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Paulo Salvador: "Uma das primeiras vítimas da pandemia foi o Jornalismo"

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Nomeado para mais um prémio pelo trabalho enquanto jornalista, Paulo Salvador contou à SELFIE como vê este reconhecimento e como tem vencido os desafios ao longo da carreira.

Nomeado na categoria de Melhor Jornalista/Repórter nos Troféus Impala de Televisão 2021, como recebeu esta indicação?
Recebo sempre com agrado. Quando somos nomeados pelo nosso trabalho, é sempre uma coisa boa, ainda para mais num ano como este. Foi um ano em que os jornalistas ficaram fechados, em casa ou nas redações, mas, felizmente, foi o ano em que mais estive na rua. Ou seja, filmei muito mais este ano do que num ano sem pandemia, o que me deu um grande prazer, como é óbvio, senão dava em doido. Mas, sendo um ano especial para todos nós, pelos motivos óbvios, acho que foi, também, um ano muito relevante, por boas e más razões, para o Jornalismo. 

Que trabalhos desenvolveu ao longo de 2020?
Fiz questão de não interromper as gravações da "Mesa Nacional", até porque era um ano em que os restaurantes precisavam - e continuam a precisar - de apoio e divulgação. Filmei, obviamente, nos períodos em que estes estavam a funcionar e filmei não só uma temporada, mas duas, porque foi pedida uma nova temporada para o Natal, coisa que nunca tinha feito. Fiz, ainda, uma série de reportagens ligadas ao confinamento e desconfinamento, na estrada, em modo de caravana, quando fizemos o "Cá se vai andando" [com o jornalista Paulo Bastos] e, ainda, algumas grandes reportagens pelo meio. Portanto, acumulou-se tudo e digamos que, do ponto de vista profissional, quase não dei pela pandemia. 

Acredita que foi a esse trabalho intensivo que se deveu esta nomeação?
Sim, porque fiz desde grandes reportagens, até à "Mesa Nacional", passando pela série de reportagens do "Cá se vai andando" e mais outras coisas pontuais sobre outros temas. 

O Jornalismo foi importante durante esta pandemia?
Continuo a achar - já disse isto várias vezes - que uma das primeiras vítimas da pandemia foi o Jornalismo. Porque os jornalistas ficaram com medo e fecharam-se em casa e nas redações. Muitos jornalistas não queriam sair, porque tinham medo. Isto não é aceitável! Acho que esta pandemia revelou muitas fragilidades da prática jornalística a todos os níveis. Foi um período no qual - e ainda bem - muitos jornalistas, nos quais me incluo, tiveram a oportunidade de fazer o seu trabalho como se estivesse quase tudo, mais ou menos, normal. É evidente que houve pessoas que fizeram um grande esforço, porque estavam em teletrabalho, mas, no geral e até por outras questões mais deontológicas da profissão, acho que o Jornalismo é uma das vítimas desta pandemia. 

Mas o papel do jornalista saiu reforçado desta pandemia?
Não, porque acho que perdemos todos um bocadinho de autocrítica, um bocadinho de contraditório e um bocadinho daquelas regras base do Jornalismo perante o discurso constante do medo e do terror. Todos temos muita culpa no cartório, não vamos só culpar os governos. Acho que nem sempre fizemos um bom trabalho jornalístico durante esta pandemia. 

Os programas sobre culinária e gastronomia ganharam mais seguidores durante esta fase em que houve quem se interessasse mais por estes temas?
Por acaso, não concordo. Acho que sempre houve programas ligados à gastronomia e culinária, mais nos canais de cabo. As televisões, também, sempre tiveram este tipo de conteúdos - basta ver um telejornal, que está cheio de conteúdos ligados com comida, mas nem sempre com gastronomia. De forma sistemática e constante, apenas a TVI se dedicou à gastronomia. Ou seja, sabemos que chega aquele período do ano e temos aqueles programas e aquele formato. Não são coisas avulsas de alinhamento. A TVI, de facto, tem um esforço ligado à gastronomia, em prime time, que mais nenhuma televisão tem, e isso é importante! Uma coisa é uma rubrica que é uma imagem de marca do canal, outra é peças do dia a dia sobre um evento gastronómico. Além disso, na maior parte das vezes, as reportagens sobre gastronomia são só para encher e não têm qualquer critério.

A "Mesa Nacional" é uma aposta para continuar?
Quero acreditar que sim. Nunca podemos antever o futuro, mas sobre o presente podemos falar e, presentemente, sabemos que a "Mesa Nacional" está constantemente a passar e já faz parte da grelha aos domingos, antes do "Jornal da Uma", em compactos. A TVI está a rentabilizar a mais valia que a "Mesa Nacional" dá às audiências e isso é bom sinal. Quero acreditar que, no futuro, continuará. Este ano, pelo menos, continua. O que sei é que, ao longo destes sete ou oito anos, a "Mesa Nacional" traz sempre audiência à antena. Se as pessoas gostam de me ver, é porque estou a fazer um bom trabalho. 

Ao fim de tantos anos, ainda há novos espaços gastronómicos para conhecer?
Neste momento, o meu drama é escolher os sítios. Felizmente, Portugal tem uma variedade muito grande. Agora, estou a fazer uma pré-seleção para osdeste ano e já tenho uma shortlist de mais de 100 e preciso escolher apenas 20. Felizmente, não acaba e é um produto que marca muito as pessoas. As pessoas, depois, tendem a esquecer que tenho todo um passado ligado à informação que não sobre a gastronomia, mas a gastronomia mexe no coração das pessoas e, quanto a isso, não há volta a dar!

Mas não gosta desse rótulo de "jornalista de Gastronomia"?
Não desgosto, até porque percebo que os assuntos relacionados com a gastronomia tocam numa parte do nosso cérebro que memorizamos mais [risos]. Portanto, as pessoas associam-me a essa área e ter comigo, em qualquer sítio do país ou do estrangeiro, a falar sobre a "Mesa Nacional". Se vou a São Tomé, Angola, Moçambique… toda a gente me fala na "Mesa Nacional". Mas, também, faço e gosto, cada vez mais, de fazer grandes reportagens. 

A mais recente reportagem exibida foi sobre a D. Gertrudes: como escolheu este tema?
A história da Gertrudes Labaça é uma daquelas histórias que existe para lá da espuma dos dias. É um fenómeno local, integrador, quase comunitário e os media, em geral, passam ao lado deste tipo de fenómenos. Não que não saibam da sua existência, mas há uma grande diferença entre ver e noticiar uma história e olhar para uma história e seguir as suas ramificações. A história de Bruno Costa deu-me a oportunidade de olhar para uma pessoa para lá da superfície. Esse é o trabalho de um repórter. Foi com enorme prazer que contei esta história. Ver não chega. É preciso olhar. É isso que tento fazer em todas as minhas grandes reportagens. É o terreno jornalístico mais desafiante. Sabia ao que ia, quando o meu camarada Ricardo Ferreira me falou deste caso, mas, chegados ao terreno, fomos surpreendidos pela dimensão do fenómeno Gertrudes Labaça e pelo profissionalismo e competência do Bruno. O resto foi apenas olhar, com olhos de ver.

Esse é um dos cunhos do seu trabalho, a mensagem positiva?
Temos que pensar no nosso papel e não podemos estar sempre a fazer trabalhos com cunho negativista, há espaço para tudo. Eu prefiro contar histórias inspiradoras do que histórias deprimentes. O mundo, felizmente, tem muitas histórias inspiradoras. As histórias inspiradoras, aos poucos, estão a desaparecer, e eu prefiro fazer este tipo de trabalho. Prefiro mostrar histórias que podem ser dramáticas, mas que são inspiradoras de alguma forma. Isso é importante! Não me lembro de uma grande reportagem que tenha feito que não seja inspiradora ou positiva. Acho que é um desafio, para qualquer jornalista, contar boas histórias humanas que sejam inspiradoras. Claro que é mais difícil, mas, por isso, é que é um desafio!

E como encontra essas histórias?
Falando e estando com as pessoas, algo que acho que faz falta ao Jornalismo, atualmente. Os jornalistas têm de andar na rua e não ficarem só sentados à procura das histórias no computador. Felizmente, até por causa dos trabalhos que faço sobre gastronomia, estou sempre em contacto com as pessoas. Todos os anos, dou uma volta inteira a Portugal, 5000 km de carro e, depois, as ilhas. Isto põe-me em contacto com milhares e milhares de pessoas, é um privilégio um jornalista, todos os anos, dar a volta ao país, porque aí vemos o país muito real, um outro país que as redações de Lisboa não vêem. Isso permite-me conhecer pessoas, conhecer outras realidades e, por aí, aparecem muitas coisas. Eu não concebo um jornalista que não está em contacto com pessoas, porque o mundo é feito com pessoas e temos que ouvi-las e saber o que pensam, para estar a falar delas.

Acredita, então, que a nomeação a este prémio destaca, também, esse trabalho de campo?
Sim. Para já, não é uma coisa a que se concorra. Aliás, os prémios que ganhei são distinções a que não concorri. Portanto, só tenho de agradecer a quem me nomeou, a quem se lembrou de mim e, agora, vamos ver o que as pessoas dizem e se as pessoas votam [as votações decorrem até dia 12 de maio].

O que representaria vencer esta distinção?
É sempre bom ser nomeado e é melhor, ainda, ganhar, mas não muda uma vírgula daquilo que faço, como é evidente.