"Este silêncio ensurdecedor que ninguém ouve", por Alexandra Borges

OPINIÃO
Alexandra Borges
Grande repórter TVI
Alexandra Borges

Há alguns anos, a Dra. Teresa Magalhães, do Instituto de Medicina Legal, que costumava assinar os relatórios das autópsias em caso de violência doméstica, relatou-me algo dramático. Acabara de fazer uma autópsia a um recém-nascido vítima de violência doméstica cujo caso nunca faria parte das estatísticas oficiais.

O pai era um homem violento que maltratava a mulher diariamente. Um dia, quando ela estava a amamentar o bebé, ele atirou-lhe uma caneca de barro só que acertou na cabeça do filho, que estava a mamar, esmagando-lhe o crânio e provocando-lhe morte imediata.

Estes são os casos de que não se fala. Quantas são afinal as vítimas de violência doméstica? Tenho a certeza de que não são apenas os homens e as mulheres que morrem às mãos de um agressor próximo. São também estes inocentes que não se conseguem defender e de quem nunca ninguém fala.

O silêncio ensurdecedor de centenas de crianças que não constam das estatísticas deveria preocupar os responsáveis deste país. Essas crianças e jovens que crescem em ambientes de violência doméstica, assistindo à agressão entre familiares, também são vítimas que temos que proteger. Atribuir-lhes o estatuto de vítima é o mínimo que podemos fazer. É uma questão da mais elementar justiça que não entendo como foi chumbado, em julho, pelos deputados do PS, PCP e CDS.

Quem é responsável pela morte deste recém-nascido? Quem vai conseguir dormir quando há centenas de crianças traumatizadas que assistem indefesas à violência entre familiares? Quem tem o dever de protegê-los e garantir a sua segurança ? Eu respondo: todos e cada um de nós. Há uma responsabilidade social que tem que ser apurada. A culpa não é apenas dos políticos. É também dos professores, dos médicos, dos ativistas, dos jornalistas, dos vizinhos e de todos os portugueses que, conhecendo esta realidade, continuam indiferentes a este silêncio ensurdecedor e que, por cobardia ou comodismo, não denunciam estas situações e não exigem respostas eficazes aos políticos e às instituições.

Dito isto, não vale a pena aos vizinhos e amigos destas vítimas silenciosas, testemunhas cúmplices da violência doméstica, virem gritar e exigir condenações à porta do tribunal porque aí, a sua voz e os seus gritos, já não fazem qualquer sentido.