Crónicas

"Hoje, Portugal tomou uma decisão corajosa. E as nossas crianças podem agradecer-nos mais tarde", por Vera de Melo

Hoje foi aprovada a proibição da utilização de smartphones nas escolas até ao 9.º ano.

  • 30 jul, 20:27
Criança ao telemóvel (foto meramente ilustrativa)
Criança ao telemóvel (foto meramente ilustrativa) Foto: Boris Hamer/Pexels

A notícia dividiu opiniões quase de imediato. Uns aplaudiram. Outros disseram que é um retrocesso. Que a tecnologia faz parte da vida. Que o problema não é o telemóvel, mas a forma como é usado.

Como psicóloga, concordo com uma parte dessa afirmação.

O problema nunca foi o telemóvel.

O problema é entregarmos um mundo para o qual o cérebro de uma criança ainda não está preparado.

A neuropsicologia mostra-nos que o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrolo, pela tomada de decisão, pela capacidade de resistir ao impulso imediato e pela regulação emocional, continua em desenvolvimento durante toda a adolescência. Esperar que uma criança consiga resistir, sozinha, a um dispositivo desenhado por milhares de especialistas para prender a sua atenção é pedir-lhe aquilo que o seu cérebro ainda não consegue fazer de forma consistente.

Não é uma questão de força de vontade.

É uma questão de desenvolvimento.

Cada notificação interrompe a concentração. Cada vídeo de poucos segundos treina o cérebro para procurar gratificação imediata. Cada comparação nas redes sociais influencia a autoestima numa fase em que a identidade ainda está a ser construída.

E depois perguntamo-nos porque existem mais dificuldades de atenção, mais ansiedade, mais isolamento, menos tolerância à frustração e mais crianças incapazes de suportar alguns minutos de aborrecimento.

O telemóvel não explica tudo.

Mas ignorar o seu impacto seria fechar os olhos à evidência científica.

A escola sempre foi muito mais do que um lugar para aprender matemática ou português.

É o laboratório onde se aprende a viver.

É nos corredores que se fazem amizades. É nos intervalos que se resolvem conflitos. É nos jogos improvisados que se aprende a perder, a negociar, a esperar pela vez e a reparar uma zanga.

Nenhuma aplicação ensina isso.

Quando cada intervalo é vivido de cabeça baixa, preso a um ecrã, perdemos centenas de oportunidades de desenvolvimento emocional e social.

Esta medida não é contra a tecnologia.

É a favor da infância.

Porque uma infância saudável precisa de brincar sem fotografar, conversar sem interromper, rir sem gravar e aborrecer-se sem procurar imediatamente um ecrã.

Claro que esta decisão, por si só, não resolve tudo.

Se a escola proíbe o telemóvel, mas em casa a criança passa cinco, seis ou sete horas por dia agarrada ao smartphone, estaremos apenas a deslocar o problema.

A verdadeira mudança exige também famílias presentes, adultos que deem o exemplo e educação digital desde cedo.

Os filhos aprendem menos com aquilo que lhes dizemos e muito mais com aquilo que nos veem fazer.

Talvez seja por isso que esta decisão incomoda tantos adultos.

Porque obriga-nos a olhar primeiro para os nossos próprios hábitos.

A grande pergunta não é se as crianças conseguem viver sem telemóvel durante o horário escolar.

A verdadeira pergunta é esta: Será que nós, adultos, conseguimos?

Se a resposta nos deixa desconfortáveis, talvez seja precisamente por isso que esta medida faz tanto sentido.

Hoje não foi aprovada apenas uma regra.

Foi aprovada uma oportunidade.

A oportunidade de devolvermos às crianças algo que nunca lhes devia ter sido roubado: a capacidade de olhar nos olhos, de brincar sem interrupções, de criar memórias em vez de apenas conteúdos e de crescer ao ritmo do seu próprio desenvolvimento.

Daqui a muitos anos, é pouco provável que algum adulto diga: "Gostava de ter passado mais tempo no telemóvel durante os intervalos."

Mas acredito que muitos dirão: "Ainda bem que houve alguém que protegeu a minha infância quando eu ainda não sabia protegê-la sozinho."

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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