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Com vários projetos em curso, Albano Jerónimo assume: "Respeito cada vez mais o meu tempo"

Depois do sucesso de "A Herdade" e com uma série na Netflix por estrear, Albano Jerónimo contou à SELFIE como tem vivido estes tempos de pandemia, altura em que nunca baixou os braços, mas lamenta a falta de apoio aos artistas em Portugal.

Levou, recentemente, a palco a peça "Festa de 15 anos", no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto. [Segue-se Loulé (19 de fevereiro), Guimarães (27 de março) e (7 de maio)] Como foi este trabalho?
Produzida pela Coletivo 84, companhia teatral com quem já trabalho há alguns anos, este texto de dramaturgia portuguesa contemporânea, escrito pelo Mickael de Oliveira, é um texto que, ao fim de 21 anos de trabalho… Há uma concretude no trabalho que aqui muda diariamente, no sentido dos tempos que estamos a viver, desde esta questão pandémica, a relação com a cultura no nosso país, o estado da cultura, o estado das coisas, como é que nós sobrevivemos ou nos reinventamos e, tudo isso, está espelhado neste trabalho. Este trabalho é um objeto vivo, em permanente mutação, não só no texto, não só na forma como abordamos as temáticas latentes neste texto, não há uma só temática.

E como é trabalhar nestes tempos de pandemia?
Tivemos todos de nos adaptar. Tenho tido algumas experiências durante este período de Covid-19, não só online. Na minha companhia profissional Teatro Nacional 21, desenvolvemos várias propostas, que levámos mesmo à cena online. Criámos um projeto especificamente online, adaptámos um espetáculo, um monólogo feito e dirigido por mim, online. Criámos bolsas de apoio a jovens criadores online, e também, andamos em digressão com o espetáculo com o texto "O Amante" de Harold Pinter, já dentro desta realidade nova, com a lotação das salas a metade, com estas normas da DGS, o distanciamento, toda a gente a usar máscara durante o espetáculo. Portanto, já tenho esse feedback, já tenho esse eco do que isto implica na nossa dinâmica diária. Também estive em cena com o monólogo "Veneno" e o que sinto é que o acontecimento teatral mantém-se, obviamente, muda, mas o mais importante é que ele se mantenha! Não só porque a carência, a reação e a resposta do público é complemente avassaladora, porque as pessoas estão ávidas destes acontecimentos teatrais, culturais. As pessoas querem manter esse hábito cultural, que é das coisas mais belas nestes momentos que estamos a viver. E, sempre que tenho feito espetáculos, as salas estão esgotadas, obviamente com a lotação reduzida, mas estão esgotadas e isso é um sinónimo de que as pessoas querem e vão.

Acredita que as pessoas acabaram por ganhar maior consciência da importância da Cultura?
Acredito que sim! Temo só que, no que diz respeito ao programa educacional, todo o programa para a infância, um trabalho de anos, de vários teatros, agora, ganhe um 'buraco'. Temo que se reflita nos jovens públicos, que se corte este hábito de ir ao teatro. Há todo um programa educacional, feito e desenhado pelos teatros, que sofreu um rombo um bocadinho delicado. Aqui é onde podemos vir, mais tarde, a ter o reflexo destes tempos de hoje.

Vai dinamizar uma masterclass de Interpretação. Na descrição surge: "Sobre a Imperfeição e o Erro. Acredito na imperfeição do gesto, no limite do corpo, no erro, na falha que nos empurra sempre para uma escassez fértil." Pode desenvolver esta ideia?
Tem que ver com os tempos que estamos a viver, onde estamos sempre um bocadinho sob uma bitola daquilo que consideramos ser uma espécie de aceitação social e, de certa forma, maquilhamos permanentemente as nossas dificuldades, os nossos erros ou as nossas falhas. E, neste trabalho, nesta profissão em concreto, é exatamente o que nos distingue, na minha opinião. São exatamente essas falhas, essas imperfeições, que nos tornam únicos na existência. Ou seja, dito de uma forma concreta, o que pode diferir o meu Hamlet do seu Hamlet? É exatamente a nossa vivência, a nossa experiência pessoal e cultural e as nossas falhas, os nossos limites do corpo, as nossas características físicas. Então, no fundo é trazer à superfície exatamente essas diferenças, como uma mais valia ou a mais valia, como pessoas, e, obviamente, profissionalmente, também. Então, aqui, o erro é o nosso melhor amigo, deposita-nos exatamente neste terreno fértil, como eu digo, e este terreno fértil é, ao termos noção daquilo que não alcançamos, temos uma enorme perspetiva, uma enorme paisagem de conhecimento à nossa frente. Partindo destas dualidades do não conhecimento que nos espera exatamente uma franja brutal de prospeção, de conhecimento à nossa frente, quisemos um bocado realçar a imperfeição e o erro como pontos de partida para uma mudança, uma transformação nossa, permanente, mas de uma forma consciente e objetiva. É um pouco isso que vai ser trabalhado nesse workshop.

Não tem qualquer receio de assumir as suas falhas e os seus erros?
Profissionalmente, tento sempre optar por aquilo que não conheço. Ao optar por isso, estou a pôr-me em mar alto, onde não conheço, não há referência de terra. Isso é propositado, porque me obriga a procurar, nesta analogia, a nadar, a remar, a procurar sempre terra, obriga-me a conhecer. No fundo, estou a falar de um caminho. Acredito que a vida passe sempre nesta construção permanente de um caminho que nos leva possivelmente a uma ilha de conhecimento e acredito, sim, que, ao abraçarmos algo que desconhecemos, ao abraçarmos os nossos limites, temos toda uma perspetiva e um caminho mais pródigo e mais auspicioso na nossa formação pessoal.

"Qualquer bom ator é perverso. Eu sou". Em que medida o Albano é perverso?
Na medida do conhecimento. Ou seja, para fazer um trabalho em teatro, tenho por hábito conhecer muito bem o autor. Dando o exemplo de Shakespeare, ao fazer o "Coriolano" ou "Romeu e Julieta", espetáculos que já levei a cena, são espetáculos que partem da cabeça de um autor, de uma época, de hábitos de estar, culturais, de relações entre pessoas. A perversão vem daí: para perverter, acho que temos de conhecer. E perversão é exatamente associada a esta ideia de conhecer muito bem aquilo que queremos fazer, conhecer Shakespeare, neste exemplo que dei, para, depois, quando formos experimentá-lo, no corpo e em cena, possamos rasgar exatamente com esta ideia clássica do autor ou do texto. No fundo, a perversão vem acoplada de uma liberdade e esta perversão está ligada a uma ideia de liberdade de podermos ser livres na criação. A perversão tem que ver com um distanciamento que se cria daquilo que se vai fazer. É um pouco como o humor. Acredito que um bom humorista é aquele que ganha recuo sobre aquilo que está a acontecer à volta e consegue ter uma outra perspetiva das coisas. Então, a perversão tem que ver com o distanciamento sobre as coisas e darmo-nos a liberdade e o espaço de sermos livres. Isto tudo só é possível com um conhecimento brutal daquilo que está à nossa frente, do objeto, seja de um texto de um autor, de um guião de cinema, ou de outra coisa qualquer.

Por falar em humor: não podemos deixar de falar do sucesso do projeto "Como É Que o Bicho Mexe?"...
Nesse projeto, em particular, destaco o que está latente, pelo menos, para mim, mas acredito que, também, para quem está envolvido - o Bruno [Nogueira], o [Nuno] Markl -, que tem a ver com esta ligação que se potenciou ou que se está a reinventar com esta coisa da pandemia, com o confinamento fruto do Covid-19, que é a importância das pessoas. Há várias perspetivas que vamos ter de tirar destes tempos que estamos a viver e uma delas, sem dúvida, é esta forma de olharmos o outro e este movimento de "Como é que o bicho mexe?". Vem exatamente nesta vibração, de estar em contacto com as pessoas, usar uma plataforma online, as redes sociais. São formas, possibilidades que estamos a criar com esse momento de "Como é que o bicho mexe?" para as pessoas terem outras visões, outro espaço mental, para perceberem a importância de estarmos ligados e de usarmos as redes sociais para estarmos ligados. Porque as redes sociais, por norma, são um conceito um bocadinho estranho. O Facebook promove a ideia: "Fiquem em casa. Ficas com montes de amigos, mas ficas em casa, sozinho", Não há nada mais incoerente do que isto! Portanto, aqui estamos a potenciar exatamente esta ideia das 'plataformar', unir as pessoas, através desta forma de comunicação. Portanto, este humor, esta forma de olhar as coisas e o mundo, que, aqui, ganha uma nova roupagem, pode ser interessante. São outras formas de comunicar e de estarmos juntos.

"A Herdade" trouxe-lhe reconhecimento além-fronteiras. O que representou este filme na sua vida?
Este filme, obviamente, marcou a minha vida, marcou o meu percurso, é um trabalho que não vou esquecer, em várias formas, nomeadamente, as pessoas, uma vez mais, toco neste ponto. O que me move naquilo que faço é mais com quem vou trabalhar do que o que vou trabalhar e, neste sentido, trabalhar com o Tiago [Guedes] e com o Paulo Branco, pessoas que admiro e que me podem ensinar muitas coisas, são coisas que não vou esquecer. Esse foi o motivo central para ter abraçado esta "Herdade". O filme tem um percurso, uma viagem inacreditável, por isso, já é inesquecível. Há projetos que nos fazem uma espécie de balanço - como uma empresa que entra em época de balanço - e foi um bocadinho isso que senti. Entrei em época de balanço com "A Herdade", que, também, culminou com 20 anos de percurso, e o filme veio "fechar" um bocado o círculo. Não sei o que me espera, mas houve aqui uma espécie de caminho que se fechou, artisticamente falando. Acho que é importante esta ideia de renovação, de mudança. E, nesse sentido, "A Herdade" veio marcar esta época de balanço, de perceber o que quero e o que não quero… O impacto que teve a nível profissional e a nível pessoal, também, porque me perspetivou as coisas, a forma de estar no mundo e, obviamente, aquilo que faço para as pessoas. É um filme que vai ficar, sem dúvida nenhuma, na história do cinema português. Tudo isto, para mim, é incrível, é absolutamente maravilhoso! Mas a minha cabeça, o meu coração e o meu corpo estão, agora, noutro sítio. Ou seja, foi feito, está feito, ótimo! Adorei! Fechado! Vamos, agora, caminhar.

E o que se segue?
Segue-se trabalho, como sempre. Há 20 anos, segue-se mais trabalho e trabalho [risos]. Incerteza, muita procura e insistência, teimosia, perseverança e sempre à procura de mais alfabeto. Nem que seja por, sei lá, gostar muito da ideia e do conceito do conhecimento. Acredito que a vida é exatamente a possibilidade de trabalharmos esse pensamento sobre o conhecimento, ou o que seja. Mas acho que é mesmo isto, uma das mais valias de estarmos vivos. Nesse sentido, aumentar o alfabeto, como disse, tem que ver com eu estar a aprender línguas, cada vez mais línguas. De uma forma prática, profissionalmente, se puder ir trabalhar lá fora, tenho mais atributos ou mais alfabeto para comunicar noutros mercados de trabalho. Mas, pessoalmente, o que me interessa é exatamente isso. Continuar a estimular-me pessoalmente, nesta perspetiva de aumentar o meu património para poder comunicar melhor e, sobretudo, que seja feliz nesta procura. Basicamente, é aquilo que pretendo e acredito que, de uma forma ou de outra, aquilo que apresentar ao público, seja em formato teatral, numa sala de cinema, em televisão, ou o que seja… será diferente. Desde que o meu impulso seja este, esta procura, acredito que o resultado seja forçosamente diferente. Estar próximo da minha família, dos meus amigos e passar mais tempo com essas pessoas, porque são essas que fazem a minha vida, é, também, o que pretendo.

A quarentena veio impulsionar esta aprendizagem de novas línguas?
Era um projeto que já vinha de antes, mas, na pandemia, aproveitei para não cristalizar e dedicar-me à educação, o que é ótimo. Já trabalhei em várias línguas: alemão, grego arcaico, espanhol, francês, inglês, castelhano, em português do Brasil… Portanto, tudo isto são atributos ou são outras perspetivas de expandir o amor por aquilo que faço. Posso falar disto, como posso falar de instrumentos musicais. Aprender a tocar guitarra elétrica, piano, bateria… uma vez mais, tem que ver com aumentar o meu léxico para comunicar, para ser livre naquilo que faço e tem a ver com o conseguir chegar a mais pessoas, através da cultura e da arte, porque acho que esta educação pela arte é absolutamente fundamental para a nossa qualidade de vida, para a nossa vivência pessoal, íntima, profissional. Para não cristalizar, para não ficar velho por dentro - não que isso me assuste, de todo -, mas para não ficar preso a sítios que já conheço.

TV, Cinema ou Teatro? O que o apaixona em cada uma delas e qual o realiza mais?
Tenho uma tendência... Toda a minha educação é baseada em teatro e não é à toa. No sentido dos processos de trabalho em teatro, tenho mais tempo para apurar todo e qualquer assunto ou texto, ou a relação que estabeleço com os meus colegas de trabalho. Portanto, o teatro, para mim, é-me sempre mais interessante nessa perspetiva. Daí ter essa preferência. Sendo prático, financeiramente, o teatro, para um ator, é uma situação bastante delicada, para não dizer deplorável. Pelo menos, não consigo viver com um vencimento de teatro. Depois, em segundo, tenho o cinema, como óbvio, porque tem exatamente esta pertinência de aprender mais com os processos de trabalho. Em televisão, nomeadamente em trabalho de série, quando se apanha algum trabalho em que o tempo de criação, de preparação daquilo que se vai fazer é maior, há mais tempo para essa escuta, interesso-me, também. E, depois, há o formato de novela, que já fiz várias. Com todo o orgulho digo isto e com todo o respeito por este formato, também, volta e meia, tenho vontade de fazer, porque tem que ver exatamente com o ritmo. O tempo de aprendizagem é outro, a agilização das coisas, tudo tem uma outra perspetiva. Portanto, não fecho estas perspetivas várias de trabalho. Contudo, respeito, sim, cada vez mais, o meu tempo, o que quero fazer e aquilo que me faz feliz e vou tentando dosear um bocadinho a vontade, com a possibilidade e com o cenário ideal. O cenário ideal era fazer exatamente aquilo que quero ou aquilo que gostaria, sempre, mas isso não é possível. Pelo menos, para mim, não é. Todos nós temos responsabilidades que, às vezes, nos obrigam a escolher não o que seria ideal ou ótimo, mas, sim, aquilo que tem de ser escolhido, por razões várias, mas isso é a vida. Às vezes, temos a sorte de ter momentos como o filme "A Herdade", que é a junção de tudo: tempo, disponibilidade, encontro de pessoas, argumento. Tudo isso se conjugou num único tempo de trabalho e, às vezes, isso acontece, outras vezes, não.

Mencionou que preza cada vez mais o tempo para a família. A pandemia veio ajudar a que todos nos viremos mais para a família?
Acho que sempre tive esta noção. Este tempo que estamos a viver de pandemia veio adensar, de uma forma geral, socialmente falando, a importância do outro. Este reconhecimento, através dos outros, da nossa própria pessoa e do quão importante isso é, do quão vital isso é para a nossa existência. De uma forma geral, essencialmente, acho que esta importância da pessoa, do outro, foi adensada, aqui, tanto para o bem, como para o mal. No fundo, fomos confrontados com as nossas escolhas nestes tempos da pandemia e isso empurra-nos para momentos de decisão, de escolha, o que acho altamente positivo. E, sim, já tinha essa necessidade permanente de estar com as pessoas que me dizem, que me tocam, que me são próximas e, aqui, foi o momento perfeito para trabalhar essas relações, para estar mais próximo, para mimar os amigos, a família e as pessoas que mais gosto.

A paternidade mudou-o?
Muda sempre. Há uma resposta clássica que tem a ver com a ideia de que o centro da nossa vida passou a ser fora de nós e, nesse sentido, as coisas ganham toda uma outra relevância, no nosso dia a dia, tudo aquilo que fazemos. E tem que ver com o facto de deixarmos de ter o centro dentro de nós. Fez com que olhasse para as coisas de outra forma. Aquilo que faço profissionalmente não é sobre mim, é sobre outra coisa que está acima de mim. Fazendo esta analogia com o facto de ser pai, tem que ver com isso. Aquilo que faço está acima de mim, ou seja, o que automaticamente me coloca numa posição de veículo, de algo que transporta uma coisa para outro lado, é uma espécie de agente de comunicação. O facto de ser pai vem, exatamente, potenciar esta visão das coisas e do mundo.

Filha de pais atores, a Francisca já mostra dotes para a representação?
Mostra ser uma pessoa livre e com as suas escolhas, e é isso que, para mim, é ser ator: livre no pensamento e nas escolhas que quiser tomar e abraçar na vida.

Mas apoia-a, caso decida seguir as pisadas dos pais?
Farei isso para aquilo que ela quiser seguir, seja o que for.

Sonha ter mais filhos?
Gostaria de responder a essa pergunta, mas, como diria José Mário Branco: "O meu futuro é hoje, não sei o que será amanhã."

O que representa para si o casamento?
A minha vida pessoal não é interessante. O que é interessante é a minha vida profissional. Ou seja, o que é comunicável, para mim, de forma interessante é a minha vida profissional. Pessoalmente, não acho interessante responder a essas perguntas.

Onde podemos ver o Albano nos próximos tempos?
O Teatro Nacional 21, a minha companhia, da qual me orgulho muito, tem vários projetos. Criámos três apoios à criação para jovens que tinham acabado a formação profissional em 2020 e que, se todos nós estamos em carência, essas pessoas estão não só em carência, mas, também, sem qualquer perspetiva de trabalho. Então, desenvolvemos três apoios específicos para criações online, exclusivamente online. Este é um projeto do qual me orgulho, porque estamos a cuidar do nosso futuro e da nossa criação e da nossa cultura futura. Tenho, ainda, o monólogo "Sangue", que temos em carteira permanentemente e que já temos perspetivas para 2021 e 2022. "O Amante" está em digressão com a Custódia Gallego e o Virgílio Castelo, como atores principais, com vários sítios anotados para 2021 e 2022. Haverá, ainda, uma próxima criação da nossa companhia, que será dirigida por mim: "Orlando", da Virginia Woolf.

E no cinema?
Irá estrear o filme de Edgar Pêra, "The Nothingness Club", sobre o universo do Fernando Pessoa. Foi um filme que adorei fazer e foi feito em plena pandemia, com todas as normas de segurança e mais algumas. Foi um bunker criativo desde hotel-platô, platô-hotel. Mais ninguém podia entrar e sair. Irei, ainda, rodar um filme com o Paulo Branco, como produtor, e o Rodrigo Areias, como realizador, este ano. Um filme totalmente rodado em inglês e, maioritariamente, em Inglaterra. Retrata a história de um português, em Inglaterra, uma história com factos verídicos.

Há perspetiva de projetos internacionais?
Estou a aguardar resposta de dois projetos bastante interessantes, que, a serem possíveis e a concretizarem-se, serão um novo boost de trabalho e de perspetivas. É uma série e um filme.

Há, ainda, a série da Netflix que foi adiada?
Estreará em março. Foi gravada em 2020 e já devia ter estreado no final do ano passado, mas foi alterada por causa da pandemia. Ou seja, queremos estrear isto com outro tempo e espaço e com outra possibilidade para as pessoas assistirem à serie "The One".

Portanto, há muita coisa a acontecer...
Há muita vontade e falo, sobretudo, na minha companhia de teatro, mas não só. Muita vontade das pessoas em quererem fazer chegar às pessoas o seu trabalho e isso é altamente comovente e tocante, esta quase irreverência e inquietude das pessoas de quererem continuar a trabalhar, "no matter what"[independentemente] daquilo que surja para continuarmos vivos e ativos de cabeça e intelectualmente, para conseguirmos dinamizar e manter uma certa cultura para as pessoas.

São iniciativas como esta que ajudam a colmatar a falta de apoio à Cultura?
Nós estamos sempre em prejuízo e isso é o problema inacreditável. É uma ausência de pensamento cultural e é completamente desmoralizante, é sufocante para quem trabalha na área e é transversal ao cinema, ao teatro, à dança, às artes plásticas. Todos nós estamos em carência permanente e o mais sufocante é ver uma inaptidão, um adormecimento, uma quase ausência de perspetiva, uma surdez naquilo que os tempos pedem. No Cinema, temos uma massa criativa absolutamente única, ímpar. Os jovens realizadores, não só são conhecidos lá fora como têm um percurso único, são distintos naquilo que fazem. Para não falar em Teatro, em Dança…por aí fora. Nós temos uma massa criativa única. Estas ações carecem de um apoio concreto do nosso governo, algo que este ainda não percebeu, porque o público já entendeu, há muito, a urgência e carência, a necessidade de uma oferta cultural de excelência. Temos tudo, só temos é a ausência de um apoio governamental, que nos dá 0,21% de orçamento para a Cultura, que, convenhamos, é ridículo e insultuoso para quem cria neste país. Portanto, estas ações e estes projetos são tentativas quase heroicas de manter o nosso trabalho vivo. Nós somos heróis nesta teimosia de mantermos o nosso trabalho vivo. E quase somos quase ilusionistas, mágicos permanentemente a inventar e reinventar uma linguagem cultural. Antes disto, nós somos pessoas, temos famílias e todos nós queremos viver e garantir aos nossos filhos as melhores condições possíveis. E, no meio disto tudo, o nosso trabalho, primeiro, é dinamizar um espírito coletivo cultural de um povo identitário para que, de facto, as coisas tenham outro rumo. Criar uma sociedade livre. Nós lutamos por todas essas coisas e, de repente, não há o apoio de um governo, que, obviamente, tem a responsabilidade de desenvolver um pensamento cultural para um país, que é basilar para a identidade de um povo. É urgente um pacote de emergência para a Cultura, como houve para a Economia ou para o Novo Banco... A ausência de tudo isto é deplorável e a dormência e o sonambulismo da nossa Ministra da Cultura são assustadores. É completamente revoltante e vergonhoso, não nos representa.