Nacional

Tiago Castro fala sobre sucesso nas redes sociais: "Para aqueles que conheciam o Crómio, tem sido uma surpresa"

Numa entrevista exclusiva à SELFIE, Tiago Castro, o eterno Crómio, dos "Morangos com Açúcar", falou sobre as recentes conquistas profissionais que cada vez mais distanciam o ator dessa personagem icónica da série da TVI.

Começou o ano de 2022 com o "pé direito", com o seu vídeo humorístico, "A ensaiar para a passagem de ano", a acumular já mais de 40 milhões de visualizações em todo o mundo. Na sua opinião, o que explica tantas partilhas e visualizações?
Na verdade este vídeo já conta com muito mais do que 40 milhões de visualizações. Só em duas páginas que eu sigo, e que partilharam o meu vídeo, cada uma já conta com mais de 20 milhões de visualizações. Neste momento, é impossível contabilizar, mas acredito que, facilmente, tenha passado as 100 milhões de visualizações. Acho que um dos ingredientes é o facto de ser um vídeo curto, vibrante, inesperado e com piada. Foi muito interessante, porque, como vídeo, deu a volta ao mundo. A própria bailarina, em questão, que é campeã nacional da Polónia em danças latinas, entrou em contato comigo. Achou muita graça ao vídeo e já sugeriu fazermos um vídeo juntos.

Como é que surgiu a ideia para este vídeo?
Achei imensa piada à forma vigorosa como a bailarina dançava com o seu parceiro. Fez-me lembrar um desafio entre dois bailarinos. Decidi gravá-lo, enquanto a Marine [Antunes, esposa de Tiago Castro] dormia a sesta, a seguir ao almoço. Gravei em 20 minutos. Foi dos vídeos que gravei com mais rapidez. Nunca me passou pela cabeça que o vídeo tivesse tanto impacto.

Curiosamente, a dança (que é o mote desse vídeo viral) faz parte da sua vida… Podemos dizer que perdemos um bom bailarino?
Talvez. Eu estudei teatro no Balleteatro, uma escola profissional, no Porto, onde eu tive também possibilidade de desenvolver as disciplinas de Corpo e Movimento. Tive também em 2007 a possibilidade de dançar na final do "Dança Comigo" [programa da RTP], no Campo Pequeno, com muitas boas críticas. Se há coisa que me dá prazer, é dançar.

Muitas das suas ideias para estes vídeos curtos - que são partilhados nas redes sociais - surgem de improviso, ou seja, de rompante? Acha que o improviso deve andar de mãos dadas com o humor?
Nem sempre. Muitas vezes, estou a maturá-las, durante dias. Mas deixo, sempre, espaço para  o improviso. Acho que o improviso é uma das técnicas mais apelativas do humor. Muitos comediantes treinam exaustivamente os seus textos, mas, quando há público, é normal que o improviso aconteça, e um bom comediante precisa de estar preparado para o fazer.

Estes vídeos têm sido importantes, para si, para mostrar um lado que muitos ainda podiam desconhecer por associarem-no, ainda, apenas ao Crómio?
Para aqueles que conheciam o Crómio, tem sido uma surpresa. Para quem não me conhecia, começaram a seguir-me, sem qualquer tipo de preconceito em relação ao meu tipo de representação. Mas sem dúvida que, cada vez mais, as pessoas me distanciam do Crómio. Poderão, ainda, usar esse nome para me nomear, mas já sem a conotação que tinha há 16 anos.

 

Após quase 20 anos, que importância é que acha que essa personagem, o Crómio, teve para os adolescentes?
Tive o privilégio de receber muito feedback em relação à minha personagem e ao impacto que teve junto dos adolescentes, especialmente daqueles que se sentiam desajustados. Muitos dos pais desses adolescentes fizeram questão de me agradecer pela minha interpretação do Crómio que possibilitou, em muitos casos, uma integração destes adolescentes nas suas escolas.

De alguma maneira, sentiu que perdeu oportunidades profissionais por associarem-no tanto ao Crómio?
Sinto, sim. No meu caso, tenho a certeza de que isso aconteceu, visto que, depois de ter uma interpretação tão reconhecida tanto pela crítica, como pelos meus pares, achei estranho não haver continuidade, quando muitos dos meus colegas tiveram a possibilidade de o fazer. No meu caso específico, penso que foi bastante injusto, visto que a minha interpretação do Crómio em nada tem a ver com a minha forma de ser. Construí uma personagem de raiz, muito diferente de mim. A única coisa que eu o Crómio partilhamos é o tamanho. Não posso pedir ao público que tenha essa capacidade de ver esse talento, mas posso pedir a quem está à frente de um projeto de ficção que consiga ter essa sensibilidade. Não só tenho oito anos de formação como ator, dois deles numa das melhores escolas do mundo, em Nova Iorque, como, também, dei provas que, se interpretei tão bem uma personagem que nada tinha a ver comigo, provavelmente, também terei capacidade para construir outras personagens.

Em "Daqui de Baixo", aborda alguns infortúnios por que passou nestes 38 anos. Por que motivo decidiu lançar este espetáculo de stand up?
Este espetáculo é um manifesto. É uma partilha muito íntima, na qual falo de temas complexos, sem tabus. Nunca quis ser só e apenas um intérprete. Também quis ser eu o criador das minhas obras, mas nunca tinha tido coragem para o fazer. Sou perfeccionista e tinha muito medo que ficasse aquém do que esperava. Ao longo destes últimos anos, tenho sido motivado e instigado, pela minha esposa, a despertar a minha veia criativa, sem julgamentos e sem desculpas. Se, hoje, tenho estes espetáculos, e crio com regularidade vídeos humorísticos, é muito graças a ela.

Na sinopse desse espetáculo, afirma que, "à margem dos amigos mais altos", escolheu ser ator e, mais adiante, refere quanto mede. É verdade que, desde cedo, sentiu que a sua altura seria uma condicionante na vida social?
Apesar de se sentir que existe cada vez menos este tipo de preconceito, ele ainda está muito enraizado na nossa cultura machista. Muitas mulheres rejeitam a ideia de terem uma relação com um homem mais baixo. Esta é, sem dúvida, uma ideia machista, de que o homem deverá ser fisicamente mais forte e alto do que a mulher.

E já sentiu preconceito, em relação à sua altura, na vida profissional?
Constantemente, quando se criam núcleos em televisão, faz-se sempre um estudo da altura dos atores, o que muitas vezes impede que um ator mais baixo possa pertencer a um certo e determinado núcleo, por não ter um tamanho que esteja naquela média. Sei que é quase impossível eu fazer um protagonista de uma novela. É também muito difícil vermos um casal numa novela em que o homem seja mais baixo do que a mulher e não seja um núcleo cómico. O tamanho está, muitas vezes, associado à comédia e não há problema nenhum que isso aconteça, mas como a arte imita a vida, tem de haver espaço, na ficção, para atores com corpos diferentes poderem ter, também eles, personagens sérias e dramáticas.

O humor foi uma forma de conseguir contornar as inseguranças associadas a esse preconceito, que também será abordado no espetáculo?
Antes sequer de eu ter consciência de que era diferente, por ser mais pequeno, já tinha, em mim, uma veia cómica e virada para o palco. Apesar disso, sem dúvida que foi uma ferramenta que me ajudou bastante a defender-me e a impor a minha presença em varias situações desafiantes. Permitiu-me não só contornar as inseguranças, como, também, a desconstruí-las. A relativização dos problemas consegue-se muito devido ao humor. Se não levarmos a vida muito a sério, tudo se torna mais fácil.

Ao apresentar esse espetáculo, na sinopse, afirma que passou, inclusivamente, "por uma depressão tão profunda que o obrigou a estoicamente levantar-se a 1 metro e 58 cm do chão". A sua mulher, Marine, foi essencial para se reerguer?
Não só foi essencial como foi indispensável. Quando eu estava na pior fase da minha vida, completamente dependente de medicação para a depressão, tudo me parecia negro, não sentia esperança alguma no futuro. Aos poucos, a Marine foi me incentivando a verbalizar frases positivas, a verbalizar a minha gratidão e a saber desfrutar dos momentos de alegria, mesmo que fossem poucos. Foi, também, muito importante ela saber lidar com o meu lado mais negro, aceitando-o, sem nunca se fazer sentir incomodada. Foi essencial para que, juntamente com ela, tivesse tomado a decisão de deixar a medicação. Foi um desmame de seis meses, foi muito difícil. Já dura há cinco anos. O meu psicoterapeuta achava isto impossível, considerava-me um doente crónico, para sempre dependente de medicação. A Marine é a representação de como se pode passar por algo tão difícil com positividade. Depois de ter tido cancro com 13 anos, e de o ter superado estoicamente, com muitas gargalhadas à mistura, decidiu criar o seu projeto de vida, Cancro com Humor [um projeto que "promove a felicidade, a desmistificação de tabus, a luta contra o cancro com carisma, humor e empatia"]. Hoje, não só é uma inspiração para mim, como, também, para milhares de sobreviventes, cuidadores e pessoas diagnosticadas com cancro.

 

Após quase seis meses desde o casamento, quais são as principais memórias que guarda desse dia especial?
Guardo a extrema felicidade com que o vivi. Quando entrei na igreja, já vinha a chorar, soluçava, desalmadamente. Consegui, naquela caminhada, reviver tudo o que tinha ultrapassado, para chegar até ali. Foram lutas diárias de muito trabalho espiritual, emocional e psicológico, para construir este casamento. Para além disso, dançámos durante o casamento todo, até ficarmos com os pés em sangue. É algo que a Marine também conseguiu reavivar em mim: este prazer em dançar.

Está nos seus planos ser pai?
Para já, não. Não pensamos nisso, neste momento. Queremos, para já, desfrutar do nosso casamento, a sós. Acho que ninguém se deve sentir pressionado seja pela sociedade, seja pela família, a ter um filho, só por ser casado. Mas, se quisermos ser, vamos tomar essa decisão em conjunto e sempre em sintonia.

Por que motivo os nossos leitores não devem perder o "Daqui de Baixo"?
Porque acho que é um espetáculo que prima por ser brutalmente verdadeiro e visceral. Fala sobre temas sérios, como a depressão e o preconceito com humor. São anos a desconstruir as minhas dores para que hoje tenha a capacidade de partilhá-las com o público e permitir que se riam desta minha forma de ver o mundo.

Relacionados