Paulo Bastos: A "selfie" é quem mais ordena

OPINIÃO
Paulo Bastos
Jornalista TVI
Paulo Bastos

A transmissão dos The Game Awards deste ano (os TGA são assim tipo "os Óscares dos Videojogos") esmagou literalmente a audiência dos Grammies, dos Globes e dos Emmies... e só não ganhou aos Óscares 2018 propriamente ditos por uns míseros 300 mil espectadores.

Os TGA não são transmitidos em nenhum meio convencional - que é como quem diz, não passam em nenhum canal de Televisão: a eleição dos Videojogos do Ano, nas suas várias categorias, é “emitida” na Internet, através dos YouTubes e dos Twitchs, num total de 45 diferentes plataformas. E foi isso que lhe garantiu 26,2 milhões (!) de livestreams (que é como quem diz, ecrãs “sintonizados” na cena).

As estatísticas são manhosas, porque o gajo dos The Game Awards é um vendilhão vaidoso que não resiste a comparar as audiências da sua emissão “digital-only” ao “broadcast-only” dos outros (ignorando propositadamente os números brutais que os Grammies, os Emmies e os Óscares também têm online). 

E se calhar isto também é como a electricidade; e não é o vento que ficou mais barato, o petróleo é que está muito mais caro. A audiência do Entretenimento convencional, mesmo nestes grandes eventos, não pára de cair: de ano para ano cada vez menos gente vê os grandes eventos de Hollywood.

Mas quando vemos que de 2017 para 2018 o salto de audiência dos TGA foi de 128%... Mano, algo está a acontecer. Não é surpresa nenhuma: há muito tempo que lhes ando  a explicar que a indústria dos Videojogos já superou o Cinema e a Música juntos. Mas um pulo de 128%, caramba…?

Pessoalmente, não achei que tenha sido grande “espectáculo”. O Geoff Keighley bem pode alegar que não formatou a “sua” cena para emissão televisiva, porque aposta deliberadamente no “digital-only”. Só que, qualquer que seja o ecrã em que é transmitido, um “espectáculo” tem de ser “um espectáculo”... que é uma coisa que aquelas duas horas não chegam a ser, com claros problemas de script. E deslumbrado consigo próprio, o Digital não consegue aperceber-se sequer de que falhou. Até porque o Digital está a tornar-se rapidamente mais obcecado com as audiências que a própria TV…

A ironia é que nem estamos aqui a falar de experiências customizadas, personalizadas, à medida de qualquer “utilizador”. Quem viu os The Game Awards foi tratado como um normalíssimo espectador televisivo. O produto em si tem os estereótipos todos de uma “gala” transmitida a partir de um grande teatro em Los Angeles, orquestra e tal.

Porquê o “digital-only” então? Por causa das estatísticas. Por causa da forma como mede o seu próprio sucesso. O espectáculo deste ano foi todo construído em redor de um momento antológico: a presença simultânea em palco dos chefões da PlayStation, Xbox e Nintendo; os pseudo-inimigos, juntos, “por uma causa maior”.

Os TGA sabiam perfeitamente que a foto a três ia dar a volta ao Mundo, tagada, postada, partilhada e repostada, a bater recordes sozinha. E foi quanto lhe bastou para declarar desde logo a vitória… e preguiçar sobre o espectáculo restante, que até já nem precisava de o ser. O próprio discurso dos Três Reis Magos já foi de uma inanidade atroz.

Estranhos tempos estes, em que uma fotografia pode determinar a vitória ou o fracasso de “um espectáculo”, desdenhando-se os restantes 21599 frames.

E vai daí, a Ellen DeGeneres fez exactamente o mesmo nos Óscares, aqui há uns anos, lembram-se? Lembram. Lembram-se da foto… e de nenhum dos vencedores, certo? Not good.