Há uns anos, tinha o hábito sagrado de me oferecer um retiro anual no mosteiro budista Amaravati, nos arredores de Londres. Era um presente que me dava religiosamente – uma pausa, um silêncio necessário para reencontrar o centro e limpar a mona.
Naquele ano, levava comigo uma questão pendente, daquelas que nos roem os pensamentos como ratos escondidos nas paredes da mente. Uma questão de amorzinho, coisa rara. Mas aquela criatura estava a dar-me trabalho, talvez por ser dali de… Singapura.
Foi então que me lembrei de uma das minhas monjas favoritas, a irmã Bodhipālā. Vietnamita de origem, tinha um olhar atento e um silêncio profundo, daqueles que pareciam ter já feito muito trabalho interno. Eu confiava nela. Era a pessoa com quem queria falar!
Quando nos sentámos, ela sorriu-me, serena como sempre. Respirei fundo e comecei a desfiar a minha grande… preocupação. Não sei se tinha chegado à segunda frase quando ela me cortou de repente:
- Vera! Mas porque é que precisas de homens? Não precisas de homem nenhum! Tu és uma mulher independente! Deixa-te disso! Já pensaste em seguir uma vida monástica?
MORRI.
Senti que um comboio me tinha passado por cima.
A conversa acabou ali. A seguir só ouvi: "Blá, blá, blá". Não houve espaço para mais nada. Olhei para ela, atordoada, e deixei-a terminar o seu discurso disruptivo com um sorriso educado - e quem me conhece - amarelo a roçar o vermelho. A minha mente fervilhava.
Saí do mosteiro em piloto automático e, enquanto caminhava pelos jardins, uma clareza desconfortável bateu-me como um vento frio - literal e metaforicamente falando. Em junho, está sempre um frio do caneco em Londres: aquela monja fazia horas e horas de meditação por dia, vivia em retiro há anos… e, ainda assim, não tinha conseguido ultrapassar a sua própria história.
E que história.
Ajahn Bodhipālā não era apenas uma monja. Antes de se tornar monástica, foi programadora durante quase vinte anos, estudou matemática aplicada e viveu uma das maiores atrocidades da humanidade: a guerra dos Khmer Vermelhos, liderada por Pol Pot.
Ela viu.
Viu horrores que não cabem na nossa imaginação. Viu o seu marido ser assassinado. Viu violência, fome, destruição. Viu demasiado.
E eu agora percebia: quando me disse que eu não precisava de homem nenhum, não era só uma opinião. Era a voz da sua dor. Dos seus traumas. Da sua história.
Se nem ela conseguia aconselhar sem as sombras do seu passado, quem conseguia?
Foi uma lição brutal.
Eu continuaria – e continuo – a pedir conselhos, mas a quem? E mais importante: aqueles que os dão sabem distinguir entre a sua história e a minha? São capazes de aconselhar de forma clean, amorosa e verdadeira ou apenas projetam os seus traumas, despejando nas minhas perguntas as suas respostas inacabadas?
E sabes o que mais, irmã?
As pessoas que mais querem dar conselhos – solicitados ou não – são geralmente aquelas que têm a vida mais escangalhada. Já reparaste?
É curioso, não é?
Faz essa análise. Repara como aqueles que estão sempre prontos para despejar opiniões são os mesmos que não conseguem endireitar a sua própria vida. Como quem se perde da própria bússola e, em desespero, começa a apontar o caminho aos outros.
E às vezes penso: eu corri o mundo sozinha. Literal e figurativamente falando. Será que, talvez, só talvez, eu sou capaz de gerir a minha própria vida?
Sei coisas básicas. Sei quando tenho fome. Sei quando tenho frio. Sei quando preciso de ir ao médico. Sei quando preciso de silêncio.
E é por isso que quando me vêm dar conselhos não solicitados, tenho vontade de responder com um sorriso:
- Viaja. Vai sozinha para a Índia. Vai ao Nepal depois de um terramoto. Vive um ano em África. E depois… depois, falamos.
Porque, no final, talvez não se trate de quem dá os conselhos, mas de quem os recebe.
Talvez não seja sobre rejeitar todas as opiniões, mas sobre aprender a filtrar.
Talvez a verdadeira sabedoria esteja em saber ouvir sem absorver. Em escutar sem vestir a pele do outro.
No fim de contas, cada um caminha pela sua própria ponte.
E a verdadeira questão não é quem me aconselha, mas para onde me levam os conselhos que escolho seguir?
