José Alberto Carvalho: "Afinal, não se morre, pois não?"

José Alberto Carvalho aproveitou o Facebook para tecer algumas palavras sobre duas figuras que eram muito importantes para o jornalista. Pedro Rolo Duarte e Ana Franqueira morreram neste mês de novembro.

Pedro Rolo Duarte, de 53 anos, morreu na passada sexta-feira, dia 27, vítima de um cancro, no Hospital da Luz, em Lisboa e, além de jornalista - com uma vasta carreira em vários jornais, revistas e na televisão, incluindo a TVI, onde apresentou o programa "Em Legítima Defesa" - era um grande amigo de José Alberto Carvalho, assim como uma das fundadoras da SIC, Ana Franqueira, que morreu no passado dia 8 de novembro.

Como tal, o jornalista decidiu escrever um texto, como forma de prestar uma última homenagem aos dois colegas e amigos:"Afinal não. O Facebook está convertido numa “via dolorosa” do nosso tempo e é sempre fácil (quase obrigatório) escrever sobre a morte de quem gostamos. Exatamente por essa razão hesitei. Mas há uma fase da vida em que sentimos que nos tiram coisas. E pessoas. A vida tirou-me várias nos últimos dias. Estou triste, porra, muito triste com a morte da Ana Franqueira e do Pedro Rolo Duarte. O Pedro foi uma grande influencia para a minha paixão da rádio. Sei que é estranho dizer isto aos jovens, como os meus filhos ou o filho do Pedro, mas acreditem que a palavra dita na rádio teve um tempo de magia! E o Pedro foi uma das pessoas que me abriu essa porta de alquimia: a palavra que se faz e desfaz, no mesmo instante, levada pela rádio; veloz, mas tão clara ou tão misteriosa que me deixava sensações eternas. Se calhar éramos percursores da desmaterialização das coisas e não o sabíamos. Também éramos felizes. Mas isso sabíamo-lo bem… o Pedro foi sempre um farol de vanguarda tranquila; aquela voz firme e clara que projetada pelo microfone transformava as palavras em sentimentos. Sim, eu recordo mais o Pedro da rádio (que saudades da Cidade Branca! ) e da televisão, do que da imprensa. Desculpem-me os meus amigos da imprensa, mas pensem lá nisto, pf: é ou não essencial saber escutar muito bem o mundo para conseguir escrever como o Pedro escrevia para que os outros ouvissem? Não nos víamos muito nos últimos tempos, mas isso não interessa, porque ambos andávamos por cá e mais tarde ou mais cedo nos iríamos reencontrar. Afinal não.

"A Ana Franqueira foi responsável pelo arquivo da SIC desde o início. Tratou das memórias de todos (jornalistas, entrevistados, diretores, políticos, acontecimentos, notícias…) com um carinho de mãe. A Ana adorava o que fazia e respeitava o trabalho de toda a gente como poucos outros. Sempre achei que quando quisesse reconstituir uma parte da minha vida, poderia contar com a ajuda da Ana para me identificar as imagens e os momentos mais simbólicos. Afinal não. E, agora, o que faço com os vossos números de telefone ?! - Liguei, e ninguém atende. Mas não quero desesperar. Vou mantê-los no meu telemóvel junto do vosso nome e da última fotografia que partilharam pelo WhatsApp. Acredito que um dia eu, ou alguém por mim, vai ligar-vos e marcamos uma jantarada para nos rirmos das coisas tristes que acontecem na vida. Afinal não se morre, pois não?", acrescentou.