Entrevistas

Maria Rueff: "Não tenho necessidade de protagonismo"

Em entrevista exclusiva à SELFIE, Maria Rueff fez um balanço da carreira e comentou o regresso à ficção, ao integrar "Festa é Festa".

Maria Rueff é um dos grandes nomes da terceira temporada da novela da TVI "Festa é Festa", na qual dá vida a Quina, uma prima do carismático Bino [personagem de Pedro Alves] que trabalha como empregada doméstica. Este projeto marca, assim, o regresso da atriz, de 49 anos, às novelas, quase oito anos depois de esta ter integrado o elenco de "Mulheres".

Como surgiu este convite? Foi irrecusável?
Foi, verdadeiramente, irrecusável. Não que tivesse algum tipo de estigma, nada disso, tinha, aliás, muito prazer, até porque eu já era espetadora. Via o Manuel Marques, a Maria do Céu Guerra, a Catarina Avelar - que eu admiro muito, muito -, o Pedro Alves - que é excecional na transformação dele. Faz um Bino excecional, é a prova de que se pode fazer rir e comover as pessoas ao mesmo tempo. Portanto, tinha muita vontade de vir brincar para este recreio. Estou, nesta altura, com teatro, mantenho-me no programa "Cá Por Casa", do Herman José, e estava a acabar uma série. Era quase uma incapacidade de saúde e energia, mas conseguimos conciliar as agendas e, portanto, foi irrecusável.

Qual foi o sentimento que ficou depois deste convite? O facto de se sentir desejada foi importante?
Foi muito importante! Acho que as mulheres, principalmente as mulheres comediantes - graças a Deus, agora, vão aparecendo várias - como eu e a Ana Bola, tivemos de "sobreviver" durante estes anos todos no meio de homens. Não parece, mas implica-nos um esforço triplo. À maior parte dos homens basta fazer uma coisa bem e nós temos de fazer muitíssimo bem. Portanto, ser desejada num sítio assim, devo confessar que me soube a mel.

A Maria é uma mulher sem medo de desafios. Gosta de arriscar?
Não tenho medo nenhum [de arriscar]. É isso que a vida nos vai dando. Tenho quase 50 anos, faço 50 este ano e cheguei, aqui, ao meio século, sem medo nenhum de preconceitos, de desafios, das outras pessoas. Acho que tudo se resolve realmente e tudo são etapas. Isto é como se fosse um jogo e vamos passando as provas. O meu objetivo é ser cada vez melhor pessoa, não tanto melhor artista.

Ainda tem algo a provar?
Temos sempre que provar a nós próprios que nos podemos surpreender. Isto é, não repetir. Embora isto seja comédia, que é uma coisa que eu faço desde que me estreei (curiosamente, também me estreei a fazer um papel de empregada), o prazer é surpreendermo-nos. Ir à fonte, buscar uma água que ninguém bebeu. Estou quase no Guinness dos bonecos [risos], já fiz milhares de bonecos. Obviamente que este terá "farrapinhos" de um ou outro boneco que lembre as pessoas, mas tento sempre que seja uma coisa nova, ou, pelo menos, que o meu olhar seja novo.

Com quem é que se aconselha, quando surgem estas novas oportunidades?
A minha filha tornou-se uma grande companheira. Foi público a maneira como ela me ajudou [aquando do enfarte do miocárdio, em novembro de 2019] e, mesmo hoje, ajudamo-nos muito uma à outra. Somos as duas mulheres. Tenho muito a noção de que estou a formar uma mulher que espero que também seja - e vai ser - independente e forte. Aconselhamo-nos, evidentemente, mas a melhor escuta é o coração. Eu oiço o meu, desde sempre.

O que é que ainda lhe falta fazer?
Nunca fui uma pessoa que procurasse grandes papéis. A maior parte das atrizes tem aqueles sonhos de fazer um grande papel... uma grande vilã. Fui sempre gerindo o que a vida me foi dando, não é que fique em casa à espera que me caia do céu. Não tenho necessidade de protagonismo, tenho é necessidade de estar rodeada de talento e de sentir que vou aprender alguma coisa. Espero que ainda me falte fazer muita coisa, porque queria morrer a aprender.

É muito crítica em relação ao seu trabalho?
Sou crudelíssima comigo própria. Não consigo ver imediatamente aquilo que faço. Só depois de ter uns ecos é que vou lá espreitar: "Podias ter feito isto de outra forma". Sou muito crítica, ainda hoje. E cada vez mais nervosa antes de entrar em cena... é, também, o peso da responsabilidade. A Eunice Muñoz, uma vez, foi dar-nos uma aula, no Conservatório, e um aluno perguntou-lhe: "Ainda tem nervos? Já não tem nervos, pois não?". "São cada vez piores", respondeu. E, agora, entendo-a. Não sou a Eunice Muñoz, mas entendo-a muito bem. Tem a ver com a expetativa que as pessoas depositam em nós. Aliás, estou cheia de nervos e espero não vir estragar a "festa". Somos humanos e máquinas que falham.

Fazer rir é difícil?
É muito difícil. É muito mais difícil do que as pessoas sonham. Para dar o ar de que foi espontâneo, as pessoas não sonham as horas de preparação, de frescura. Nós temos dores na vida, coisas que não podem entrar. Mas é um prazer enorme, sinto-me realizada, ao saber que contribuo para aliviar a vida de alguém, com um sorriso ou uma gargalhada.

Como foi recebida pelo elenco de "Festa é Festa"?
Muito bem! Isto é um carrossel em andamento há um ano. Foram todos generosos, desde a Maria do Céu Guerra ao Pedro Alves, passando pela Ana Guiomar e pelo Manuel Marques, que é meu "irmão". Espero continuar a merecer a bondade deles.

Espera, também, vir a cruzar-se com a Ana Bola, quer no "Festa é Festa”", quer na "Rua das Flores"?
Sim! Temos muitas saudades de contracenar uma com a outra. Temos anos de dupla cómica. Portanto, espero que o universo se conjugue para podermos divertir-nos as duas.

E como é que os colegas de "Festa é Festa" têm visto a sua participação no programa "Cá Por Casa" que faz uma caricatura do "Big Brother Famosos"?
Eles sabem que eu e o Manuel Marques temos esse outro ofício. É tudo bem recebido, são pessoas profundamente inteligentes. Não há nada mais inteligente do que rirmos de nós próprios. Eu rio-me de mim, dos meus nervos, dos meus disparates. Tudo nos inspira, não é só a TVI [risos].

A nível pessoal, o que deseja para os próximos tempos?
Serenidade. Sou uma privilegiada, tenho sempre de ter isso em perspetiva. Trabalhei com as pessoas mais excecionais deste país. Portanto, o que desejo é continuar a ter o privilégio de estar com pessoas muito talentosas.

É inevitável, ainda, falarmos sobre a pandemia que assolou o país há quase dois anos. Como tem lidado com esta realidade?
Tenho vivido a vida que toda a gente vive. Consegui fugir da Covid-19 este tempo todo, fui apanhada antes do Natal, a minha filha também. Mas, lá está, a minha perspetiva é ver sempre as coisas pelo lado bom. Ficámos as duas infetadas, não houve Natal com a família, nem fim de ano. Mas estávamos juntas, fizemos uma Consoada à moda antiga e soube-nos pela vida, porque, às vezes, desfocamos o essencial. Acho que a vida nos ensina que não vale a pena grandes latins. Agora, é mesmo um dia de cada vez.

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