"Hamburguesados", por Pedro Sepúlveda

OPINIÃO
Pedro Sepúlveda
Copywriter TVI
Pedro Sepúlveda

O hambúrguer mudou. É preciso dizê-lo com toda a frontalidade. O que, antes, era um bocado de carne entre duas fatias de pão, agora, é uma ciência alimentar do mais alto calibre.

Começa que já não é feito por um cozinheiro, mas, sim, por um Chef, dito com sotaque franciú e a fazer boquinha: Chef.

Mas, pior do que isso, é o facto de o hambúrguer já não ter molhanga. Sim, molhanga da boa, daquela que nos engordura as mãos e acaricia a alma.

Agora, há "suculentos aromas a envolver a carne", seja lá o que isso for. Vai-se a ver e já nem a carne vem do vaquedo comum, daquele que rumina e tal. Agora, deve vir de bovinos morfologicamente superiores, com oito pernas e chicha ariana.

No hambúrguer já nada é como era.

O primeiro desafio é ver quem põe mais coisas lá dentro: carne, tomate, queijo e bacon é apenas o princípio.

Hoje, um hambúrguer a sério tem 130 andares, é arquitetonicamente evoluído e tem vista desafogada.

Também vem em versões para todos os gostos: versão vegetariana, versão vegan, para intolerantes ao glúten, intolerantes aos hidratos de carbono, e, com jeitinho, para intolerantes ao hambúrguer.

Também vêm com 130 andares.

Para comê-los, sem deslocar o maxilar, é preciso uma boca com os talentos da Cicciolina.

Depois, o pão: ele é hambúrguer em pão de sementes, de centeio, de milho, em bolo do caco, em pão de forno de lenha, em pão integral, em pão caseiro e até em pão colorido. É o Tinder da padaria: muitos pães à procura de uma dentadinha.

Seguem-se as batatas: em palito ou redondas, batata-doce ou normal, agora a trend são as cascas de batata, carinhosamente apelidadas de "lascas". No fundo, foi aquele dia em que se acabaram as batatas no restaurante, o Chef olhou para o caixote do lixo e pensou: "Hmm, se calhar até pode funcionar…". E funcionou.

(Só para que conste, o tipo que teve esta ideia é o meu ídolo.)

O molho para as batatas: m[ô]lhos ou m[ó]lhos? Depois de meia-hora de discussão inútil, os m[ô]lhos variam entre a maionese, a maionese com alho, o molho agridoce ou o molho da casa (que, normalmente, é a maionese, mas com salsa por cima). A criatividade é a mãe de todos os m[ô]lhos.

Por fim, o toque de génio: gourmet. Esta simples palavra mudou os hambúrgueres para sempre. É que estes não são os hambúrgueres do tasco da nossa rua, nada disso. A provinciana hamburga deu lugar a um sofisticado burguer, com sotaque nova-iorquino.

O que antes era feito com sal e margarina, agora, é feito com sal, margarina e classe. Muita classe. Imensa classe. Às vezes, com mais classe do que carne. Continuamos uns alarves, mas, agora, em chique.

O que se queria um prato simples, hoje, é um prodígio da engenharia culinária. Nem a saudosa Filipa Vacondeus fez tanto, e muito fez ela com restos de bofe.

O hambúrguer, tal como o conhecíamos, está reformado e emigrou para o nosso imaginário.

Hoje, o hambúrguer já não é um mero hambúrguer: é um avanço civilizacional. Com molho da casa.