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SELFIE SEM FILTROS

Sónia Tavares fala sobre a fibromialgia: "É muito complicado viver com esta doença"

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Convidada da rubrica SELFIE SEM FILTROS, Sónia Tavares recorda de que forma a música e os The Gift surgiram na sua vida e abre o coração para falar sobre a fibromialgia, um problema de saúde que a acompanha desde criança e que se tem agravado com o passar dos anos.

"Fazia parte de uma orquestra, desde miúda, portanto, a música esteve, sempre, presente na minha vida. Os meus pais também gostam muito de música. [...] O meu pai é um fervoroso adepto de concertos e de bandas novas, de música portuguesa, e, portanto, quando lhes disse que estava neste projeto... era visto como um hobbie, portanto, as coisas acabavam por se fazer no final do liceu, à tarde, vínhamos até ao sótão do Miguel e fazíamos umas coisas, nada de muito especial", recorda a cantora, de 43 anos.

Depois, Sónia Tavares veio para Lisboa, para estudar Antropologia, mas o sucesso dos The Gift foi tal que deixou de ser possível conciliar com os estudos: "As coisas correram bem e isso motivou-me bastante. E o facto de a minha voz ser um bocadinho diferente, também… Enfim, as pessoas achavam piada ao facto de sermos diferentes. Muita gente perguntava se eu era um homem, não sabiam bem, e isso deu-nos alguma motivação. Tive que optar. Lembro-me que, em 2000, vinha no avião, da China, a pensar: 'Não vou conseguir fazer os exames, vou ter que os deixar para dezembro'… Nunca cheguei a fazer."

O pai sempre foi e continua a ser o grande apoio de Sónia Tavares: "Desde menina, pequenina. Não me passou, sempre, a mão pelo pêlo, aliás, passou de outra forma, mas apoiou-me, sempre, esteve sempre presente. [...] Era aquela confiança da menina do paizinho, e o papá sempre fez questão de me suportar todos os meus devaneios e todas as minhas decisões, sempre com a sua opinião sábia de pai e os conselhos que me tem dado, ao longo da vida, ainda são válidos. Foi, sempre, o meu papá. É o meu maior fã. Ele ainda chora nos concertos, depois de 700, num ano. Eu, às vezes, digo: 'Agora, vou cantar esta canção e já estou a ver o meu pai a lacrimejar...', super envergonhado e danado."

Já sobre o futuro enquanto cantora e vocalista dos The Gift, Sónia Tavares não tem dúvidas: "No dia em que os The Gift terminarem, arrumo as minhas cordas vocais, porque não tenho estrutura psicológica para começar tudo de novo, sozinha ou sem eles, e não me apetece, também. É com eles que me sinto bem, é aos The Gift que dou a voz. Às vezes, até me convidam para imensos projetos e eu digo que não. Para mim, não faz sentido sozinha ou com outras pessoas."

Questionada sobre a forma como lida com a fibromialgia, o problema de saúde que a acompanha desde criança e que se tem agravado, com o passar dos anos, a cantora confessa que já passou por momentos difíceis, em palco.

"Há dias muito mais difíceis do que outros, mas, normalmente, nos fibromialgicos, o processo mais complicado ainda é quando acordam, porque tudo isto está colado com 'super cola' e, primeiro que descole, é complicado. A noite, apesar de me trazer um grande cansaço, traz-me uma mobilidade muito maior. [...] Já fiz concertos, obviamente, em dor profunda, mas, paciência, tem de ser. No inverno, sofro imenso, já sei quando vem aí a chuva… aliás, quatro dias antes de chover, já sei que vai chover. Toda a minha vida tive dores que me apoquentavam o corpo, mas só depois de ter tido o Fausto é que tive um aumento absurdo de cansaço que não conseguia perceber… Estive grávida, tive um filho, mas eu já tinha corrido o mundo, não fazia sentido... As dores eram cada vez mais e o meu estado de espírito também a ir naquela negritude de dor e cansaço, até que o médico me diagnosticou a fibromialgia e, aí, deixei de ser hipocondríaca [risos]. Fui diagnosticada aos 35, quando tive o Fausto, precisamente. [...] A partir do momento em que soube o que era, em que tenho uma explicação para o que tenho… sou a pior. Já não vou ao médico há mais de sei lá quanto tempo, não vá eu descobrir alguma coisa de que não goste" [risos], conta.

Sendo a fibromialgia uma doença invisível e muito associada a estados depressivos, Sónia Tavares também teve de recorrer a fármacos que a vão acompanhar, sempre: "Lido com fluoxetina, basicamente, já há muitos anos e vou ter de continuar a lidar, para o resto da minha vida, senão… Apesar de ser uma pessoa extremamente agradável e simpática, não produzo serotonina, então, tenho de tomar esses comprimidos para me deixarem o humor minimamente regulado, porque isto é muito complicado, não só viver com esta doença como perceber que quem vive connosco, também, vive mal. Enfim, só mesmo uma pessoa como o Fernando é que me podia apoiar quando tenho as minhas crises e perceber-me perfeitamente e levar-me o pequeno-almoço à cama, porque não consigo levantar-me. Nem toda a gente é assim e eu, felizmente, tive a sorte de encontrar um amor de pessoa."

Será que, afinal, o amor cura? Sónia Tavares sublinha: "Ajuda… a curar, não, mas dá um conforto extra. Um conforto psicológico, um conforto tipo 'não te preocupes, não te consegues mexer, mas eu estou aqui para aguentar a tua cena'. Às vezes, quando o Fernando estava em tournée, e eu não conseguia vestir o meu filho para ele ir para a escola, eu ficava tipo 'sou a pior mãe do mundo' e, depois, isto é tudo uma bola de neve e a nossa cabeça começa a entrar numa espiral de 'sou a pior coisa que podia ter acontecido ao mundo', mas, felizmente, tive aconselhamento com o meu médico, que me explicou tudo e que explicou tudo ao Fernando, porque é muito importante que as pessoas que nos rodeiam entendam o que é que se passa, porque é mais fácil passarmos por preguiçosas ou por 'ela não está nem aí'… Não, eu estou! Só que não consigo. E é muito importante que as pessoas percebam isso, porque é uma doença efetivamente invisível e tu só acreditas que eu a tenho, porque te estou a dizer, tu não vês nada efetivamente. Vês a minha cara assim um bocado mais desconjuntada, mas nada que não me permita trabalhar, por exemplo."

Leia a entrevista, na íntegra, AQUI.