"Mudou a hora", por Hugo Matias

OPINIÃO
Hugo Matias
Jornalista
Hugo Matias

É assim todos os anos. No final de outubro, mais dia, menos dia, acertamos os relógios para a chamada hora de inverno. Resultado: todos ganhamos uma hora de sono nessa noite, todos (ou quase) reclamamos no dia seguinte.

Desta vez, não foi exceção. Ainda o sol quase não tinha nascido, já o Facebook se enchia de criticas, opiniões e experiências. Vou omitir a autoria da frase para não ferir suscetibilidades e deixo apenas a ideia: "Os gajos que mudam a hora deviam vir aturar os meus filhos às 6 da manhã", escrevia alguém, sobre um fundo negro, às primeiras horas da manhã, naquele rede social. Logo abaixo, vários comentários idênticos, numa espécie de solidariedade e dor partilhada por tantos.

Pelo menos ainda ninguém teve a ideia de deixar os filhos com o Primeiro-ministro, para esse difícil primeiro acordar. Sim! Ou já não se lembram do episódio de João Miguel Tavares, os filhos que não tinham onde ficar (na "ponte" decidida pelo governo) e em António Costa na versão babysitter? Pois bem, agora não foi preciso, mas o pensamento não é de mandar fora. Afinal, o Primeiro-ministro já disse que, nesta questão da mudança de hora, está pelo lado da ciência. E a ciência, pela voz do Observatório Astronómico de Lisboa, defende que não se acabe com o atual regime.

Hoje em dia, mudamos duas vezes de hora, a cada ano. No final de março de 2020, regressaremos ao horário de verão. E pode ser das últimas vezes em que a alternância acontece. O Conselho da União Europeia está a estudar o dossier e coloca a possibilidade de acabar de vez com as alterações. Já no início do ano, o Parlamento Europeu disse "sim" ao fim da mudança da hora.

A decisão teve como base uma sondagem feita durante o verão e 84 por cento dos inquiridos disse concordar com o horário único. Problema: participaram apenas quatro milhões e meio de europeus, num universo de 513 milhões. E maioria deles era Europa Central, em particular da Alemanha.

Por cá, poucos ou nenhuns terão votado (nada de novo, até aqui). Se o fizessem, quase que aposto que o voto penderia para a hora de verão: o sol a nascer mais tarde e os dias a serem maiores... mas diz a ciência que a escolher, Portugal deveria fazer precisamente o contrário. O horário de inverno é o mais adequado à hora natural, tendo em conta o sol. Ou seja, dias mais pequenos e aquele sentimento constante de "nunca mais chega o verão". Mas já que comecei por falar na questão das crianças, termino o raciocínio. É que se é chato tê-los a acordar mais cedo e algo desregulados nos primeiros dias, a medicina também defende que o regime bi-horário é o menos nefasto.

Por agora, o impasse mantém-se. Mudou mesmo a hora. Mas argumentos à parte, como escrevia alguém no Tweeter: "17h30 e está de noite. Não gosto nada disto!"