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Autora de "Quer o Destino": "Passar uma mensagem sobre violência doméstica é muito importante"

«As pessoas não podem mesmo perder esta novela»
Inês Herédia faz visita guiada pelos bastidores de "Quer o Destino"
Inês Herédia, Leonor Seixas e Mafalda Marafusta nos bastidores de "Quer o Destino"
Reunido elenco de "Quer o Destino"
Apresentação da novela "Quer o Destino"

Helena Amaral, autora da adaptação da novela "Quer o Destino", com estreia marcada para o próximo dia 23, esteve à conversa com a SELFIE e explicou como é o processo criativo e quais os ingredientes que vão prender o telespetador à nova aposta da TVI.

- Traços gerais, qual é o enredo central de "Quer O Destino"?
É a história de uma rapariga que foi violada na adolescência e mataram-lhe o pai. E, por circunstâncias da vida profissional, regressa ao ponto de partida, à zona de Salvaterra de Magos, de onde tinha saído, e onde se reencontra com os seus violadores e supostos assassinos do pai. No seu regresso, ela quer descobrir, exatamente, o que aconteceu e em que circunstâncias. E, obviamente, que se puder fazer alguma maldade a quem lhe fez mal, não hesitará, sobretudo porque o crime de violação já prescreveu, mas o do assassinato ainda não. Mas o que acaba por interessar mais na novela, penso eu, é que ela apaixona-se... E, no fundo, descobre-se que as pessoas quando voltam ao mesmo sítio, já não são as mesmas. Portanto, ela mudou, já é outra pessoa. No fundo, ela precisa de voltar, para poder avançar. Voltar ao ponto de partida, para depois poder avançar para uma nova vida.

- Foi uma escolha sua ou foi-lhe proposta esta história para adaptar?
Foi-me proposto que seria esta história como base, mas, digamos que a trama está bastante longe do original. O guideline principal está lá, mas o original era muito repetitivo e lento. Desde início, tive que ir introduzindo muitas outras coisas - cenas, personagens, situações... - que se adequassem à nossa realidade e ao nosso ritmo narrativo.

- A grande dificuldade de adaptar uma história é ir buscar essa proximidade à realidade e deixar de parte a repetição?
Pode acontecer, noutras circunstâncias, que o ritmo até seja nosso. O mais importante é fazer uma história nossa, com que as pessoas se identifiquem. E isso obriga, sempre, a uma criação... não parti da página em branco, mas de uma página que já tinha lá coisas. Tenho de reorganizar as coisas e, em primeiro lugar, fazê-las minhas, para que as pessoas as possam sentir suas. Nas novelas é muito importante isso: a identificação.

- Em que se inspira?
Dei aulas - já há muitos anos - e, a dada altura, organizei um curso livre de literatura contemporânea e uma das pessoas que convidei - e sobre a qual fiz uma aula - foi o poeta Al Berto. Uma das pessoas perguntou ao Al Berto se o livro era autobiográfico, e ele disse que tudo o que escrevia era autobiográfico, porque vai sempre buscar as referências daquilo que era, do que leu, viu, pintou, etc. No caso das novelas, eu sempre fui muito viciada em notícias, e quando não estou a escrever, em casa, ando muito na rua e gosto de ver as pessoas, ouvir a forma como falam... e isso é que nos dá as cambiantes todas. 

- Como é o processo criativo?
É muito exigente, porque, normalmente, escrevo 5 a 6 episódios por semana. São períodos em que são 7 dias de trabalho, por semana. É preciso pensar e muita aplicação [risos]. Trabalho cerca de 12 horas por dia, mas depende. Entre reuniões e conversas de equipa, os horários mudam e têm de ser compensados.

- E como escolheu o local da trama?
Sugeri e foi aprovado. Porque, olhando para o universo rural que aquela história tinha, achei que ficava bem ali. Surgiu-me naturalmente e, depois, o que fiz, foi ir almoçar ali, e ver, dentro da região, o que me apetecia mais. Primeiro, estive a estudar o que se passava lá na região. Uma coisa muito simpática deste projeto é que tenho feito o trabalho muito em conjunto com o realizador, Francisco Antunes, e acrescenta tanto à felicidade dos projetos haver diálogos permanentes. Tem sido maravilhoso.

- Esta é uma novela com uma forte componente dramática, que traz um tema em voga, o Movimento me too. De que forma a trama pode ajudar a desmistificar algumas ideias? Tem esse objetivo?
Sou feminista dos quatro costados. Não ando com a bandeira nas novelas, mas acho que têm de transmitir alguma coisa, uma mensagem, assim como todas as histórias. E fiquei muito contente por esta história tratar este problema que diz respeito à vida de todos os portugueses e portuguesas. Sim, é um movimento mundial, mas, em 2019, os portugueses disseram que violência doméstica tinha sido a expressão do ano. Em Portugal, morrem muitas mulheres vítimas de violência doméstica e de género e poder passar uma mensagem sobre esta matéria é muito importante.

- A telenovela é uma ferramenta muito poderosa?
É! É importante as pessoas perceberem que uma vítima é sempre uma vítima, e que não tem culpa das coisas que lhe acontecem. Essa é a grande mensagem. Já no projeto anterior, "Amar Depois de Amar", introduzimos este tema e fornecemos um número de telefone de apoio à vítima. É com pequenos gestos que nós transformamos a vida.

- Aborda, também, um outro tema importante: a discriminação racial. Acredita que as novelas têm um papel importante nesta questão?
Acredito imenso! A TVI, a Maria João Mira e o José Eduardo Moniz tiveram um papel fundamental nesta matéria, com "A Única Mulher". Até aqui, os atores e as atrizes que não eram brancos apareciam sempre a fazer papéis de criados, escravos… Essa novela trouxe uma visibilidade diferente e um outro protagonismo a estes atores. Ator é ator, atriz é atriz. O que interessa é saber se são bons! Embora a sociedade tenha evoluído imenso, basta olharmos para o lado e percebemos que continua a existir. Se calhar, já não se faz no mesmo contexto ou de forma tão descarada. Na novela “Quer o Destino”, a personagem da Ana Sofia Martins, que é casada com o personagem do Pedro Teixeira, vai ser discriminada pela sogra, pelo facto de não ser branca. Não é impedida de casar, mas a sogra faz questão de lhe dirigir determinadas palavras ou expressões que, no dia a dia, não deixam de ser descriminação.

- Como foi a escolha do elenco?
A decisão final é sempre da TVI, mas há propostas da Plural, minhas ou do coordenador do projeto. Temos a vantagem de conhecer muito bem a história e de perceber se aquela pessoa encaixa em determinado personagem. É muito diferente escrever a saber para quem estamos a escrever. Tive a sorte de poder personalizar logo à partida. Acho que isso é uma vantagem enorme. É, depois, muito importante, quando começam a gravar, poder ver algumas cenas e fazer os devidos ajustes, porque, obviamente, os atores, também, trazem a sua visão da personagem. Adoro isso! Ver a diferença e a distância entre o que eu imaginei e o resultado. Sinto-me, muitas vezes, acrescentada nesse jogo. Essa é que é a beleza da escrita para atores. Há que estar atenta ao jogo.

- Qual será a próxima cartada? Já tem algum projeto em andamento?
Neste momento, só consigo pensar que tenho de terminar o "Quer o Destino". (risos) Depois, tenho sempre ideias na cabeça, mas o principal é: quero escrever. É o que gosto verdadeiramente. Em termos pessoais, quero concluir a minha tese de Doutoramento, em Estudos de Género, e defendê-la em 2022, quando faço 60 anos. Gostava de me doutorar antes do 60! (risos)