Psicóloga Tânia Correia: "A saúde mental das mães não pode continuar a ser esta terra de ninguém"

O bebé tem de ser visto (e bem!) pouco tempo depois de nascer para termos a certeza de que a sua chegada a este mundo está a correr bem. Afinal, ele ainda é tão frágil. E quem vê a mãe?

Psicóloga, mestre em Psicoterapia Cognitiva-Comportamental na área da infância e adolescência / OPP: 24317
  • 9 abr 2023, 07:55
Tânia Correia
Tânia Correia

E a mãe? Como é que se perde o rasto da mãe? Não se iludam com o seu tamanho. Depois do nascimento de um filho, aquela mulher volta a ser menina. Ela volta a sentir-se pequenina, vulnerável, à mercê de quem a rodeia. O quarto escuro (a sua história) do qual pode ter passado uma vida inteira a fugir escaqueira as portas e convida-a (leia-se força-a) a entrar. Lá dentro está o medo de não ser o suficiente, as palavras que lhe repetiram a vida inteira, as crenças sobre o que é ser mãe, as suas feridas mais profundas de tudo aquilo que lhe faltou.

Naquele lugar, tantas vezes a carregar a privação de sono e a falta de tempo e de espaço para tomar um banho, ela sente-se completamente sozinha, perdida, com um filho (ou mais) nos braços para cuidar.

Perguntam pelo bebé, pela recuperação do corpo, pelo parto, pelo segundo (ou mais) filho, pelo regresso ao trabalho, mas falta a pergunta mais básica: "Como te sentes? Precisas de desabafar, de chorar? Há quanto tempo não comes uma refeição quente ou dormes umas horas? Deve ser tão exigente".

As mães precisam de ser cuidadas. Não apenas por fora, como por dentro. Que vejam mais além e lhes dêem espaço para a tal menina pequenina que se voltam a sentir possa sair cá para fora e correr para o colo daquele adulto que a acolhe sem julgamento.

A saúde mental das mães não pode continuar a ser esta terra de ninguém, em que o pediatra encolhe os ombros e em que o obstetra assegura que a nível ginecológico está tudo bem. Todos as pessoas em torno da mãe, profissionais de saúde e não só, precisam de contemplar este aspeto, levá-lo a sério e encaminhar; para bem das mães e dos bebés.

Sim, faltam respostas, mas enquanto socialmente este tema não for tido em conta por todos nós, não irão surgir certamente. Precisamos que isto se torne um problema aos olhos de todos e que passe a incomodar.

Estamos juntas, 3m’s.

Tânia Correia
Psicóloga, mestre em Psicoterapia Cognitiva-Comportamental na área da infância e adolescência / OPP: 24317

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