"Estamos a transformar sentimentos em diagnósticos?", por psicóloga Vera de Melo
Há qualquer coisa de curioso a acontecer connosco. Nunca falámos tanto de saúde mental, nunca tivemos tanto acesso a informação sobre psicologia e nunca foi tão fácil encontrar uma explicação para aquilo que sentimos.
- Às 17:28
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Temos nomes para os nossos comportamentos, categorias para as nossas relações, siglas para as nossas dificuldades e vídeos de trinta segundos capazes de nos fazer suspeitar de uma perturbação que, até há cinco minutos, nem sabíamos que existia.
Estamos tristes e dizemos que estamos deprimidos. Distraímo-nos e começamos a desconfiar de que temos PHDA. Gostamos de estar sozinhos e perguntamo-nos se não seremos evitantes. Uma relação acaba mal e, antes de termos conseguido perceber o que aconteceu, já alguém foi promovido a narcisista, emocionalmente indisponível ou manipulador.
É extraordinário o poder que uma palavra pode ter. Às vezes, dá-nos o alívio de finalmente compreendermos aquilo que nos acontece. Outras vezes, oferece-nos uma explicação tão rápida que nos dispensa de fazer perguntas mais difíceis.
E talvez seja aqui que comece o problema: quando deixamos de usar a psicologia para compreender a experiência humana e começamos a usá-la para classificar tudo o que nos acontece.
É importante dizê-lo sem ambiguidades: falar mais de saúde mental é uma conquista. Durante demasiado tempo, o sofrimento psicológico foi desvalorizado, escondido atrás de expressões como "isso passa", "tens de ser forte" ou "há quem esteja pior". Pessoas que precisavam de ajuda aprenderam a calar-se, a sentir vergonha e a acreditar que deviam conseguir resolver tudo sozinhas.
Hoje, temos mais palavras para falar daquilo que nos dói. Conseguimos reconhecer sinais de sofrimento, identificar padrões relacionais e procurar ajuda com menos estigma. A divulgação científica, quando é rigorosa, pode aproximar as pessoas do conhecimento e facilitar o acesso aos cuidados de saúde mental.
Mas há uma diferença entre reconhecer o sofrimento e transformar cada desconforto numa doença. E entre compreender um comportamento e acreditar que conseguimos diagnosticar alguém a partir de uma publicação nas redes sociais.
Nem tudo o que nos faz sofrer é uma perturbação psicológica. Mas isso não significa que o sofrimento não mereça ser levado a sério.
Podemos sentir tristeza sem ter depressão. Podemos ter dificuldade em concentrar-nos sem ter PHDA. Podemos sentir ansiedade antes de uma decisão importante sem sofrer de uma perturbação de ansiedade. Podemos precisar de estar sozinhos sem ter medo da intimidade. E podemos ter uma relação com alguém que nos magoa sem que essa pessoa tenha necessariamente uma perturbação da personalidade.
A diferença não está em decidir que aquilo que sentimos é pouco importante. Está em compreender o que estamos a sentir, há quanto tempo, com que intensidade, em que circunstâncias e de que forma isso interfere com a nossa vida.
Um diagnóstico clínico não é uma palavra que encaixa perfeitamente numa descrição do TikTok. Exige uma avaliação contextualizada, critérios clínicos e, quando aplicável, a consideração de outras explicações possíveis. Não se faz a partir de um comportamento isolado, de uma lista de características ou da identificação com a história de outra pessoa.
Porque a vida humana é mais complexa do que uma checklist.
Podemos reconhecer-nos numa descrição de ansiedade e não preencher os critérios de uma perturbação de ansiedade. Podemos identificar comportamentos que parecem semelhantes aos de uma pessoa com PHDA sem termos PHDA. Podemos ler sobre narcisismo e reconhecer atitudes de alguém próximo sem termos informação suficiente para concluir que existe uma perturbação da personalidade.
Reconhecermo-nos num sintoma não é o mesmo que termos um diagnóstico.
E, no entanto, é cada vez mais tentador fazer esse salto.
As redes sociais não inventaram a necessidade humana de encontrar explicações para o que nos acontece, mas criaram um ambiente particularmente favorável a respostas rápidas, simplificadas e emocionalmente apelativas. Os conteúdos que prometem revelar, em poucos segundos, se estamos perante um narcisista, uma relação tóxica ou um trauma escondido oferecem algo irresistível: a sensação de que, finalmente, tudo faz sentido.
De repente, a relação que nos confundia passa a ter um nome. O comportamento que nos magoava encaixa numa categoria. A nossa história parece organizar-se à volta de uma explicação única.
Sentimos alívio. E o alívio pode ser tão convincente que confundimos a sensação de ter encontrado uma resposta com a certeza de termos encontrado a resposta certa.
O problema é que uma explicação simples pode aliviar-nos sem necessariamente nos esclarecer.
Quando passamos a interpretar toda a nossa história através de um rótulo, corremos o risco de começar a procurar apenas aquilo que o confirma. Se acreditamos que temos um determinado problema, cada dificuldade pode parecer uma prova. Se concluímos que alguém é narcisista, cada desacordo passa a ser interpretado como manipulação. Se nos convencemos de que temos um trauma por resolver, podemos começar a reler todas as nossas experiências à luz dessa hipótese.
A psicologia cognitiva ajuda-nos a compreender este mecanismo: as nossas expectativas influenciam aquilo a que prestamos atenção e a forma como interpretamos a informação. Uma vez instalada uma explicação, nem sempre é fácil olhar para os acontecimentos sem a sua influência.
Isto não significa que os nossos sentimentos sejam inventados ou que as nossas interpretações estejam sempre erradas. Significa apenas que sentir que uma explicação é verdadeira não garante que ela seja completa.
E há outro risco, talvez ainda mais subtil: começarmos a olhar para nós próprios como um conjunto de problemas a identificar e corrigir.
Em vez de perguntarmos "porque é que esta situação me está a custar tanto?", perguntamos "o que é que eu tenho?". Em vez de reconhecermos que estamos numa fase difícil, procuramos uma categoria que explique a nossa personalidade. Em vez de aceitarmos que estamos a aprender a lidar com uma perda, uma mudança ou uma desilusão, suspeitamos de que existe alguma coisa errada connosco.
A tristeza passa a parecer um defeito. A insegurança, uma falha de personalidade. A dificuldade em tomar decisões, um sinal de disfunção. O desconforto deixa de ser uma experiência a compreender e transforma-se num problema que sentimos ter de resolver imediatamente.
Como se uma vida psicologicamente saudável fosse uma vida sem emoções difíceis.
Mas não é.
A tristeza pode fazer parte do luto. A ansiedade pode surgir perante a incerteza. A irritação pode avisar-nos de que estamos sobrecarregados. A solidão pode revelar uma necessidade de ligação. A frustração pode mostrar-nos que alguma coisa importante não está a correr como esperávamos.
Estas emoções não são necessariamente agradáveis, mas podem ter significado. Precisamos de as escutar sem assumir automaticamente que representam uma doença.
A saúde mental não é a ausência de sofrimento. É também a capacidade de compreender o que sentimos, responder às nossas necessidades e procurar ajuda quando não conseguimos fazê-lo sozinhos.
Claro que existe uma linha que não devemos desvalorizar. A tristeza persistente, a ansiedade intensa, as alterações significativas do sono, a perda de interesse, as dificuldades de concentração ou outros sintomas que interferem com o funcionamento diário podem justificar uma avaliação profissional. Não precisamos de esperar até estarmos completamente esgotados para pedir ajuda. E não devemos usar o argumento de que "é apenas uma fase" para ignorar um sofrimento que precisa de atenção.
O problema não é procurar respostas. É decidir antecipadamente qual tem de ser a resposta.
Talvez precisemos de recuperar a capacidade de permanecer algum tempo na dúvida. De reconhecer que nem todos os comportamentos têm uma explicação única, que nem todas as dificuldades revelam uma perturbação e que nem todas as relações podem ser compreendidas através de uma palavra.
Há pessoas que se comportam de forma egoísta sem terem uma perturbação da personalidade. Há quem se afaste porque não sabe comunicar, porque está magoado ou porque simplesmente já não quer continuar numa relação. Há quem se distraia por estar a dormir mal, a atravessar uma fase de stress ou a tentar fazer demasiadas coisas ao mesmo tempo.
E há, naturalmente, pessoas com perturbações psicológicas reais, que precisam de ser reconhecidas e acompanhadas sem preconceito. A prudência não deve transformar-se em desvalorização, tal como a sensibilização não deve transformar-se em diagnóstico indiscriminado.
Não precisamos de transformar alguém num diagnóstico para reconhecer que nos fez mal. E não precisamos de transformar cada dificuldade nossa numa doença para reconhecer que precisamos de mudar alguma coisa.
Podemos estabelecer limites sem provar que o outro é tóxico. Podemos terminar uma relação sem lhe atribuir uma patologia. Podemos pedir ajuda sem chegarmos à consulta com um diagnóstico decidido. E podemos reconhecer que estamos a sofrer sem sentir que esse sofrimento tem de corresponder a uma categoria clínica para merecer atenção.
Talvez a pergunta mais importante não seja "o que é que eu tenho?", mas "o que é que me está a acontecer?".
A primeira procura, muitas vezes, uma identidade. A segunda abre espaço para uma investigação. Permite olhar para o contexto, para a história, para as circunstâncias, para aquilo que mudou e para aquilo de que precisamos agora.
Não é uma diferença pequena. É a diferença entre nos fecharmos numa explicação e permanecermos disponíveis para nos compreendermos melhor.
A psicologia tem um papel fundamental na forma como nos conhecemos, nos relacionamos e cuidamos de nós. Mas o seu valor não está em fornecer-nos uma etiqueta para cada experiência humana. Está em ajudar-nos a olhar para essa experiência com mais rigor, mais profundidade e menos julgamento.
Talvez o verdadeiro sinal de literacia em saúde mental não seja sabermos o nome de todas as perturbações, reconhecermos todos os padrões de vinculação ou identificarmos um mecanismo de defesa em cada discussão.
Talvez seja sabermos quando uma palavra nos ajuda e quando começa a limitar aquilo que conseguimos ver.
Porque há uma diferença entre dar um nome ao sofrimento e acreditar que, depois de lhe darmos um nome, já o compreendemos.
Nem tudo é uma doença. Nem tudo é apenas uma fase. E nem tudo o que conseguimos explicar está, por isso, compreendido.
Entre estes extremos existe um espaço que exige conhecimento, humildade e tempo. Um espaço onde podemos levar o sofrimento a sério sem patologizar a vida, procurar ajuda sem nos reduzirmos a um diagnóstico e tentar compreender os outros sem acreditar que os conseguimos decifrar através de meia dúzia de sinais.
Num mundo que nos oferece respostas antes de termos terminado a pergunta, talvez precisemos de reaprender a fazer aquilo que a psicologia exige de nós: observar, questionar, contextualizar e não confundir uma hipótese com uma certeza.
Afinal, compreender uma pessoa é sempre mais exigente do que classificá-la.
E talvez seja precisamente essa exigência que não devíamos querer perder.
