Conceição Queiroz: "Os dias que vivemos"

OPINIÃO
Conceição Queiroz
Jornalista TVI
Conceição Queiroz

Nos primeiros 12 anos da minha vida passei o Natal debaixo de 40 graus, no indescritível calor do Índico. Os meus pais tinham um casarão de família, onde cabia toda a gente. 

Dezembro era um mês de festa, o mais quente do ano. Ligávamos o ar condicionado e as ventoinhas de teto em todos os compartimentos. A casa de dois andares era abraçada pelo jardim e por um quintal imenso, com a capoeira ao fundo e um lago artificial por onde os patos desfilavam. Fugia da Mimosa, a cadela preta e branca que ficava do outro lado, junto às garagens – só a via quando chegava da escola e entrava pelo portão central. Corria desalmadamente. Ela também.

Fitava os cabritos que chegavam e via como eram arrumadas na arca congeladora as caixas de camarão tigre. Dezembro é também o tempo das mangas. Eu preferia o abacate, as lichias, a banana, a goiaba.

No Natal, a rotina nunca se alterou ao longo desses 12 anos, por isso mantenho nitidamente cada memória. A avó Conceição tinha os olhos verdes e não gostava, mas falava do Malawi onde nasceu e do pai inglês, um professor com residência em Blantyre, a capital. A avó Catarina tinha o corpo tatuado, despertava às cinco e meia e tirava-me da cama meia hora depois. Seis irmãos. Sentavámo-nos à mesa para o pequeno-almoço com os meus pais, antes de sairmos para a escola. Dessas primeiras horas da manhã ficam o Milo, o leite Nido, quando se acabava o leite fresco da leitaria, os flocos de aveia, o queijo Bela Rosa, produzido em Moçambique, as arrufadas quentes.

O Natal era muito aguardado, os festejos estendiam-se até ao fim do ano. Cantava a minha tia Vina. Tocava guitarra o meu tio Dany. Aplaudíamos. Dominavam o cabrito, com temperos da Índia, e o marisco grelhado. Não ligava ao bacalhau, só aos petiscos picantes e ao arroz de coco, dispensava o pudim caseiro, não resistia à mandioca adocicada com leite de coco; biscoitos no forno, bolos e tortas sem fim, a casa sempre cheia. À meia-noite, invadíamos a Catedral para a missa do Galo e as prendas abriam-se sempre a 25, aniversário do meu pai. Os meus pais eram vida aos meus olhos, eterno sinal de esperança. 

Trocámos Moçambique por Portugal, no final dos anos 80 por causa da hipertensão da minha mãe. Em 2000, chegou a notícia de um cancro. Mulher da ciência, a minha mãe nunca desesperou, era de uma admirável racionalidade, mas não venceu a negligência de que foi vítima. Não processei o médico que, em lágrimas, assumiu o erro e porque a luta judicial não a traria de volta. Foi o meu 11 de Setembro. Nestes dias que vivemos, o Natal já não é exatamente uma data feliz para mim, mas, desta vez, 18 anos depois, acredito, finalmente, que vou a tempo de erguer e enfeitar um pinheiro, tal como ela faria por estes dias.

Festas felizes!