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EXCLUSIVO

Psicóloga Teresa Paula Marques fala sobre o luto pela perda de um animal de estimação

OPINIÃO
Teresa Paula Marques
Doutorada em Psicologia
Teresa Paula Marques

O sofrimento provocado pela perda de um ser humano é socialmente compreendido e aceite. É-nos permitido contarmos como tudo aconteceu, ficarmos tristes, sofrermos e, até, chorarmos, já que vamos poder contar sempre com a simpatia e o conforto dos outros. No entanto, se a dor estiver relacionada com a perda de um animal de estimação, o caso muda de figura.

As reações são do mais variado que há, existindo, inclusive, quem nos diga, sem hesitar: "Estás triste por isso? Ora, basta arranjares outro animal e pronto." Posto isto, a morte de um animal de estimação é dolorosa, não apenas por causa da perda em si, mas, também, por causa da solidão com que esse tipo de luto é, muitas vezes, vivido.

A relação afetiva que o dono estabelece com o seu animal de estimação é o que mais se aproxima do conceito de amor incondicional, uma vez que, enquanto os relacionamentos entre humanos são permanentemente assombrados pelo medo da rejeição, os "amigos de quatro patas" aceitam-nos, sem quaisquer reservas. Além disso, tornamo-nos cuidadores, responsáveis por uma vida que, apesar de não ser humana, depende de nós, para se manter saudável. Perante a sua morte, de algum modo, sentimos que falhámos nessa tarefa.

Os nossos animais desempenham, também, o papel de "testemunhas de vida", porque, perante eles, não temos filtros. Eles permitem-nos expressar partes de nós que, talvez, nunca deixemos que outros humanos vejam: observam as nossas fraquezas, confortam-nos durante os períodos de turbulência e animam-nos com as suas brincadeiras. Estão sempre lá, quando precisamos deles.

Assim sendo, passam a ocupar um lugar no nosso coração e a sua presença é insubstituível. Quando partem, é normal que sintamos a sua falta. Segue-se um período de luto, em tudo semelhante ao da perda de um amigo ou de um familiar, porque, realmente, trata-se da morte de um ser vivo que ocupou um lugar importante na nossa vida.

Na maioria das vezes, à medida que o tempo vai passando, a dor vai-se esbatendo e dá lugar à aceitação da realidade. Contudo, tal pode não acontecer e dar lugar a uma sintomatologia depressiva. Neste caso, há que não ter quaisquer problemas em procurar ajuda especializada. É necessário termos presente que não existem dores maiores ou menores, apenas diferentes. Posto isto, o luto proveniente da morte de um animal de estimação é legítimo e não deverá ser desvalorizado. É o risco que corremos, quando nos deixamos apaixonar por estes seres fantásticos de quatro patas. Certo é que, quando tudo passa, fica uma doce memória, que podemos juntar a todas as outras que vamos criando ao longo da vida!

Teresa Paula Marques
Doutorada em Psicologia
www.teresapaulamarques.com
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