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Tudo o que precisa de saber sobre a polémica de Pedro Abrunhosa com a embaixada russa

O músico Pedro Abrunhosa envolveu-se numa polémica com a embaixada russa, em Portugal, após ter proferido, num concerto, algumas frases sobre a guerra na Ucrânia.

Com Lusa

Destacando-se como uma voz ativa em temas políticos, Pedro Abrunhosa voltou a manifestar-se, desta vez, sobre a guerra que deflagrou, na Ucrânia, há mais de cinco meses, após a invasão das tropas russas. 

Durante um concerto, que decorreu no passado dia 2 de julho, em Águeda, Pedro Abrunhosa fez uma breve reflexão sobre a guerra, a fome e o fascismo, na introdução do tema "Talvez F****".

"Não podemos e nem vamos esquecer que a Europa vive uma guerra. E a guerra mais estúpida de todas, uma guerra perfeitamente evitável, uma guerra de ódios, uma guerra em que famílias como as nossas, todos os dias, têm de fugir", afirmou na altura, Pedro Abrunhosa, citado pela agência Lusa.

"Há quem não fuja e, numa ilha da Ucrânia, um marinheiro respondeu a um apelo de um barco russo dizendo: 'Barco russo, go fuck yourself.' Que é como quem diz: 'Russian boat...'. Que é como quem diz: 'Vladimir Putin, go fuck yourself'", acrescentou o artista, de 61 anos. "Este grito, hoje, tem de se ouvir em Moscovo e em Kiev", completou.

A embaixada russa, em Portugal, não se mostrou indiferente a estas palavras e emitiu um comunicado, informando que "tem recebido cartas de compatriotas russos zangados que afirmam estarem chocados pelo comportamento de um dos mais famosos cantores portugueses: Pedro Abrunhosa".

"Durante o concerto no festival AgitÁgueda 2022, ele se permitiu a dizer várias coisas grosseiras e inaceitáveis sobre os cidadãos da Federação da Rússia, bem como dos seus mais altos dirigentes. Além disso, Pedro Abrunhosa incentivava, em êxtase, os espectadores, entre os quais os russos, que também pagaram os bilhetes, que repetissem o que estava a gritar, tendo, no final, expressado o desejo que as palavras dele fossem ouvidas em Moscovo", criticou a representação da Rússia, em Portugal.

No final da mensagem, a embaixada russa dirige-se, diretamente, a Pedro Abrunhosa: "Senhor Abrunhosa, não deve ter dúvidas: as suas palavras, indignas do homem de cultura que, ainda por cima, representa o país, que está a se manifestar, abertamente, contra qualquer tipo de ódio e discriminação, foram ouvidas. As respetivas conclusões serão tiradas. [...] A embaixada da Rússia continua a vigiar os interesses dos cidadãos russos residentes em Portugal e nenhumas provocações ignóbeis contra eles ficarão sem resposta."

Horas após a publicação deste comunicado, Pedro Abrunhosa e a respetiva agência do artista, a Sons em Trânsito, pediram "um posicionamento ao Governo português sobre este assunto". "Compreendemos que a embaixada da Rússia não entenda facilmente o significado de liberdade de expressão, mas não deixa de ser inédito, e muito preocupante, que um cidadão português, em Portugal, seja assim intimidado por uma representação diplomática estrangeira", pode ler-se, na mensagem.

Aliás, numa entrevista exclusiva, concedida ao "Jornal das 8", na passada sexta-feira, dia 22, Pedro Abrunhosa sublinhou, novamente, que esperava que o Governo português tomasse uma "posição clara", perante este comunicado que o próprio artista classificou como "abjeto".

"O que estamos a discutir é que um cidadão português não pode exprimir a sua palavra e sua vontade, num país democrático, em cima de um palco, perante uma audiência, sem vir a ser ameaçado. Há uma ingerência de uma embaixada estrangeira sobre a liberdade de expressão a um país democrático", assinalou Pedro Abrunhosa, nessa entrevista. O intérprete de "Não Posso Mais" ainda corrigiu alguns erros do comunicado emitido pela embaixada russa. Pedro Abrunhosa destacou, por exemplo, que o concerto tinha entrada livre, ao contrário do que estava referido na mensagem da representação da Rússia, em Portugal.

"O meu grito é uma metáfora contra a guerra. É um grito simbólico e nem sequer é meu, é de um marinheiro ucraniano", sublinhou, ainda, o músico nortenho.

Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros repudiou, publicamente, o comunicado da embaixada russa. "Foi transmitida à embaixada da Federação Russa, através dos canais diplomáticos, o repúdio pelo tom e conteúdo do comunicado da embaixada relativo ao concerto do músico Pedro Abrunhosa", pode ler-se, nessa mensagem, citada por José Alberto Carvalho, ainda no decorrer da entrevista ao músico.

De resto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros reforçou que "a liberdade de expressão, com particular ênfase no domínio cultural e artístico, tem um valor inalienável em Portugal".

A própria classe artística já se manifestou sobre esta polémica. José Cid expressou "solidariedade com a atitude de Pedro Abrunhosa". "Ele tem todo o direito, como objetor de consciência, de acusar, em palco, o governo russo por aquilo que está a acontecer na Ucrânia", afirmou o músico, num vídeo, publicado nas redes sociais, com o título "Je suis Abrunhosa".

"Muitos foram aqueles que, no passado, lutaram para que vivêssemos em liberdade. Jamais a nossa integridade física pode ser ameaçada por, como diz o Pedro, combatermos bombas com palavras. Nem a Europa, nem Portugal se podem tornar a barbárie. A intimidação não nos calará, pois, no dia em que o medo nos calar a voz, viveremos na escuridão", declarou, por sua vez, Agir, referindo-se a uma frases proferidas por Pedro Abrunhosa, na entrevista concedida ao "Jornal das 8".

Houve, ainda, outra afirmação de Pedro Abrunhosa, nessa entrevista, que causou polémica. "A minha voz é a voz dos portugueses, é da classe artística, que, de repente, não se pode exprimir", assinalou o artista, na altura.

Nas redes sociais, São José Lapa discordou desta frase. "Execrável o Putin e toda a sua corte, execráveis todos os que contribuíram para que se chegasse a este estado de desumanização. Por cá, o cantor Pedro Abrunhosa sempre se manifestou, politicamente, nos concertos. [...] Agora, ter a 'lata' de o fazer, dizendo que era a voz dos portugueses... Alto aí... Nem aos partidos eu deixo que as minhas opiniões se diluam nas suas várias retóricas, quanto mais a um cantor que compôs muitos êxitos de canções de amor, mas que voz nunca teve. Talvez um pouco de contenção, em vez de deitar tamanhas achas para a fogueira, Pedro Abrunhosa... As canções vendem-se na mesma, ok?", considerou a protagonista da novela "Quero é Viver".

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