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Eunice Muñoz encerra 80 anos de carreira no Teatro: "Dei o melhor de mim"

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Ao fim de 80 anos de carreira, Eunice Muñoz, de 92 anos, divide a cena com a neta Lídia Muñoz, a quem passa o legado artístico, na peça "A Margem do Tempo". Em entrevista à SELFIE, antes da estreia da peça, avó e neta falaram sobre o simbolismo deste espetáculo.

Ao fim de 80 anos de carreira, ainda sente o nervosismo antes de subir ao palco?
Eunice Muñoz - Sim, continuo. É igual, é como se começasse hoje. 

E a Lídia?
Lídia Muñoz - Sinto-me, também, como se começasse hoje, apesar de já ter começado há uns 15 anos. Sinto-me especialmente nervosa e só quero honrar a minha avó.

E quem dá a mão a quem, na hora de acalmar os nervos?
Lídia Muñoz - É a avó que dá a mão à Lídia. [risos] Até porque sou uma pessoa muito mais nervosa e a avó já encontrou a sua serenidade, já sabe como trabalhá-la. 

"A Margem do Tempo" é a peça que marca a passagem de testemunho da Eunice à Lídia. Por que escolheram este texto e qual o simbolismo da peça?
Eunice Muñoz -
A Lídia explica melhor do que eu...

Lídia Muñoz - Tem muito simbolismo, porque começou por ser uma peça que me lembrava de ter visto quando era miúda, feita pela Isabel de Castro. Lembrava-me perfeitamente de a ter visto e sentir: "Como é possível um espectáculo sem palavras, chamar-me tanto a atenção?". Lembro-me de ser muito pequenina e a avó lembrava-se de ver este espectáculo, mas há muito mais tempo. Entretanto, acabei por perceber, com o encenador desse espectáculo, o Luís Miguel Cintra, que nunca podia ter visto a peça, porque a última vez que foi representada, em Portugal, foi em 1970 e tal e eu nascei em 90. E é estranhíssimo, porque quem se lembrou deste texto fui eu, nunca ninguém me falou disto! Acabei por perceber que tinha longas conversas com a Isabel de Castro quando era miúda - foi uma pessoa muito importante na minha vida em todos os sentidos, amava aquela mulher. Acho que a Isabel me deve ter explicado tão bem tudo o que acontecia em cena que criei essa memória na minha cabeça. Só encontro essa explicação. Então, este texto tem esse significado, também. Além de ser o último espectáculo da Eunice Muñoz e a comemoração dos seus 80 anos de carreira, o espectáculo é, também, a homenagem a esta atriz que tanto eu e como a avó admirámos e continuamos a admirar, e de quem temos muitas saudades. Por isso, devemos muito à Isabel de Castro a escolha deste texto. 

Como se vive aquele que é o último espectáculo em Teatro?
Eunice Muñoz - Vivo calmamente, com muita serenidade. Chegou a altura, já tudo está… O tempo marca-me bastante, a ponto de perceber que teria que acabar agora. Já não tenho tudo o necessário para continuar, é natural. Tenho muita idade e isso tudo está certo.

Vai continuar a assistir como espectadora e a acompanhar a carreira da Lídia?
Eunice Muñoz - Enquanto viver, vou acompanhar, claro. 

E a Lídia como se sente por ter sido escolhida para a derradeira peça da Eunice?
Lídia Muñoz - Eu só tenho de agradecer muito por ter esta oportunidade e por ela me ter escolhido para ser eu a acompanhá-la neste seu último processo em teatro. A avó vai continuar, não é o final da carreira dela, vai continuar a fazer cinema, televisão, mas nós sabemos que o teatro exige muito mais de nós. São muitas horas, é um processo muito difícil, os ensaios são dolorosos, muitas vezes, a procura… É preciso muito tempo, na televisão não acontece isso. É tudo muito rápido e a avó tomou a decisão de que este seria o último espectáculo e que me queria ao lado dela, e eu só tenho mesmo a agradecer-lhe, porque estar ao lado da maior atriz do mundo não é para toda a gente! [risos]
Eunice Muñoz - É uma exagerada...

Para a Eunice não fazia sentido fazer esta peça com outra atriz?
Eunice Muñoz - Não fazia sentido, teria que ser com ela, porque temos ambas a mesma profissão e eu nunca iria chamar outra pessoa para fazer este trabalho comigo. Ela tem muito talento! Estou a recordar o que é necessário para representar e ela tem todas as condições: tem talento, é bonita. Está muito bem preparada, porque estudou, fez tudo o que se poderia fazer e isso marca a diferença. Hoje, lamento muito que se vejam jovens escolhidos mais pelo físico do que pelo talento, enfim… Espero que essa situação vá melhorando. 

Partilha desta visão da sua avó, Lídia?
Lídia Muñoz -
Partilho, completamente. Acho que o ator está em constante formação, sempre, e deve sempre procurar essa formação. Digo isto e não tenho nada contra quem entra no meio sem formação, mas acho que até essas pessoas podem sempre, se querem mesmo isto, procurar formação, porque isto é duro [risos] e é mesmo difícil. Mesmo com muita formação, nós estamos sempre a aprender. Mesmo com os colegas nós aprendemos. A minha avó não apenas minha colega, é muito mais do que isso, mas todos os dias eu estou a absorver e a aprender com ela e a formar-me. 

O que se segue agora na carreira da Eunice?
Lídia Muñoz - Na televisão ainda não sabemos, mas há-de vir, porque a avó tem um contrato com a TVI. No cinema, estão neste momento a ser feitos alguns documentários, um deles a pedido da avó, realizado pelo Tiago Durão. É um documentário sobre este nosso processo de "A Margem do Tempo", sobre esta passagem de testemunho, que a avó sempre quis frisar, e é um documentário diferente, algo que nunca foi feito sobre ela.

E na carreira da Lídia?
Lídia Muñoz -
Também estarei neste documentário e, agora, a pandemia veio cortar muito trabalho que já tinha agendado. Já vivíamos tempos muito difíceis no teatro, com condições muito más, a trabalhar e a receber muito pouco, e, agora, nem sabemos se as companhias com as quais trabalhava regularmente se vão manter de pé, depois de um ano e meio, quase dois, sem fazer teatro e é muito duro... Não sei como vai ser o futuro, mas se acabar aqui, também, está tudo bem! [risos]

Como viveram estes tempos de pandemia?
Lídia Muñoz - Nós vivemos juntas há muitos anos e já estamos muito habituadas uma à outra. Aquilo que já reclamávamos uma com a outra, continuamos a reclamar, porque faz parte de viver junto, marido e mulher, avó e neta, mãe e filho… [risos] Somos de gerações muito diferentes, apesar de a avó ser uma pessoa super moderna, com quem se pode falar de tudo e mais alguma coisa. Não há tabus na nossa casa! Conheço pouca gente de 90 anos que seja tão aberta a tudo e que não tenha o mínimo de preconceitos com nada. É raro encontrar uma pessoa com esta idade e com esta visão tão aberta. 

Eunice Muñoz - E ainda bem que é assim, porque o estar em contacto com a juventude de agora permite que eu tenha caminhos abertos, não tenha preconceitos. 

Surgiram mais ideias nestes últimos tempos?
Lídia Muñoz - Nos últimos meses, sim, até porque, nestas comemorações dos 80 anos de carreira da avó, vão ser feitas muitas coisas. O tal documentário, vamos fazer uma exposição no Museu do Teatro... Vamos passar o ano todo a comemorar estes 80 anos de carreira. 

Que conselhos aproveitou para dar à Lídia?
Eunice Muñoz - Ser igual a ela própria, primeiro do que tudo e mais do que tudo! Dei-lhe os meus conselhos, enfim… Há uns que são privados! [risos]

Mas pode revelar-nos apenas um?
Eunice Muñoz -
Aconselhei-a a estar sempre atenta, principalmente na escolha das suas amizades. 

E que conselhos dá a Lídia à avó?
Lídia Muñoz - Em relação à profissão, não dou conselhos, porque não se dá conselhos à melhor atriz do mundo, que sabe fazer tudo, não é? [risos] Só dou conselhos em casa, do género: "Tem cuidado, não tens 20 anos." Porque a avó está tão bem fisicamente e de cabeça que, às vezes, acha que tem 20 anos, e eu fico muito preocupada. Mas acho que o problema está em mim e nem está nela, porque fico muito preocupada e ela é que sabe como é que o corpo dela reage. Eu é que penso: "ah, 92 anos e ela vai subir para uma cadeira…" [risos] Eu fico doente, mas o corpo dela diz-lhe que consegue! Apanho-a lá em cima e ela diz: "Mas eu estou bem!". E eu digo: "Avó, não podes estar aí!". E ela responde, com serenidade: "Mas o que tem? Estava só a acertar o relógio." [risos]

Nesta fase, que marca o encerramento de um ciclo, é inevitável perguntar: como gostaria de ser recordada?
Eunice Muñoz - Como alguém que fez tudo para levar muito a sério a sua profissão e que dei o melhor de mim.

A Lídia diz que é a melhor atriz do mundo: gostava que a recordassem assim?
Eunice Muñoz -
Ah, não, não! Só mesmo nas palavras da minha neta. 

E a Lídia, qual o cunho que gostava de deixar?
Lídia Muñoz -
Gostava de não ser recordada apenas como a "neta da Eunice Muñoz", gostava de ter o meu caminho, sendo, também, neta da Eunice Muñoz, mas nós somos atrizes muito diferentes. Naturalmente, eu nunca vou ter a pretensão de ser uma extensão da minha avó, porque, lá está, ninguém pode ter a pretensão de ser esta senhora, ninguém, nenhuma atriz pode ter essa pretensão, muito menos eu! Por isso, só quero fazer o meu caminho e ser feliz e fazer teatro, que é o que mais amo. 

Como lida com o peso do nome Muñoz?
Lídia Muñoz - Tenho mesmo muito orgulho de ser neta de quem sou, o nome deixou de ser peso para ser um enorme orgulho.

Recentemente, a Lídia afirmou: "Com o peso do nome eu consigo aguentar." O que é que não consegue aguentar?
Lídia Muñoz - É exatamente aquilo que a avó estava a dizer e, também, é uma coisa que tem a ver com a minha idade. Às vezes, estou muito revoltada e a avó diz-me: "Tu tens razão, as coisas não deviam ser assim, mas com o tempo vais aprender a compreender." Realmente o que me custa nesta profissão nem tem a ver com a avó, mas com a injustiça que estamos todos a observar nos últimos tempos. O facto de os atores profissionais não terem carteira profissional, que não sei por que deixou de existir. O facto de não termos acesso a castings, não sabermos como as pessoas entram na televisão, por exemplo. São conversas que nós temos… Eu andei na Escola Profissional de Teatro de Cascais, do Carlos Avillez, e, depois, andei na Escola Superior de Teatro e Cinema, fiz o curso profissional e, depois, o curso superior e era uma coisa que todos nós conversávamos… Como é que as pessoas tiveram acesso a castings, nós não temos e nós devíamos ter prioridade, era justo. Podia vir alguém sem formação que se mostrasse melhor, mas nós devíamos ter oportunidade de fazer aquele casting e de tentar. Não sabemos quando é que acontecem, não sabemos nada sobre isso e é uma coisa frustrante na profissão. Cada vez mais, é difícil, é difícil lutar contra isto. 

No caso da Lídia, como gere as suas redes sociais?
Lídia Muñoz - Como o meu trabalho tem sido sempre no teatro, não tenho muito essa exposição. As pessoas que vão ao teatro conhecem-me, sabem quem eu sou. Quem vê mais televisão ou cinema, eu não faço parte desse mundo, por isso, felizmente, fico um bocado à parte disso. Não ligo a isso e as redes sociais, para mim, não são muito importantes, apesar de dizerem que temos que apostar não na formação, mas nas redes sociais, porque, agora, é público, que os atores são mais escolhidos pelos seus seguidores... Mas prefiro não entrar por aí...

Para rematar, o que podem as pessoas esperar da peça "A Margem do Tempo"?
Eunice Muñoz - Isso é sempre uma incógnita, em qualquer espectáculo. Neste, a incógnita ainda é mais profunda. [risos]

Será, certamente, difícil conterem a emoção...
Lídia Muñoz - Eu não contenho a emoção, mas nem tento! A minha personagem facilita-me a vida, porque não tenho que conter, posso deitar cá para fora. Acho que vamos aproveitar todos os momentos.
Eunice Muñoz - É o segundo espectáculo que fazemos juntas, o outro foi há dez anos. Este é diferente. Toca-nos mais, é mais profundo. Desejo que corra o melhor possível!

Com estes quatro dias esgotados, estão previstas mais sessões da peça?
Lídia Muñoz -
Depois, vamos para Loulé, no dia 27, que, também, está esgotadíssimo. Depois, vamos aos Açores, se estiverem abertos para nos receber, porque, agora, nós não sabemos se não fecha tudo e não vamos para lado nenhum! Depois, vamos para a Gafanha da Nazaré, Coimbra, Pombal… Em setembro, estamos o mês todo aqui em Lisboa. Nós estamos há meses para estrear, depois fecha tudo, depois voltamos aos ensaios, depois fecha tudo, novamente… Nem acredito que podemos estrear a peça!