Crónicas

"A polémica do verão: afinal, as crianças devem ou não andar nuas na praia?", por Vera de Melo

Há perguntas que parecem simples, mas que rapidamente dividem opiniões. Uma delas é esta: as crianças devem ou não andar sem fato de banho na praia?

  • 4 jul, 15:58

Enquanto psicóloga, acredito que a resposta não deve nascer do medo, nem da tradição. Deve nascer daquilo que sabemos sobre o desenvolvimento infantil.

Nos primeiros anos de vida, o corpo não tem o significado que os adultos lhe atribuem. Para uma criança pequena, estar nua é, muitas vezes, apenas uma forma de liberdade, conforto e contacto com a natureza. Não existe vergonha, sedução ou intenção. Esses significados são construídos mais tarde pela sociedade e pelas experiências que vai vivendo.

O problema é que as crianças crescem num mundo diferente daquele em que muitos de nós crescemos. Hoje existem telemóveis com câmaras em todo o lado, redes sociais, exposição digital e riscos que não podemos ignorar. A inocência da criança mantém-se, mas nem sempre o olhar de quem a rodeia é inocente.

É aqui que a psicologia nos convida ao equilíbrio.

Não devemos ensinar uma criança a sentir vergonha do seu corpo. Quando transformamos a nudez num tabu, corremos o risco de transmitir a ideia de que o corpo é algo errado, sujo ou motivo de embaraço. Essa mensagem pode acompanhar a autoestima durante muitos anos.

Mas também não podemos ignorar a importância de educar para a privacidade. Tal como ensinamos que há partes do corpo que são íntimas e que ninguém lhes deve tocar sem consentimento, também podemos ensinar que existem contextos onde faz sentido protegê-las. Não por vergonha, mas por segurança e respeito por si próprias.

O mais importante não é discutir se uma criança deve ou não usar fato de banho. O mais importante é perceber a mensagem que estamos a transmitir.

Se dizemos: "Cobre-te porque o teu corpo é feio", criamos vergonha.

Se dizemos: "Vamos vestir o fato de banho porque há partes do teu corpo que são especiais e merecem ser protegidas", estamos a ensinar autoestima, limites e respeito.

Educar não é alimentar o medo. É preparar as crianças para viverem num mundo real, sem lhes roubarmos a espontaneidade.

No fundo, talvez a verdadeira pergunta não seja se uma criança deve ou não estar sem fato de banho na praia.

Talvez a pergunta seja: estamos a ensinar os nossos filhos a amar o corpo que têm e, ao mesmo tempo, a protegê-lo?

É aí que começa uma educação emocional saudável. E essa começa muito antes de colocar o pé na areia!

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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