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SELFIE SEM FILTROS

Ana Arrebentinha abre o coração e mostra-se como nunca a viu

SELFIE SEM FILTROS convida Ana Arrebentinha
Ana Arrebentinha: "Os meus pais davam-me 90€ para pagar o curso e houve um mês que não conseguiram"
Ana Arrebentinha apaixonada? "Pela primeira vez, o meu coração está bem"
Ana Arrebentinha: "No Alentejo, ficou a miúda em quem a maioria das pessoas não acreditava"
Ana Arrebentinha: "No Alentejo, ficou a miúda em quem a maioria das pessoas não acreditava"

Convidada da rubrica SELFIE SEM FILTROS, Ana Arrebentinha abriu o coração. A comediante recordou a altura em que deixou a Amareleja, no Alentejo, e veio morar, sozinha, para Lisboa, falou sobre a morte do pai, a relação com a família e com o trabalho, e, ainda, se mostrou uma mulher romântica e apaixonada.

"É mais fácil fazer rir. Eu acho que fazer rir é a minha personagem. Chego ali, sei mais ou menos os pontos onde devo tocar para as pessoas se rirem. Dá muito gozo, porque tu não sabes a vida daquelas pessoas que estão, ali, a assistir, e, se calhar, estás a contribuir muito para uma viragem na vida delas. E falar de mim… não gosto muito. Às vezes gosto, outras vezes, não gosto, porque é turbilhão. Eu vivo em constante inquietação, aquela música do José Mário Branco sou eu", começou por contar Ana Arrebentinha.

Sobre a pessoa que melhor a conhece, não hesitou: "A minha mãe. Como ela diz, foi ela que me pariu. [...] É a única pessoa que, se calhar, falaria de mim com verdade. Não quer dizer que os outros não falassem, mas a minha mãe acho que é a que me conhece melhor. Mãe é mãe e eu tenho uma ligação muito grande com a minha mãe. Desde sempre Tenho uma família muito estruturada, muito a viver na verdade. Se viveres uma coisa que não é a verdade, mais cedo ou mais tarde, tu não vais aguentar viver uma vida de mentiras. Ela ensinou-me isso, a viver assim. Ela e o meu pai. Viver sempre na verdade."

A propósito da infância e da adolescência, recordou: "Acho que a minha mãe passou ali um bocado comigo, no início da adolescência e na infância, porque eu era muito rebelde. Tudo o que me diziam para fazer, eu fazia completamente o contrário. Quando era miúda, era a maria rapaz que subia às paredes e partia vidros. Uma vez, decidi partir os vidros do centro de saúde todo, com um paralelo da calçada. Achei por bem que tinha que os partir todos naquela tarde e o meu pai pregou-me um susto e meteu-me dentro do jipe da GNR e deram uma volta à rua e eu pensava que a minha vida ia acabar aí. Eu não tinha medo de nada. Se era para ir, bora! Se era para ir mergulhar numa barragem, eu ia… hoje em dia, já penso duas vezes, mas era aventureira, não tinha medo de nada."

Foi, também, nessa altura, que surgiu o primeiro amor: "Ainda me lembro do primeiro beijo, que não foi na adolescência. Lembro-me do meu primeiro namorado… comecei cedo a dar beijinhos na boca [risos], tinha para aí uns dez anos. Foi na casa do avô dele e fomos apanhados pelo avô dele, mas, até hoje, somos amigos… é engraçado."

"Eu via Lisboa como se fosse do outro lado do mundo", contou a comediante, que cresceu na Amareleja, no Alentejo.

"Vim para Lisboa aos 17 anos. Vim fazer um curso na Casa do Artista. Estava cheia de convicção e a achar que não ia sentir saudades nenhumas. Mas, quando estava a arrumar a mala, no meu quarto, começou logo a bater a ideia de que aquele ia deixar de ser o meu espaço. Quando cheguei a Lisboa, desci do comboio, estava ao pé da minha primeira casa, aí, é que eu percebi: estou sozinha, com 17 anos, mas não posso dar parte fraca, porque os meus pais vão ficar preocupados. A primeira semana passou-se bem, mas, a partir daí… não tinha cá os meus amigos, não tinha cá os meus pais, não tinha cá as minhas pessoas, aqueles com quem fui criada... Tive que criar rotinas. Não tinha muito dinheiro, [por isso], não podia sair muito, nem distrair-me muito. Era tudo uma vida nova, de uma miúda com 17 anos que, consciente e inconscientemente, veio sozinha para cá. As saudades, às vezes, apertavam e chorei muito, muito", confessou Ana Arrebentinha.

Na bagagem, trazia muitos sonhos e a certeza do que queria para o futuro: "Queria fazer o curso de teatro, seguir a vida como atriz, como comediante, e precisava daquilo para crescer profissionalmente."

No Alentejo, deixou a família e uma parte de si: "Ficou a miúda que saiu de lá com um objetivo e em quem a maior parte das pessoas não acreditava. Saí quase gozada, do género: 'Vai estudar teatro para quê? Agora, vai para Lisboa fazer o quê? O que é que ela vai fazer para lá? O que é que ela está lá a fazer?' Eu não guardo isso com rancor, mas, na altura, magoou-me imenso. Eu via a cara de gozo dessas pessoas, quando chegavam ao pé de mim e me davam uma palmadinha nas costas, e diziam: 'Conta lá uma anedota', e eu olhava e dizia: 'Não, não conto.' Claro que, depois, quando tu consegues alguma coisa, dá-te gozo dizer: 'Está aqui'. Isso dá-te gozo, claro que sim, mas essas coisas não te podem deitar abaixo, porque só tu é que sabes. Tu tens de ter a certeza daquilo que tu queres fazer para a tua vida, e eu tinha a certeza de que era isto!"

"Os meus pais sempre acreditaram em mim. Senti muita preocupação, porque era a menina deles. O meu objetivo era nunca desiludi-los. Eu nunca gastei dinheiro em vão, porque sabia que os meus pais estavam a trabalhar muito, para me darem 90 euros, por mês, para eu pagar aquele curso, e houve uma vez que eles não tiveram esse dinheiro. Tive que ir para restaurantes, tive que ir limpar vidros para a Expo, tive que ir distribuir publicidade, tive que ir trabalhar para cafés, para bares… tudo! Nunca passei fome… a minha educação sempre disse que 'podes não ter dinheiro para mais nada, mas para comer, tens de ter', mas era frustrante não poder ir sair, não poder ir jantar fora, e pensar assim: mas será que vai dar certo? Será que vou ter uma compensação, alguma dia, por este esforço?… Eu não sabia e deu-me muita vontade de desistir. Às vezes, estava nas aulas de teatro e diziam: 'És uma m****. Os teus pais estão a pagar 90 euros, por mês, e tu estás aqui e, se calhar, não estás no caminho certo'… Às vezes, era muito duro, e isso dava-me vontade de desistir, mas, ao mesmo tempo, dizia: 'Não. Vou lá amanhã e vou mostrar que sou capaz.' Fazia m**** outra vez e, depois, chorava. Mas tive muita vontade de desistir, por exemplo, quando via pessoas que tentaram passar por cima, tentaram cortar o caminho… Na altura, isso dava-me vontade de desistir. Hoje em dia, não, mas, na altura, para uma miúda de 17 anos, era duro. Só que, depois, sou teimosa, e dizia assim: 'Vou desistir e, depois, chego lá à Amareleja e digo que desisti? Não, não vou dar parte fraca'. O meu pai, quando foi ver a minha primeira peça de teatro, no final fui ter com ele. O meu pai, a chorar, disse-me: 'Não estiveste bem, nem mal. Estiveste mais ou menos'. Mas eu sabia que ele ficava orgulhoso. Ele tinha medo de iludir os filhos em alguma coisa, porque, depois a ilusão, às vezes, faz sofrer, e ele tinha medo de nos ver sofrer. Se ele me dissesse que era muito boa e eu chegava aqui a percebia que não era, ele sabia que ia sofrer, e, então, preferia ir dando dicas a dizer: 'Vai com cuidado, vai estudar.'", recordou.

A família sempre foi, e continua a ser, o grande pilar da comediante: "Eu vivi, em casa, um amor muito grande entre o meu pai e a minha mãe, uma coisa maravilhosa, o maior amor que vi na vida. Posso até encontrar o maior amor da minha vida, mas nunca vou presenciar mais aquele amor, que nem todas as famílias conseguem ter, e eu sou uma privilegiada por ter presenciado aquele amor. Tenho dois irmãos mais velhos, o Mário e o Tózé, sou a menina deles. Fui sempre a privilegiada. Mimada. Fui sempre a menina, a protegida, ainda hoje. Sou a menina deles e, às vezes, tenho de os alertar que já tenho quase 30 anos [risos], já não sou uma menina, já sou uma mulher, mas há sempre aquele receio deles. O meu pai era aquele que me fazia as vontades todas."

"Quando o meu pai morreu, claro que fiquei revoltada, porque foi uma coisa de repente. O meu pai falou comigo num sábado, no domingo morreu e, de repente, é uma chapada. Eu vejo essa imagem como quando tu és pequenina, dás a mão ao teu pai e à tua mãe, e alguém te larga a mão. Foi o que eu senti, naquele dia. Ele largou-me a mão, a mim e aos meus irmãos, e foi....", partilhou Ana Arrebentinha.

"Nunca me senti tão perdida na vida como quando ele morreu. Só agora, passados seis anos, é que as coisas começam a ficar mais suaves. Quando tu ouves alguém dizer que não há um dia em que não se pense naquela pessoa que morreu, é verdade! Vai ser, sempre, o homem da minha vida. Foi o homem mais bonito que conheci na minha vida", contou.

Na altura, a comediante assumiu o papel de pilar da família: "Senti que tinha de ser eu! Fui eu que escolhi a roupa para o meu pai, quando ele morreu, porque ninguém era capaz, e, a partir daí, é que vês que tens de levantar a família. És a mais nova, mas tens de ter essa força, e eu tive de ter essa força, não sei de onde… Vi a minha mãe muito em baixo, e eu tive que a ir 'buscar'".

Hoje, o maior medo de Ana Arrebentinha é perder a mãe: "Eu sou muito 'filha galinha' com ela. [...] Se a perco, já não tenho mais ninguém. Tenho os meus irmãos, mas já não tenho pai nem mãe. Fico sozinha, e eu tenho muito medo disso, porque é uma coisa que tu não controlas."

Também por isso faz questão de a mimar, como sempre fez com o pai: "Estou sempre a dizer que gosto dela, a dar-lhe abraços, a dizer-lhe coisas bonitas, porque eu acho que temos de dizer. Eu sempre disse ao meu pai que gostava muito dele, então, quando ele faleceu, fiquei de consciência tranquila, porque não deixei nada por dizer. Ficam é coisas por viver. Eu tinha 20 anos, quando o meu pai morreu, e aí é que vês que é quase como vais dormir, acordas e já passaram 20 anos… Foi o que eu senti, quando o meu pai morreu. Acho que não deixei nada por dizer, mas ficaram coisas por viver."

"Tu deixas de ver essa pessoa. De repente, já não tens aquela pessoa para ligar, nunca mais vais ter para o resto da tua vida. Ele anda sempre comigo, mas nunca mais o vou ouvir, nunca mais vou chegar a casa e ver que ele está lá, apesar de o sentir lá sempre, em todo o lado, mas nunca mais vai voltar e tu tens de saber viver com isso", confessou.

"Se calhar, se ele estivesse cá, hoje, numa cama, eu iria para junto da minha mãe, cuidar do meu pai. Desistia de tudo. Desistia de tudo, de certeza absoluta, e ia cuidar dele. Nem ia pensar duas vezes. Podia arrepender-me mais tarde ou não, mas ele precisaria de mim naquela altura...", frisou.

Questionada sobre aquilo de que mais sente falta, Ana Arrebentinha abriu o coração: "O que sinto mais falta é da voz dele. O meu pai tinha umas mãos iguais às minhas, só que os dedos eram muito grossos, e tinha uma pele muito rija, era pele de quem trabalhava no campo, e eu consigo, ainda hoje, sentir a pele dele. Sinto falta disso, do olhar dele, do sorriso dele."

Também por isso, se pudesse voltar a estar com o pai, a comediante preferia o silêncio, um silêncio que diria tudo: "Não lhe dizia nada, só lhe dava um abraço… Se me dissessem que só tinha um dia para estar com ele, não o largava o dia inteiro. Acho que ele também não me dizia nada, só me abraçava. Às vezes, encontro-o, por aí, em sonhos, só que, depois, fico tão entusiasmada e acordo. Mas acho que ele também não me ia dizer nada, ia abraçar-me."

"Acho que não te deves revoltar com as coisas. Só posso ser grata por tudo o que aconteceu, até hoje. Sou muito grata pela infância que tive, muito grata aos meus pais por me terem dado a liberdade de vir à procura de um sonho, pelas pessoas que se cruzaram comigo, no caminho, até hoje", acrescentou.

Questionada sobre se tem sido possível fazer amigos no meio, a comediante revelou: "São poucos, mas é possível, porque tu sentes quando a pele é igual à tua, o toque, as emoções... Não acontece é muito, mas, às vezes, acontece. Eu acho que tenho escolhido muito bem as pessoas com quem me dou. Tive a sorte, desde que entrei para este meio, de me cruzar com as pessoas certas."

No entanto, Ana Arrebentinha não esconde que já sofreu desilusões: "No meio artístico, já, mas ainda bem que me desiludi, porque isso, depois, permite, obrigatoriamente, tirares essa pessoa da tua vida."

Já sobre aquilo que mais a tira do sério, a comediante confessou: "Muita coisa… A falta de respeito, as pessoas não ficarem contentes com o teu trabalho, serem más colegas. Tira-me do sério as pessoas serem arrogantes e mal-educadas com os outros, independentemente da profissão. Eu chego aqui e digo 'bom dia' e 'boa tarde' a toda a gente, porque sei que, desde o segurança que está na entrada até à senhora que está a limpar as escadas, toda a gente é importante."

No que toca ao amor, Ana Arrebentinha assumiu-se como uma mulher romântica e apaixonada: "Eu sou uma pessoa de paixões, gosto de me apaixonar, mas, depois, dói, sempre, muito. O amor é uma coisa complicada, é muito complicado arranjares uma pessoa que ame tanto como tu amas, mas acho que temos de ir tentando. [...] Continuo a acreditar muito no amor. O meu coração está bem, estou a viver e estou a viver bem. Pela primeira vez, na minha vida, o meu coração está descansado, e isso é bom. Está quentinho. Quem não sabe, não estraga."

"Quero deixar a minha marca na comédia, em Portugal. Quando estou em cima do palco, nada existe, sou aquela pessoa que está em cima do palco e não tem ninguém. Estou inteiramente para fazer rir os outros. E quero que as pessoas, um dia, daqui a muitos anos, porque eu vou morrer tarde, se recordem e digam que eu fui feliz a fazer rir os outros", afirmou Ana Arrebentinha.