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Em Portugal, Christiane Torloni apresenta documentário sobre a Amazónia: "A Terra está a pedir socorro"

Recentemente, a atriz brasileira Christiane Torloni marcou presença no festival Acqua Content, em Cascais, para apresentar o documentário "Amazónia - O Despertar da Florestania", que co-realizou. Numa entrevista exclusiva à SELFIE, a artista falou sobre o começo do interesse pela preservação da Floresta Amazónica, as conquistas do filme e a estreia atrás das câmaras.

Para além do percurso na representação, tem se destacado como uma ativista política e ambientalista. Essa consciência social é algo que a acompanha, desde sempre?
Já me acompanha há muito tempo. No começo dos anos 80, quando o Brasil vivia uma ditadura militar, fiz parte do "Diretas Já", um movimento político associado a uma grande frente nacional, a favor das eleições diretas para o cargo de Presidente da República. Envolvi-me, profundamente, nessa mobilização. Foi o meu primeiro chamado pelas causas cívicas do Brasil. E, depois, quando nos envolvemos nestas causas, é um caminho sem volta. Como foi uma campanha nacional, tive a oportunidade de viajar por todo o Brasil e foi nesse momento que fui à Amazónia, pela primeira vez, e conheci uma Amazónia completamente diferente dessa que estamos a ver agora.

Foi em 2006 que teve um contacto com uma Amazónia diferente daquela que tinha visto nos anos 80. E a sua relação com essa região mudou. O que a impressionou nessa altura?
Quando visitei a região, nos anos 80, sobrevoava lugares da Amazónia e via um grande "mar verde", um grande "manto verde". Entretanto, regressei várias vezes e sempre tive essa impressão da Amazónia. Mas, quando voltei, em 2006, para gravar a minissérie "Amazónia, de Galvez a Chico Mendes", estive em outros estados, inclusive no Acre, que não conhecia. E foi aí que vi a devastação. Foi aí que recebi o meu segundo chamado pelo Brasil. Foi um chamado pela Amazónia. Então, eu, o Victor Fasano, que é um ator brasileiro, e o Juca de Oliveira, que é um ator e autor brasileiro, fizemos um Manifesto, o "Amazónia Para Sempre". Esse abaixo-assinado juntou um milhão e 200 mil assinaturas! Imagina isso em 2009, numa época em que a Internet, ainda, estava com pouca repercussão no Brasil. Esse movimento foi muito importante. Foi entregue no Congresso, ao ex-presidente Lula da Silva. Foi um movimento muito bonito.

Sente que este documentário conseguiu mudar mentalidades, junto do público brasileiro? Tem recebido esse feedback dos espetadores brasileiros?
Sabe o que me dá muita alegria? É que sou uma apaixonada pela educação, sempre fui. E esse documentário conta com depoimentos de várias vozes educadoras do Brasil. Nesse sentido, o documentário tem feito, sim, uma carreira muito bonita naquilo que chamo de "abrir as mentes dos jovens". Hoje em dia, os jovens são bombardeados com muitas informações, que ficam no lado racional deles. Mas eu sou uma atriz e trabalho com o lado emocional. Por isso, o documentário tem um lado profundamente emocional, porque acho que as pessoas, através da emoção, podem ir para a ação. Quando nos apaixonamos por alguém ou por alguma causa, em primeiro lugar, temos um impacto emocional, e, depois, temos a necessidade de uma ação. E, desde a época do manifesto, que tenho visto uma movimentação muito bonita, sobretudo junto dos mais jovens, que acho que é a geração que precisa de ser instigada para despertar para uma consciência ecológica e lutar por um melhor futuro. Aliás, antes da pandemia, o filme estava a ser exibido em circuitos académicos e, depois de o documentário ser apresentado, nós debatíamos. Foi comovente vermos como os jovens estavam preparados para lutarem por uma causa, porque tinham sido "tocados no coração". Esse era um dos objetivos do filme e eu fiquei muito feliz por ter sido alcançado.

O filme teve impacto internacional?
Sim, já o exibimos em outros festivais da Europa e tenho recebido sempre um retorno muito positivo. Além disso, o documentário tem repercussão em universidades americanas. O filme gera debate nesse circuito académico, sobretudo pelas personalidades que participaram no documentário e deixaram o seu depoimento.

De todos esses depoimentos, consegue destacar algum que tenha sido mais marcante?
Não posso escolher apenas alguns. Seria injusto, da minha parte, porque todos foram escolhidos a dedo. São personalidades que trabalharam pelo Brasil, no passado, e às quais presto homenagem, até chegar a nomes, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, durante a gestão na Presidência da República, conseguiu travar o desmatamento da Amazónia e criar uma lei que estipulava que 80% da Amazónia era intocável. Há, também, um depoimento de Marina Silva, que foi Ministra do Meio Ambiente, há os testemunhos de dois ex-ministros, há uma participação do Papa Francisco e há toda uma representação do povo indígena. Não há um depoimento mais comovente do que outro. Todos eles formam uma grande rede de sustentação para a preservação da Amazónia e, acima de tudo, trazem um discurso que promove o desenvolvimento sustentável. Cada um demonstra, à sua maneira, que é possível que haja desenvolvimento, sem que seja necessário derrubar uma única árvore.

São muitas as notícias que mostram que a Amazónia está doente: a floresta emite mais dióxido de carbono do que aquele que absorve, a contínua desflorestação fez com que espécies ameaçadas tenham perdido muito do seu habitat, há os incêndios... Na sua opinião, qual é a medida que deve ser tomada, agora, para proteger a Amazónia?
Termos outro Presidente da República, porque, infelizmente, esta gestão é desastrosa. Ela está a ser desastrosa por todos os motivos, mas, em relação ao meio ambiente, tem sido um retrocesso de 20 anos. O Brasil era um dos líderes mundiais do discurso de sustentabilidade. Grandes nomes trabalharam nessa área e criaram tratados multinacionais, literalmente, para a preservação da Amazónia. E, agora, órgãos específicos de proteção da Amazónia foram completamente desmontados. Agora, temos povos indígenas, nas suas terras, a serem absolutamente ameaçados. Há mais de 20 mil garimpeiros ilegais! Isso é uma loucura! Então, estamos a ver um grande retrocesso. Só a Democracia vai salvar a Democracia. E o título do filme fala sobre isso. A palavra "florestania" é um neologismo, ela apenas existe na língua portuguesa. É um conceito tradicional indígena. É um conceito que transmite as regras e os direitos da floresta e daqueles que vivem na floresta. Tal como existe o código da cidadania. É uma luta recente e que exige um trabalho enorme. Daí que o nome do filme seja "O Despertar da Florestania". Estamos nessa altura, de despertar. Mas só a Democracia ajudará a Florestania, porque está nas mãos de instituições governamentais e, principalmente, da sociedade civil, que está a ser convocada a dar um basta no que se está a passar. No próximo ano, temos eleições e acredito que esse seja o caminho para tentar recompor esse trabalho de Florestania.

A pandemia trouxe, obviamente, muitas consequências negativas. Mas acha que, também, foi uma oportunidade para repensarmos a nossa relação com o planeta?
Com certeza. Foi uma forma de pensar que, sim, nós somos os responsáveis pelo planeta. Esta é a altura de tratarmos da nossa casa. Sem ela, não temos nada. Queremos enviar um foguete para Marte, mas Marte já tem água e nós aqui, na Terra, estamos a viver um racionamento de água. Estamos a tratar muito mal o planeta. Muito mal.

Este documentário marcou a sua estreia na realização. Sempre foi um objetivo estar atrás das câmaras?
Na verdade, é uma necessidade artística. Já vivi em Portugal, na década de 90, e, no ano em que a SIC foi inaugurada [em 1992], tive um programa, no qual falava sobre cinema. Comentava sobre os filmes da semana. Paralelamente, fazia coaching com atores portugueses, para séries. Então, tenho um prazer enorme em circular, pela arte. A questão de realizar esse filme tem a ver com muitas viagens que fui fazendo, em dez anos, durante os quais fui registando imagens, em momentos e lugares muito diferentes. E fica claro no filme que esse é um documentário feito a partir do olhar de uma atriz.

O que acaba por influenciar a sua visão e o seu trabalho enquanto realizadora...
Exato. Não sou uma técnica do audiovisual. Daí que tenha um segundo realizador - Miguel Przewodowski –, para que haja uma qualidade técnica boa, o que acho que foi alcançado.

Por que motivo os nossos leitores não podem perder o documentário "Amazónia - O Despertar da Florestania"?
Não tem nada mais importante a acontecer na Terra. É um documentário de interesse mundial e não é vaidade minha. É ainda mais atual do que era no ano em que se estreou, em 2019. A Terra está a pedir socorro, mais do que nunca.