Rita Rodrigues: "Redes sociais (im)perfeitas"

OPINIÃO
Rita Rodrigues
Jornalista
Rita Rodrigues

Sorrisos. Famílias unidas. Brunchs coloridos. Mantas fofinhas. Almoços saudáveis. Crianças encantadoras. Jantares com amigos. Roupa trendy. Barbas aparadas. Canoas de sushi. Pôr do sol em praias exóticas. E, em breve, árvores de natal perfeitas. Perfeição, sinónimo de redes sociais. Mas se não fosse perfeita queria o comum dos mortais seguir a página de alguém?

Quem quer ver crianças sujas ou com ranho no nariz? E se algum pai publicasse uma fotografia do filho nessas circunstâncias não seria imediatamente censurado?

Quem quer ver as bolhas ensanguentadas do pé de um corredor? E se alguém publicar uma fotografia assim não vão criticá-lo por estar a "fazer-se" a um patrocínio de ténis ou meias?

E será que queremos mesmo ver uma influencer com olheiras ou borbulhas? Ou se ela publicar uma fotografia assim vamos especular que é uma estratégia para se aproximar do público, mostrar-se uma "pessoa normal" e conseguir mais likes e seguidores?

Chegámos a este ponto. Todos nos seguimos uns aos outros. Mas todos duvidamos das intenções uns dos outros. E, pelo meio, perdeu-se a espontaneidade.

As caixas de comentários encheram-se de palavras amargas e de críticas duras. E como se não bastassem as acusações ao instagramer, há seguidores que entram em conflito com as pessoas que comentam a mesma publicação.

Onde nasceu toda esta revolta? Quem disse que as redes sociais podiam transformar-se num pelourinho do século XXI?

Eu prefiro continuar a ver perfis perfeitos. Cheios de amor e de felicidade, de famílias unidas e crianças encantadoras, de atletas amadores que se superam e de pratos coloridos por comidas deliciosas. Quero continuar a ver fotografias perfeitas de praias desertas e de montanhas cheias de neve. E quero continuar a ver o que as influencers usam nas semanas da moda ou nos lazy sundays em que ficam por casa enquanto a chuva cai lá fora.

Crueldade já me bastam a da realidade.