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EXCLUSIVO

Marta Gil confessa: "Há sonhos que ficaram para trás!"

As primeiras imagens da novela "Festa é Festa"
Apresentação da novela "Festa é Festa"

Após dois anos a viver nos EUA, Marta Gil teve de regressar a Portugal e o convite para a novela "Festa é Festa" não podia ter surgido em melhor altura.

O que nos pode contar acerca da sua personagem na novela "Festa é Festa"?
Já comecei a gravar e foi muito bom, porque, logo nas primeiras cenas, a minha personagem mostra aquilo que é: uma mulher muito forte, cheia de convicções, que luta por aquilo em que acredita, em prol de toda uma comunidade. Ela é a Dra. Camila, a presidente da câmara, uma mulher de esquerda, que leva o seu trabalho muito a sério e isso vai refletir-se nas ações dela ao longo da novela.

Como se preparou para esta personagem?
Confesso que estudei Direito, como a minha personagem. Além disso, gosto bastante de política, portanto, foi quase um presente que me deram, porque, se não fosse atriz, se tivesse continuado a minha carreira em Direito, acho que, na minha vida real, estaria ligada à política. Portanto, fui buscar muitas dessas coisas a matérias que dei no curso, a pessoas com quem convivi e a muitos professores meus que eram deputados. Usei muitas dessas memórias para, agora, as colocar nesta personagem. É bom, porque a Camila, também, tem um lado muito doce na vida pessoal e, então, dá para explorar as duas áreas. Estou, todos os dias, em construção.

Há muito da Marta na Camila?
Sim! Tenho uma voz que ajuda bastante e uma colocação de voz que ajuda ainda mais. Acho que, no meu dia a dia, sou uma pessoa muito firme em determinadas coisas. Valores pessoais e mesmo valores de comunidade pelos quais tento lutar, todos os dias, e, ao mesmo tempo, passar isso para os meus amigos e para as pessoas que estão à minha volta, no que diz respeito a temas que considero basilares numa sociedade. Portanto, sim! Há um lado muito meu na Camila, o que é bom!

O que podem as pessoas esperar da novela "Festa É Festa"?
Acima de tudo, divertirem-se! E espero que se divirtam tanto como nós nos vamos divertir a fazer isto e, principalmente, numa altura tão má para o mundo inteiro, não só para Portugal, acho que é importante rirmos e rirmos sem preconceito, sem apontar o dedo, sem estar sempre a dizer mal. Portanto, acho que é mesmo uma festa feita nesse sentido. São personagens que, de uma forma muito natural, nos vão divertir. O texto já tem muita graça e nós vamos tentar interpretar isto da forma o mais verdadeira possível, para que ganhe, ainda, mais graça e seja, ainda, mais cómico. Nem todas as personagens são assim, como é o caso da minha personagem, que não faz parte desse núcleo de comédia. Há, ainda, outra personagem que, também, não faz parte desse núcleo, e isso é bom, que haja estes balanços. A minha personagem, que é tão forte, tão convicta… vai esbarrar com o amor. Há todo um amor que vai acontecer e, aí, vamos perceber como o amor é tão forte e faz com que as pessoas fiquem pequeninas.

Como está a ser trabalhar com este elenco?
Trabalho muito com o Pedro Alves, que é o Bino, e vou trabalhar muito com a minha mãe, a Catarina Avelar, e com o meu grande amor, que é o José Carlos Pereira. Estou muito contente! Só tinha trabalhado com o José Carlos Pereira, mas uma coisa muito pequenina, há muitos anos, quase nem conta. Quando nos vimos foi tipo: "De onde é que nós nos conhecemos?" E, para mim, estar a trabalhar com a Catarina Avelar ao meu lado é mesmo: "Oh, Meu Deus! Uma diva!" E aprende-se sempre imenso, dentro e fora de cena, algo que é muito importante. O Pedro [Alves] é a comédia em pessoa, portanto, ele diz um "olá" e já me estou a rir. Depois, ele tem uma descontração natural muito boa, é muito terra a terra e gosto de trabalhar com pessoas assim. O José Carlos Pereira é ótimo, porque ele é um galã. Aliás, sempre que digo a alguém que estou a trabalhar com ele, as pessoas dizem logo: "Ahhhh, wow!". É maravilhoso trabalhar com um homem que é um galã e, ao mesmo tempo, vai ser um desafio, porque a nossa história vai ser uma história difícil, e, por isso, estou muito curiosa para ver como é que as coisas se vão desenrolar.

E como viveu estes períodos de confinamento?
Já passei por todas as fases da pandemia. Ou seja, vi-me obrigada a sair do país onde estava, os EUA, onde estava em Los Angeles a trabalhar como atriz, e voltar para Portugal. De repente, vi todos os meus planos de vida saírem, completamente, ao lado. Chegar a Portugal, de repente, e perceber que não tinha trabalho, que as minhas coisas estavam em Los Angeles... Estava lá há dois anos, este era o meu último ano de visto e, de repente, a minha vida deu uma volta gigantesca e tive que me adaptar. Passei aqui em Portugal por alturas sem trabalho, porque tinha acabado de chegar! As pessoas nem sequer sabiam que eu estava cá. Cheguei a ir trabalhar, durante o mês de dezembro, para as Amoreiras, para um quiosque... Passei por todas as fases. Posso mesmo dizer: "I Know it!"… Eu sei, meus amigos.

Como se sente com este regresso à representação?
Sinto-me mesmo com muita sorte por estar a trabalhar neste momento. Sinto mesmo que sou uma privilegiada, no verdadeiro sentido. Hoje em dia, é muito bonito andarmos a dizer que somos privilegiados, mas eu sou mesmo, porque já estive em todas as outras fases durante a pandemia.

Voltar a Portugal não fazia parte dos seus planos?
Não, porque tinha este último ano de visto, portanto, queria ficar o máximo de tempo em Los Angeles. Era mesmo a minha missão ficar lá, até julho. Voltei quando aqui já estavam todos confinados, em abril. Lá ainda estava tudo aberto e eu voltei, numa fase em que estava com imenso trabalho, quando aqui estavam a confinar. Os meus pais ligaram-me e tinha, também, amigos a dizer: "Marta, isso vai chegar aí. Vai ser o pânico." Quando decidi mesmo vir-me embora, foi quando o [Donald] Trump fez um discurso a dizer que eram proibidos ajuntamentos com mais de dez pessoas e quando todas as produções que eu tinha foram canceladas. Dei por mim a pensar: "Não posso viver em Los Angeles sem trabalho, é impossível!" Portanto, foi tomar a decisão de um dia para o outro. O Donald Trump fez este discurso a uma segunda-feira e as minhas produções foram, imediatamente, canceladas, sem data de voltar. Nessa altura, tinha três grandes publicidades agendadas e um feature film, que foi adiado. Entretanto, acabou por ser realizado, mas eu não pude voltar para o fazer e tive que tomar essa decisão. Comprei o bilhete numa segunda-feira e, na quarta-feira, vim-me embora.

Como se sentiu quando chegou a Portugal?
Foi um misto de emoções. Tinha muitas saudades, já não vinha cá há imenso tempo! Mas, ao mesmo tempo, não podia estar com as pessoas. Não tinha casa em Lisboa, tinha a casa dos meus pais e não podia ir ter com eles, por razões óbvias, depois de ter feito uma viagem gigante. Mal cheguei, fui ter com os meus pais, à distância, eles encheram o meu carro com coisas e deram-me a chave de uma casa de férias deles, e fui fazer quarentena para essa casa, perto de Alcobaça, com o meu cão. Fiquei lá o mês inteiro e, depois, foi começar a retomar a realidade. Depois, entrou o verão, altura em que desconfinámos, e voltei a ver os meus amigos.

E como viveu esse período de isolamento?
Foi um choque, mas, ao mesmo tempo, fazia tanto FaceTime com os meus amigos, que acabava por estar acompanhada. Depois, era contar as novidades da minha viagem, como é que eu estava… Havia sempre mil amigos. Tenho muitos amigos, e bons! Então, senti-me muito acompanhada. Tornou-se mais fácil. Sempre achei que ia estar aqui uns três meses e me ia embora, porque, na altura, ninguém sabia bem o que era o Covid-19. Em setembro, quando adiei a minha viagem duas vezes, sempre sem conseguir voltar, foi quando percebi: "OK, vou ficar em Portugal."

Foi difícil perceber que não ia voltar para os EUA?
Setembro, outubro e novembro foram os meses que me bateram à séria. Aí, fui um bocadinho abaixo, a pensar: "Não vou voltar. Tenho que trabalhar em Portugal. Vou ter de dizer ao mundo estou aqui outra vez. Vou ter de começar do zero!" Os meus amigos foram pessoas muito importantes nessa altura.

Há sonhos que ficam para trás?
Há! Porque tinha um plano de vida para três anos, e podia ser mais, se as coisas corressem bem. Tenho a sorte de poder dizer que era uma "working actress". Não era aquela miúda que estava lá só a trabalhar num restaurante ou a fazer eventos. Trabalhava muito como atriz, pois tenho este look meio latino, que, em Los Angeles, funciona muito bem. Fazia muita publicidade, muitas curtas-metragens que entravam em imensos festivais, e trabalhava muito. Claro que, também, passei por um restaurante, à noite, como host, claro que sim! Check on that! [risos] Também tinha outros trabalhos paralelos, mas o meu trabalho, de segunda a sexta-feira, era como atriz. E isso era uma coisa muito boa, porque trabalhava mesmo bastante. Los Angeles é uma coisa de progresso. Vais evoluindo, vais ganhando mais… E eu sentia que estava nessa jornada e que as coisas estavam a "subir as escadas" e o Covid-19 foi mesmo uma coisa… Voltei tudo para baixo.

Quando surgiu o convite para a novela "Festa é Festa"?
Este ano que começou só me trouxe coisas boas. No início de fevereiro, fui para o Porto fazer uma participação no filme o "Biscoito da Fortuna", no qual entra a Sílvia Rizzo, também, e a Beatriz Barosa. Fui lá fazer uma participação, porque o guionista do filme era meu amigo e tinha uma personagem pendente, e, então, ligou-me… A partir daí, fui convidada, também, para uma série da OPTO, que ainda há de estrear, e, depois, surgiu este convite. Tenho, claramente, a noção de que, de repente, quando tive aquele primeiro convite para o filme, a minha energia mudou e acho que essa energia atraiu outras coisas. Depois, uma coisa veio atrás da outra, surgiu o convite para esta novela e, mal vi o perfil da personagem, percebi, perfeitamente, por que se tinham lembrado de mim [risos]. Respondi logo: "Claro que sim!" E estou muito feliz!

Costuma fazer projetos para o futuro?
Não, mas sempre relativizei muito as coisas e acho que isso é uma sorte e que vem do tipo de personalidade que tenho. Mesmo quando estou na mó de cima, nunca acho que estou na mó de cima. Ou seja, vivo o momento, mas, sempre, com o pensamento: "Isto não é garantido…". Hoje, estou aqui, amanhã, já não estou aqui. E Los Angeles dá muito isso: a vida dura de castings, de ter de ter outros trabalhos para me sustentar, traz muito essa ideia de relativizar tudo, e acho que, agora, tenho isso muito presente na minha vida. Agora, quero é pensar: "OK, consigo pagar as minhas contas. Tenho trabalho garantido durante algum tempo." Mas, depois, quero é viver e dar o meu melhor nas coisas em que estou envolvida, ser super profissional, cumprir, superar expetativas, e o resto... logo se vê.

Pensa voltar a Los Angeles?
Gostava muito de voltar, mais que não seja para ir buscar as minhas coisas. Tenho lá muita roupa, o verão vai chegar e eu não tenho roupa! [risos] Entretanto, agora, estou a viver com uma amiga que fiz em Los Angeles, que é portuguesa e que trabalha na TVI, por acaso. Conhecêmo-nos em Los Angeles e, agora, estamos juntas a viver cá, o que é muito engraçado. Quanto a voltar, não sei… Agora, prefiro não fazer planos e acreditar que o mundo está, cada vez mais, universal, no sentido dos trabalhos, e que não tenho que estar em Los Angeles para poder trabalhar lá. Prefiro acreditar nisso. Quero, sem dúvida, fazer coisas internacionais. Já fiz curtas-metragens que ganharam prémios, já ganhei um prémio em Nova Iorque de melhor atriz e, portanto, quero continuar a apostar nisso. Sou muito feliz a fazer esta arte, por isso, quero é trabalhar naquilo de que gosto.

Voltando à novela "Festa É Festa", por que motivo as pessoas não podem perder esta novela?
Para já, porque é uma festa e estamos, todos, com saudades de festas! E nem que seja para sentirem um bocadinho essa coisa da festa, aquela festa a que já não vamos há tanto tempo... Nem que seja para sentirem isso, porque vai ser muito bom. Vai ser uma grande exposição, as pessoas vão estar todas bem dispostas e, mesmo as coisas menos boas, vão servir, também, para refletirmos e pensarmos na vida, e as pessoas vão identificar-se! Acho que, hoje em dia, o truque é esse. É as pessoas identificarem-se com o que estão a ver. Acho que já passámos um bocadinho a fase do aspiracional e estamos muito mais numa fase terra a terra e acho que esta novela vai ser muito terra a terra. E é por isso que as pessoas não podem perder! Sentado no sofá, enquanto nós nos divertimos, o público também se diverte, e estamos todos felizes numa grande festa!