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SELFIE SEM FILTROS

Cláudia Lopes: "Fiz uma promessa a mim mesma: 'Eu não quero ter um filho triste'"

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SELFIE SEM FILTOS convida Cláudia Lopes

Convidada da rubrica SELFIE SEM FILTROS, Cláudia Lopes falou sobre a dor que viveu quando, grávida de gémeos, perdeu um dos bebés e teve de encontrar forças para levar avante a gravidez de Simão.

"Essa fase da minha vida foi… como estar dentro de uma máquina de lavar daquelas das lavandarias. Foi desde um pico total de adrenalina a um pico brutal lá em baixo e foi assim uma coisa muito às cambalhotas. Eu lidei com imensas boas notícias, depois, com péssimas notícias, notícias que ninguém merece... Aquilo parecia mesmo que eu estava nos Pirinéus, foi sempre a subir e a descer", começou por recordar Cláudia Lopes.

Receber a notícia de que estava grávida de gémeos e perder um dos bebés foi um momento extremamente doloroso para a jornalista, que teve de encontrar forças para levar avante a gravidez do pequeno Simão, agora com seis anos.

"Tive essa imensa capacidade de dizer 'Bora lá! Vamos para a frente'. Não podes fugir. Vais fazer o quê? Enfiares-te debaixo da mesa? Não vale a pena. Eu fiz uma promessa a mim mesma e falei disso, na altura, com o Marco. Disse: 'Eu não quero ter um filho triste.' Portanto, eu não me queria entregar a um sofrimento e a uma dor que, provavelmente, se eu tivesse perdido um único filho, me teria deixado levar. 'Não quero que a dor domine o resto da minha gravidez, portanto, estou aqui numa corrida com a dor e ela não pode ganhar'."

Hoje, já com algum distanciamento, consegue falar abertamente sobre essa dor: "Tudo na vida passa. Tu não esqueces, mas eu sou assim, tenho uma necessidade de arrumar as coisas e, portanto, é um assunto que está muito arrumado. Não é tabu, mas não é propriamente uma coisa sobre a qual nós falemos muito. Aquilo que me leva a falar, em momentos como este, é apenas para que quem ouve perceba que não está sozinho. Quando tu estás lá, naquele momento, tens muita dificuldade em perceber que, num ápice, porque eles crescem, isto, um dia, passa. Não esqueces, arrumas essa dor lá numa caixinha bonita, porque é uma coisa que era um sonho bonito. Está lá, está guardado, e tu deves só falar disso, porque as pessoas que estão a passar pelo mesmo merecem saber que, no fim, há um dia em que nós respiramos fundo, olhamos para trás e dizemos: 'Passou'. É só por isso."

O apoio do marido, Marco Braz, foi essencial para a jornalista: "Nesta fase, as coisas estão muito centradas na mulher, porque a mulher é que está grávida, e as pessoas centravam-se muito na minha dor e perguntavam muito por mim e como é que eu me estava a aguentar… e, depois, esqueciam-se do outro desgraçado, que teve que arrumar a dor dele, muito arrumadinha, e estar lá para mim. Acho que, hoje em dia, se calhar, por incrível que pareça, é mais fácil, para mim, falar sobre este assunto do que para o Marco. Talvez porque ele não tivesse tido a oportunidade de, na altura certa, viver a dor dele com a intensidade que ele tinha que viver."

Na altura, o pequeno Simão, agora com seis anos, acabou por nascer prematuro, às 30 semanas, o que significou mais uma dura prova para a jornalista da TVI.

"O amor pelos filhos é progressivo. Não é uma coisa mágica, não é uma coisa do tipo eles nascem e tu amas. Primeiro, é choque, porque é uma criança que nasce de 30 semanas e, quando tu olhas, é um rato. É uma coisa mínima. O meu filho pesava 1,300kg, com o peso que eles perdem depois de nascer, ele baixou quase para 1kg. É um pacote de arroz, é uma coisa mínima e, portanto, tu ficas em choque: será que ele vai sobreviver? O teu primeiro instinto, enquanto mãe, é a sobrevivência dele, se ele não vai ter sequelas e, portanto, tu não tens essa coisa do amor profundo e incondicional. Tu estás em choque, tu queres é que tudo corra bem. O amor há-de vir, depois. Não é que tu não gostes do teu filho, não é isso, mas não é aquela coisa idílica. [...] Tu só consegues ter esse amor feliz quando percebes que o teu filho está livre de qualquer perigo e está bem de saúde. Até lá, tu entras numa espécie de modo robô. É preciso fazer, é preciso que corra bem, é preciso vigiar, é preciso estar alerta, portanto, não é um modo doce, é um modo muito autómato, porque tens uma criança muito dependente, que esteve internada muito tempo. Depois, há um dia em que os médicos te dizem: 'Ele hoje vai ter alta!' E tu achas que a tua reação é felicidade. Não! A tua reação é de pânico, porque, a partir daí, ele está entregue aos meus cuidados e do pai, não há nenhuma enfermeira, nenhum médico, nem sistema de alarme, nem nada. Quando ele está ligado às máquinas, tudo aquilo apita, se houver alguma coisa. Quando está em casa, está entregue a nós… Agora, somos só nós os três e, portanto, a coisa vai ter de correr bem. Só mais tarde, bastante mais tarde, é que tens essa fase de contemplação, em que respiras fundo, em que passaram todos os perigos, em que consegues vivenciar a coisa com esse romantismo", recordou.

Ainda a propósito do tema da maternidade, Cláudia Lopes aproveitou para falar sobre a depressão pós-parto: "Tem que se falar, porque é uma coisa séria. Os primeiros meses de maternidades são piores do que levar com um pau com pregos nas costas. Normalmente, é muito duro, porque as crianças exigem muito de ti. Quando te calha a ti acordares de duas em duas horas, tu queres-te matar, queres-te atirar da janela abaixo. Eu acho que é bom que algumas pessoas falem nisso, porque nem tudo são flores."

Ultrapassados esses momentos delicados, hoje, Cláudia Lopes encontra no filho a gargalhada que mais a faz feliz: "O meu filho tem um riso absolutamente extraordinário, é um miúdo que tem imensas cócegas e eu adoro torturá-lo com cócegas, porque é uma coisa muito nossa e que ele adora. E, portanto, esse tipo de som, da gargalhada dele, é a coisa que mais anima o meu cérebro."

Leia a entrevista, na íntegra, AQUI.