Entrevistas

Fátima Lopes completa 30 anos de carreira: "Nunca imaginei que a minha vida ia seguir este rumo"

A criadora de moda Fátima Lopes completa, esta segunda-feira, dia 19, 30 anos de carreira e a SELFIE esteve à conversa com a estilista madeirense sobre esta data especial.

Foi em 19 de setembro de 1992 que a criadora de moda Fátima Lopes apresentou a primeira coleção, num desfile realizado no Convento do Beato, em Lisboa.

30 anos depois, a estilista madeirense, de 57 anos, continua a ser uma das mais conceituadas de Portugal e a SELFIE quis saber, em exclusivo, qual o balanço que Fátima Lopes faz destas três décadas de sonhos, conquistas e desafios.

Como olha para este dia e para aquilo que representa?
É uma data muito especial para mim, porque eu sonhei ser criadora de moda. No entanto, nunca imaginei que a minha vida ia seguir este rumo, desta forma.

Que balanço faz destes 30 anos?
São três décadas, talvez diferentes... cada uma marcou momentos distintos. A primeira, classifico-a como a da descoberta, de lutas, de curiosidade e a de encontrar o meu lugar, no mundo da moda. Uma primeira fase de total inexperiência. Foi muito difícil começar, naquela altura. Não havia nenhuma cultura de moda, em Portugal, havia, sim, cultura de indústria e confeção. A própria indústria não era acessível, não facilitava nada e não acreditava nos criadores nacionais. Obrigou-me a abrir a minha própria indústria. Tive de criar tudo, não só a marca Fátima Lopes, como também a confeção. Resumindo, tive de remar contra a maré. A segunda fase iniciou-se a partir do momento em que comecei a desfilar em Paris, em março de 1999. Contra todas as expectativas, decidi ir para França, sozinha, uma vez que não fui apoiada por ninguém. Essa minha entrada na Semana da Moda de Paris trouxe-me outra perspetiva desta área. Cresci, completamente, enquanto criadora. Naquela altura, tornei-me numa criadora internacional, o que fez, também, com que Portugal me visse com outros olhos, até por causa do impacto que tive na imprensa internacional especializada. Já a terceira fase é de segurança, de sensação de que já não tenho de provar nada a ninguém. Agora divirto-me com aquilo que faço. No próximo sábado, dia 24, irei realizar um desfile comemorativo dos 30 anos de carreira, que se resume, sobretudo, a um momento de puro prazer.

Revelou que o início da sua carreira foi difícil. Em que medida?
Sou mulher, vinha da Madeira e era uma outsider, porque não fazia parte do mundo da moda. Foi quase uma 'luta' para conquistar um lugar. E eu também não percebia nada de moda, reconheço. A minha escola foi o facto de ter viajado pela Europa. Falo, por exemplo, de Milão, Paris e Londres, uma vez que eu tive uma loja multimarcas. Com isso, comecei por perceber como é que a moda era feita, nos sítios certos, nas capitais. Só comecei a criar e fiz o primeiro desfile, no dia em que senti que era capaz.

E o facto de ter sido guia turística, antes de se iniciar como criadora de moda, também ajudou?
Sim, foi a minha escola de vida! Deu-me visão. Sempre tive um feitio de líder, nunca gostei de ser a patroa, gosto de ser a líder de equipas. Quando comecei a viajar, enquanto guia turística, eu era a líder do grupo, era eu que organizava as viagens. Portanto, fez com que já estivesse habituada a viajar e, com as formações que fiz, falava bem outras línguas. Essa foi a minha escola de vida, a escola de moda foi, como disse, feita in loco, nos sítios certos.

Em 1999, tornou-se a primeira criadora de moda portuguesa a desfilar na Semana de Moda de Paris. Qual o sentimento?
Não há palavras! A ideia que havia, em Portugal, naquela altura, é que era impossível. Exatamente, por não haver a cultura de moda, como referi, há pouco. Nunca ninguém tinha tentado, porque era impossível.

Prepara-se para voltar aos desfiles, que estiveram em pausa devido à pandemia.
O último desfile que fiz, foi, precisamente, em Paris, no final de fevereiro de 2020, quando começou a pandemia. Aliás, o desfile podia ter sido cancelado a qualquer momento, uma vez que foi quando o vírus chegou à Europa e estávamos todos em alerta. Vai ser maravilhoso reencontrar toda a gente, no próximo sábado.

E, por falar em desfiles, ainda se lembra daquilo que sentia momentos antes do primeiro, em 1992?
Medo! Medo, insegurança e total ignorância, porque não tinha noção nenhuma daquilo que ia acontecer. Aliás, naquela altura, ninguém sabia como organizar um desfile e, curiosamente, toda a gente ajudou. Eu tenho que agradecer a muita gente, porque eu não o fiz sozinha. Toda a gente ajudou, desde a produção, lembro-me, perfeitamente, de amigos e familiares que lavaram cadeiras, por exemplo. Foi uma coisa feita de forma amadora, mas que, no final, virou muito profissional. A Antónia Rosa continua a ser maquilhadora, uma das melhores do nosso país, foi ela que maquilhou as manequins, no meu primeiro desfile. Há uma costureira que também fez parte desse momento e que, ainda, está comigo e, depois, tenho muitos amigos que estiveram no primeiro desfile, há 30 anos, e que vão estar a assistir ao desfile de sábado. O mesmo com manequins, que desfilaram e vão assistir ao desfile.

Consegue escolher o momento que mais a marcou nestes 30 anos?
O biquíni de diamantes, em 2000. Não há dúvida! Na altura, não havia redes sociais e lembro-me que foi notícia em todo o mundo. Quando cheguei ao final da passerelle, havia um batalhão de jornalistas à minha espera, do mundo inteiro. Houve um jornalista português que me perguntou como é que eu me sentia. Eu disse uma frase que depois foi repetida mil vezes: 'a rainha do mundo'. Senti-me assim, foi o que me veio à cabeça... não foi pensado. Passados 22 anos ainda digo que esse foi o momento, mas claro que já tive outros momentos maravilhosos, ao longo da minha carreira.

E como se imagina daqui a 30 anos?
O objetivo é daqui a 30 anos estarmos todos juntos, a festejar os meus 60 anos de carreira (risos). Nem que eu tenha de ter dois manequins lindos e maravilhosos a segurarem-me (risos). É o que eu, verdadeiramente, quero. Há uma palavra que não faz parte do meu vocabulário, enquanto eu tiver saúde, que é reforma.

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