida do craque português levanta uma questão que vai muito além do futebol: como podemos continuar a sentir que temos valor quando deixamos de ocupar o lugar que sempre foi nosso?

  • Às 16:08

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Há uma coisa de que quase ninguém fala quando se fala de sucesso: o perigo de nos confundirmos com aquilo que fazemos bem.

Cristiano Ronaldo anunciou que vai abandonar a Seleção Nacional depois dos compromissos de novembro. Disse que chegou o momento de devolver a camisola 7. E, de repente, um país inteiro começou a preparar-se para uma despedida.

Mas há uma pergunta que me parece muito mais interessante do que saber quem vai usar a camisola 7 a seguir.

Quem somos nós quando deixamos de ser aquilo que sempre fomos?

Durante mais de duas décadas, Cristiano Ronaldo não foi apenas um jogador da Seleção. Foi o capitão, a referência, o homem a quem pedíamos que resolvesse quando o jogo parecia perdido. Foi uma presença tão constante que, para muitos portugueses, imaginar a Seleção sem ele parece quase imaginar uma família sem um dos seus elementos.

E é precisamente aqui que entra a psicologia.

A nossa identidade constrói-se também a partir dos papéis que desempenhamos. Somos pais, filhos, profissionais, companheiros, líderes, cuidadores. Alguns destes papéis tornam-se tão centrais que deixamos de conseguir distinguir onde acaba aquilo que fazemos e onde começamos nós.

Na psicologia, estudamos fenómenos como a fusão da identidade com determinados papéis. Quando isso acontece, uma mudança profissional, uma reforma, uma separação ou o fim de uma carreira pode ser vivido como muito mais do que uma alteração de circunstâncias. Pode abalar a própria perceção de quem somos.

E atenção: não estou a dizer que é isso que Cristiano Ronaldo está a sentir. Não conhecemos a sua experiência íntima. Estou a falar de um fenómeno humano que esta despedida nos permite discutir.

Há pessoas que não sabem sair porque aprenderam a sentir-se valiosas apenas enquanto são necessárias.

É o pai que não consegue aceitar que os filhos já não precisam dele para tudo. A mulher que passou a vida a cuidar de todos e não sabe o que fazer quando ninguém lhe pede ajuda. O profissional que se reforma e, em poucos meses, sente que perdeu o seu lugar no mundo. O líder que não consegue entregar o comando porque confunde deixar de decidir com deixar de ter importância.

E há uma diferença enorme entre estas duas coisas.

Deixar de ocupar um lugar não significa perder o valor que construímos nele.

Mas também existe uma verdade desconfortável: nem sempre sabemos reconhecer o momento de sair. Às vezes, ficamos demasiado tempo porque temos medo de descobrir quem somos fora daquele papel. Outras vezes, saímos antes de estarmos preparados porque confundimos uma mudança com uma derrota.

É por isso que a capacidade de transição é tão importante. Não basta fechar uma porta. É preciso conseguir construir uma identidade que não dependa exclusivamente daquilo que ficou do outro lado.

E talvez seja essa a parte mais difícil de todas: aceitar que podemos continuar a ser importantes sem sermos protagonistas.

Há ainda outra questão nesta despedida. Durante anos, habituámo-nos a olhar para Ronaldo como alguém que não aceita perder, que insiste, que supera, que volta a tentar. Construímos uma imagem de invencibilidade à sua volta.

Mas há uma coisa que nem a maior ambição consegue negociar: o tempo.

E reconhecer isso não é desistir. É perceber que a vida não pode ser uma competição permanente contra aquilo que já fomos.

O nosso valor não diminui quando deixamos de bater recordes. Não desaparece quando alguém ocupa o nosso lugar. Não fica dependente de sermos os melhores numa sala, numa equipa ou numa família.

Talvez a verdadeira maturidade esteja precisamente aqui: conseguir olhar para aquilo que fomos, sentir orgulho, agradecer o percurso e não precisar de o repetir eternamente para continuar a gostar de nós.

Cristiano Ronaldo vai devolver a camisola 7. Mas não devolve os golos, as conquistas, as emoções nem aquilo que representou para milhões de pessoas.

E talvez seja esta a lição que vale a pena levar para fora do futebol:

Não precisas de continuar a ser indispensável para continuares a ser importante.

Porque há uma diferença entre deixar saudades e precisar que sintam a tua falta para saberes que existes.

E essa, sim, é uma diferença sobre a qual todos devíamos pensar.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica e da Saúde

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