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EXCLUSIVO

Carta aberta de mulher que teve filho do falecido marido: "O preocupante é a quantidade de 'Ângelas'"

Ângela Ferreira e Hugo Neves: "Amor Sem Fim"
"Amor Sem Fim" (Episódio 1): "O Hugo é o amor da minha vida"
“Amor Sem Fim” (Episódio 2): “Falta-me ser pai novamente”
"Amor Sem Fim" (Episódio 3): "Quero um filho teu. Nosso, muito nosso"
"Amor Sem Fim" (Episódio 4): “Espero que já tenhas um filho nosso nos braços”

Mais perto de cumprir o sonho de engravidar do falecido marido, Ângela Ferreira ajuda, agora, a dar voz a outras mulheres que lutam pela mesma causa. Conheça a última de três cartas abertas, divulgadas, em exclusivo, na SELFIE.

Foi através da série documental "Amor Sem Fim", transmitida na TVI, que Portugal ficou a conhecer a história da luta de Ângela Ferreira para "engravidar do marido morto".

Agora, após o parlamento ter aprovado, no passado dia 22 de outubro, um novo decreto sobre a inseminação pós-morte, o desejo de Ângela Ferreira está mais perto de se cumprir. Contudo, a barbeira de Gondomar, de 33 anos, faz questão de afirmar: "Não é uma lei para mim, é uma lei para muitas mulheres."

Depois de ter sido contactada por outras mulheres na mesma situação, Ângela Ferreira revelou, à SELFIE, que gostava de criar um grupo de apoio ou uma associação para ajudar pessoas na mesma situação: "É uma ideia, mas são precisos meios, disponibilidade, entre outras coisas... Mas quem sabe, um dia! Vou amadurecer a ideia".

Agora, a viúva de Hugo Neves resolver ajudar a dar voz a algumas dessas mulheres e partilhou mais uma carta aberta, escrita por uma delas, que a SELFIE publica, em exclusivo, na íntegra.

 Carta aberta

Excelentíssimo Senhor Presidente da República, dirijo-me a Sua Excelência, para apelar à importância da revisão da lei da procriação medicamente assistida, com efeitos retroativos...

É urgente, imperativo e gritante que seja dado o direito à procriação medicamente assistida com efeitos retroativos. Temos o caso mediático da Ângela Ferreira, mas o preocupante é a quantidade de "Ângelas", sem rosto, sem voz, sem força para lutar... É uma luta importante não só para ela como para tantas mulheres anónimas na dor e no sofrimento. De todas as outras mulheres que, infelizmente, passam pelo mesmo, mas que simplesmente as suas histórias não são conhecidas, a importância de se alterar uma lei como esta pois, infelizmente, doenças como o cancro estão a matar cada vez mais cedo e mais rápido.

Eu sou um rosto anónimo destas histórias de amor, de dor, de sofrimento e de luta. A aprovação desta lei é uma causa, uma luta minha também!!!

Sou empática para com todas estas mulheres e como a Ângela... também eu perdi o amor da minha vida para o cancro... também eu lutei com o meu marido contra ele, mas foi uma luta inglória... Todos os nossos sonhos nos fugiram por entre os dedos, a cada dia de luta, todos os dias dou por mim a pensar, como seria a minha jornada nesta vida, se não tivesse engravidado antes da morte do meu marido, de forma natural, ou se não tivesse chegado a um ponto do processo onde já teria embriões.

O meu marido morreu de cancro há 11 meses, com 32 anos. O meu guerreiro... Do diagnóstico à partida foram pouquíssimos meses, de muita luta, sofrimento, agonia, esperança, mas muito, muito amor...

Faltou-lhe muito nesta sua pequena jornada, menos amor.

Nunca desistimos dos nossos sonhos, ele próprio me dizia que a doença não ia parar os nossos sonhos... Mais de uma década juntos fisicamente e, agora, sinto que vivo um vazio. Sinto falta dele, dos cuidados dele, do jeito único dele cuidar de mim, da forma como o olhar dele brilhava, quando olhava para mim ou falava de mim.

Mas ele deixou-me o nosso filho, o nosso amor maior, que nasceu há sete meses. O nosso maior sonho! E deixou-me a maior lição de vida que se pode ter. Ele será sempre o meu guerreiro e deixou-me o escudo dele para eu aprender a seguir. Porque só assim consigo. Nunca vi ninguém tão grato à vida e feliz por cada dia. Dois dias antes de morrer, escolheu o nome do filho e prometeu nunca nos deixar sozinhos, que irá sempre cuidar de nós.

Eu como tantas mulheres, antes do cancro, tinha decidido ter filhos. Quando veio o diagnóstico, não quisemos desistir e seguimos para a procriação medicamente assistida. Nós tivemos a benção de eu ter engravidado antes do início dos tratamentos, mas descobrimos tardiamente. Se não tivesse sido assim, como estaria eu neste momento? Como eu sobreviveria para aguentar outra luta... esta luta de tantas mulheres...

O meu filho é um bebé muito feliz, sorridente e que não deixa ninguém indiferente com a alegria dele. É um bebé muito amado!

Apelo a Vossa Excelência que não fique indiferente à minha história e à de tantas outras mulheres.

Excelentíssimo Senhor Presidente, lute connosco, lute por nós!