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SELFIE SEM FILTROS

Como nunca a viu! Cláudia Lopes, a mulher para além da jornalista, está na SELFIE SEM FILTROS

Como nunca a viu! Cláudia Lopes, a mulher para além do MaisFutebol
Cláudia Lopes: "Temos que saber viver num mundo que é sempre pior para as mulheres"
Cláudia Lopes: "A pessoa mais importante na minha vida é o meu marido e, depois, é o meu filho"
Cláudia Lopes: "Fiz uma promessa a mim mesma: 'Eu não quero ter um filho triste'"
Cláudia Lopes: "A minha mãe disse-me: 'Prefiro morrer de Covid do que viver sem os abraços dos meus netos'"
SELFIE SEM FILTOS convida Cláudia Lopes

Convidada da rubrica SELFIE SEM FILTROS, Cláudia Lopes abriu o coração e mostrou-se como nunca a viu.

Questionada sobre quem a conhece melhor, Cláudia Lopes não hesitou em afirmar: "O meu marido! A minha mãe tem uma visão romântica, porque os pais têm sempre uma visão romântica dos filhos, mas quem me conhece bem, quem conhece bem o meu outro lado, o meu mau feitio, só de olhar para mim, é o meu marido."

Descrever-se também não foi tarefa difícil para a jornalista, que afirmou: "Sou uma pessoa sempre bem disposta. Sou uma pessoa que vê sempre o copo meio cheio, e isto não é porque faço um esforço… não, é porque eu sou assim! Porque acho que, naturalmente, tu, de cada situação tens de tirar o melhor. Tenho o outro lado, que é sempre o lado da fúria das pessoas bem dispostas: se me zangar com alguma coisa, não é um espetáculo bonito de se ver..."

A propósito da infância, recordou que "não era muito diferente" e que manteve os traços e o "nariz pespineta".

Nessa altura, Cláudia Lopes não sonhava vir a trabalhar em televisão, como aconteceu em 1995: "A televisão, para mim, era uma coisa mágica que estava na sala, que tinha apenas dois canais e que nós nos levantávamos para mudar de canal, portanto, não fazia nem ideia de que viria a trabalhar em televisão."

Já o jornalismo desportivo surgiu de forma ainda mais inesperada, três anos mais tarde: "Não é uma coisa que eu tenha planeado. Não tinha pósteres de nenhum jogador de futebol no meu quarto, portanto, não fazia nem ideia. Se me perguntasses, na altura, qual era o plantel do Boavista, do União de Leiria… não fazia ideia. Os jornais desportivos não eram três, não eram diários, era um universo que me passava muito ao lado..."

Anos mais tarde, Cláudia Lopes, que assume gostar de um bom desafio e não ser pessoa de desistir facilmente, encontrou no jornalismo, mais do que uma profissão, uma vocação: "É uma vocação dura. O jornalismo, às vezes, é castigador, porque é muito exigente. Passei a minha vida toda a não ter fins de semana e, de facto, tive alturas em que disse 'isto é muito duro, se calhar, vou experimentar outra coisa, vou fazer não sei o quê', mas, depois, percebes que não é uma profissão, é uma vocação. Gosto verdadeiramente daquilo que faço e, portanto, chegas a uma idade em que te conformas. Não vale a pena fugir e lutar por uma vida diferente. É isto que eu sei fazer e é isto que eu vou ter que fazer, independentemente de ter estes constrangimentos."

Num mundo maioritariamente de homens, Cláudia Lopes nunca teve problemas em integrar-se e ganhou rapidamente o respeito dos colegas. No entanto, a jornalista tem consciência de que o caminho pode ser muito duro para as mulheres. "Há mulheres que passam por muitas dificuldades em imporem-se em meios maioritariamente masculinos. Continuamos a ter pessoas que têm frases muito pouco felizes no que diz respeito ao desempenho das mulheres. As mulheres fazem exatamente o que fazem os homens e ainda usam saltos! Isto é tudo muito giro, mas fazer tudo o que os homens fazem de saltos é muito mais complicado. Eu nunca senti esse problema, mas, também, dei-me sempre ao respeito. Sabia exatamente o meio onde trabalhava, sabia exatamente os cuidados que tinha que ter para minha própria defesa. Quando tu abres uma porta, ela fica aberta para os dois lados, e isso, na vida, é válido para tudo, e, portanto, tu não podes abrir determinado tipo de portas. Não podes passar determinado tipo de linhas, porque, lá está, nós temos que aceitar e saber viver num mundo que é sempre pior para o lado das mulheres, então, para não dares nunca esse tipo de pretexto, tens de te defender."

"Gosto de um bom desafio, gosto de ganhar, mas gosto de ganhar sem passar por cima de ninguém, mas, sim, gosto de provar que sou capaz de fazer. E quando me proponho a uma coisa, quando ponho uma coisa na cabeça, não sou pessoa de desistir fácil, até porque acho que não deves desistir nunca sem tentar antes", assumiu.

Ao fim de mais de dez anos, seria impossível falar de MaisFutebol sem falar de Cláudia Lopes, e vice-versa, como a própria reconheceu: "O 'MaisFutebol' faz parte da minha vida, e eu acho que, ao fim deste tempo todo, também sou um bocadinho o 'MaisFutebol'. Há uma estupidez natural minha, é difícil outra pessoa encaixar-se nesse registo."

Questionada sobre quem mais acreditou nela, não teve dúvidas: "Eu! Acho que isso é o que tem de ser mesmo, temos de acreditar em nós, porque os outros não vão lá fazer nada por nós, esquece. Também sou a minha maior crítica, sempre. Podes não acreditar, mas nunca vejo um programa, porque se eu for ver um programa vou encontrar imensas falhas, porque sou a pessoa mais crítica daquilo que faço."

Já os pais apoiaram-na sempre: "Os meus pais são muito católicos, eu não, e o meu pai tinha uma frase muito engraçada que dizia: 'Quem muda, Deus ajuda.' Então, ele dizia-me sempre: 'Vai, faz o teu caminho, porque, se alguma coisa correr mal, não te vai faltar nada'. Isso é uma rede de segurança absolutamente extraordinária, é como saltares, mas saberes que levas paraquedas e, portanto, vais. É diferente de saltares completamente para o vazio. Foi das coisas que mais senti quando o meu pai morreu, foi perder esse tipo de rede de segurança, e dizer: 'Espera lá, eu, agora, estou no mundo dos crescidos e não tenho cá o meu pai para me amparar os golpes.' O meu pai foi uma pessoa que nos educou com muitos e bons princípios, que eu acho que, hoje em dia, não se tem. Não tenho essa coisa da estrelinha, mas tenho essa coisa do 'será que eu continuo a comportar-me tal e qual ele me ensinou, tal e qual ele me educou?' E isso, sim, é uma coisa que me faz, de vez em quando, 'endireitar'".

"Fisicamente e em termos de feitio, sou muito parecida com o meu pai e, portanto, há toda uma identidade. Aquilo que eu sou, hoje, obviamente, devo à educação que os meus pais me deram e ao caminho que eles me proporcionaram e às escolhas que fui fazendo e que eles me foram amparando os golpes. A vida é muito curta", continuou Cláudia Lopes, que perdeu o pai, vítima de um cancro de pele.

"Há circunstâncias que tu não esperas. No caso do meu pai, foi uma doença e, portanto, eu estava à espera. Preparada não estás, nunca estás. São duas coisas diferentes. Neste momento, há uma coisa que me assusta muito que é: a minha mãe tem 80 anos. Isso assusta-me horrores", confessou.

"Nos primeiros tempos [da pandemia], foi muito difícil, mas eu vi sempre a minha mãe. Não ver a minha mãe estava fora de questão. Eu ia a casa dela, quase todos os dias, e ficava ao portão, a vê-la. Depois, houve uma outra fase, que foi a fase do neto. A minha mãe não via o meu filho há muito tempo e houve uma altura em que me disse: 'Eu prefiro morrer de Covid do que viver sem os abraços dos meus netos'", recordou a jornalista.

A propósito do casamento e da família que construiu com Marco Braz, Cláudia Lopes confessou: "O meu marido enganou-me, porque ele dizia que não queria ter filhos. Se eu acho que sou 'galinha', ele entra na categoria 'avestruz'. Tu pensas sempre que as coisas vão correr bem. Ninguém entra num casamento ou num relacionamento e acha que as coisas vão correr mal, mas eu acho que o melhor é não fazeres grandes planos. É um dia de cada vez, é ver como corre. A vivência do dia a dia é má, porque é feita de rotinas. Quando namoras com alguém, não tens lingerie com borboto. Quando tens um namorado, é tudo em bom. Costumo dizer que o namoro não tem pêlo, porque a pessoa fazia a depilação, aquela coisa toda… o casamento tem tudo! Tem borbotos, tem pêlo, tem cabelo com raízes de brancos, porque é feito do dia a dia. Tens que encontrar coisas boas nas rotinas diárias, tens que ter cumplicidade, tens que ter prazer em ver um filme, de manta e pantufas...."

Apesar de se assumir como uma pessoa pouco romântica, Cláudia Lopes não esconde que gosta de ser mimada: "Não comemoro o Dia dos Namorados, que é uma coisa que eu abomino com todas as minhas forças. Acho uma piroseira sem fim, que, carinhosamente, defino como o Dia dos Atrasados. Agora, gosto que me mimem, que é uma coisa completamente diferente. O mimo é espontâneo, é quando a pessoa te oferece uma coisa qualquer (não que o amor tenha de ser só coisas materiais! Calma pessoas, não se enervem já), mas é quando a pessoa se lembra de ti, por qualquer razão, e é o mimo do dia a dia. Eu acho que não vale a pena nós não tratarmos bem a pessoa que está connosco, todos os dias, e, depois, fazermos grandes gestos. Eu e o Marco somos pessoas que nos respeitamos muito, no dia a dia, e somos os melhores amigos um do outro. [...] Acima de tudo, o que faz um casamento funcionar, além do amor, obviamente, é o respeito, mais do que os ursos de peluche e as rosas."

Receber a notícia de que estava grávida de gémeos e perder um dos bebés foi um momento extremamente doloroso para a jornalista, que teve de encontrar forças para levar avante a gravidez do pequeno Simão, agora com seis anos.

"Essa fase da minha vida foi… como estar dentro de uma máquina de lavar daquelas das lavandarias. Foi desde um pico total de adrenalina a um pico brutal lá em baixo e foi assim uma coisa muito às cambalhotas. Eu lidei com imensas boas notícias, depois, com péssimas notícias, notícias que ninguém merece... Aquilo parecia mesmo que eu estava nos Pirinéus, foi sempre a subir e a descer", começou por recordar Cláudia Lopes.

"Tive essa imensa capacidade de dizer 'Bora lá! Vamos para a frente'. Não podes fugir. Vais fazer o quê? Enfiares-te debaixo da mesa? Não vale a pena. Eu fiz uma promessa a mim mesma e falei disso, na altura, com o Marco. Disse: 'Eu não quero ter um filho triste.' Portanto, eu não me queria entregar a um sofrimento e a uma dor que, provavelmente, se eu tivesse perdido um único filho, me teria deixado levar. 'Não quero que a dor domine o resto da minha gravidez, portanto, estou aqui numa corrida com a dor e ela não pode ganhar!'", confessou.

Hoje, já com algum distanciamento, consegue falar abertamente sobre essa dor: "Tudo na vida passa. Tu não esqueces, mas eu sou assim, tenho uma necessidade de arrumar as coisas e, portanto, é um assunto que está muito arrumado. Não é tabu, mas não é propriamente uma coisa sobre a qual nós falemos muito. Aquilo que me leva a falar, em momentos como este, é apenas para que quem ouve perceba que não está sozinho. Quando tu estás lá, naquele momento, tens muita dificuldade em perceber que, num ápice, porque eles crescem, isto, um dia, passa. Não esqueces, arrumas essa dor lá numa caixinha bonita, porque é uma coisa que era um sonho bonito. Está lá, está guardado, e tu deves só falar disso, porque as pessoas que estão a passar pelo mesmo merecem saber que, no fim, há um dia em que nós respiramos fundo, olhamos para trás e dizemos: 'Passou'. É só por isso."

O apoio do marido, Marco Braz, foi essencial para a jornalista: "Nesta fase, as coisas estão muito centradas na mulher, porque a mulher é que está grávida, e as pessoas centravam-se muito na minha dor e perguntavam muito por mim e como é que eu me estava a aguentar… e, depois, esqueciam-se do outro desgraçado, que teve que arrumar a dor dele, muito arrumadinha, e estar lá para mim. Acho que, hoje em dia, se calhar, por incrível que pareça, é mais fácil, para mim, falar sobre este assunto do que para o Marco. Talvez porque ele não tivesse tido a oportunidade de, na altura certa, viver a dor dele com a intensidade que ele tinha que viver."

Na altura, o pequeno Simão, agora com seis anos, acabou por nascer prematuro, às 30 semanas, o que significou mais uma dura prova para a jornalista da TVI.

"O amor pelos filhos é progressivo. Não é uma coisa mágica, não é uma coisa do tipo eles nascem e tu amas. Primeiro, é choque, porque é uma criança que nasce de 30 semanas e, quando tu olhas, é um rato. É uma coisa mínima. O meu filho pesava 1,300kg, com o peso que eles perdem depois de nascer, ele baixou quase para 1kg. É um pacote de arroz, é uma coisa mínima e, portanto, tu ficas em choque: será que ele vai sobreviver? O teu primeiro instinto, enquanto mãe, é a sobrevivência dele, se ele não vai ter sequelas e, portanto, tu não tens essa coisa do amor profundo e incondicional. Tu estás em choque, tu queres é que tudo corra bem. O amor há-de vir, depois. Não é que tu não gostes do teu filho, não é isso, mas não é aquela coisa idílica. [...] Tu só consegues ter esse amor feliz quando percebes que o teu filho está livre de qualquer perigo e está bem de saúde. Até lá, tu entras numa espécie de modo robô. É preciso fazer, é preciso que corra bem, é preciso vigiar, é preciso estar alerta, portanto, não é um modo doce, é um modo muito autómato, porque tens uma criança muito dependente, que esteve internada muito tempo. Depois, há um dia em que os médicos te dizem: 'Ele hoje vai ter alta!' E tu achas que a tua reação é felicidade. Não! A tua reação é de pânico, porque, a partir daí, ele está entregue aos meus cuidados e do pai, não há nenhuma enfermeira, nenhum médico, nem sistema de alarme, nem nada. Quando ele está ligado às máquinas, tudo aquilo apita, se houver alguma coisa. Quando está em casa, está entregue a nós… Agora, somos só nós os três e, portanto, a coisa vai ter de correr bem. Só mais tarde, bastante mais tarde, é que tens essa fase de contemplação, em que respiras fundo, em que passaram todos os perigos, em que consegues vivenciar a coisa com esse romantismo", recordou.

Ainda a propósito do tema da maternidade, Cláudia Lopes aproveitou para falar sobre a depressão pós-parto: "Tem que se falar, porque é uma coisa séria. Os primeiros meses de maternidades são piores do que levar com um pau com pregos nas costas. Normalmente, é muito duro, porque as crianças exigem muito de ti. Quando te calha a ti acordares de duas em duas horas, tu queres-te matar, queres-te atirar da janela abaixo. Eu acho que é bom que algumas pessoas falem nisso, porque nem tudo são flores."

Ultrapassados esses momentos delicados, hoje, Cláudia Lopes encontra no filho a gargalhada que mais a faz feliz: "O meu filho tem um riso absolutamente extraordinário, é um miúdo que tem imensas cócegas e eu adoro torturá-lo com cócegas, porque é uma coisa muito nossa e que ele adora. E, portanto, esse tipo de som, da gargalhada dele, é a coisa que mais anima o meu cérebro."

"As pessoas enervam-se com tudo nas redes sociais e ficam muito ofendidas quando as pessoas dizem: 'A pessoa mais importante na minha vida é o meu marido e, depois, é o meu filho'. Há aqui uma razão muito simples que é: tu não podes gostar mais do teu filho do que de quem te ajuda a criá-lo, porque isto de criar uma criança não é tarefa nada fácil e, segundo ponto, acho que o meu filho é uma criança mais feliz se o pai e a mãe forem felizes. Se ele viver num ambiente de felicidade, cumplicidade, carinho, brincadeira, boa disposição, ele vai ser uma criança mais feliz. Acho que as pessoas que vivem em casamentos em que não são felizes, isso traduz-se em crianças com ansiedades, com problemas de integração. Tu não consegues disfarçar", explicou Cláudia Lopes.

Questionada sobre o que mudou nela com a maternidade, a jornalista não teve dúvidas: "Sou melhor pessoa. És melhor pessoa, porque és menos centrada em ti, preocupas-te mais com os outros e isso faz de ti melhor pessoa. Aprendemos a ser outras pessoas, aprendemos uma outra existência, aprendemos a respirar fundo, porque as crianças desafiam-nos... Aprendemos mais com eles do que nos projetamos neles. Agora, acho que é engraçado tu veres coisas nos teus filhos e perceberes que são iguais. Tem ali coisas que tu percebes que são nossas, que são o ADN, que passou para eles, mesmo sem tu perceberes como é que aquilo foi ali parar."

Já durante a quarentena, Cláudia Lopes considera que conseguiu dar ao filho a melhor versão da mãe: "Nós somos melhores pessoas com tempo, com tempo de fazer panquecas, com tempo de fazer bolos, com tempo de cozinhar..."

Sobre a relação com Simão, de seis anos, contou, ainda: "Se estiver doente é mãe, se for para brincar é pai. Quando é preciso conforto, quando é preciso saber que tudo vai correr bem é mãe. A mãe é que está lá para o coaching. Ainda no outro dia, numa conversa por causa das questões da igualdade de género, eu dizia: 'A única missão que tenho, enquanto mãe de um rapaz, é educá-lo bem. Acho que tens de deitar a cabeça na almofada, todos os dias, e dizer: 'Hoje, fui uma boa pessoa.' Eu durmo bem, e garanto-te que durmo mesmo bem, e acho que tem a ver com isso, que é deitares-te todos os dias com a tua consciência em paz, com a certeza de que fizeste bem, de que fizeste o teu trabalho bem, de que não passaste à frente de ninguém no trânsito, de que és boa pessoa. Isso é aquilo que eu quero ser sempre, porque aquilo que fica de nós, um dia, mais tarde, é se nós fomos boas pessoas. Dos outros, ninguém se lembra muito."