Encostei a testa à janela fria e resmunguei qualquer coisa sem nexo. Não sei se reclamei do Inverno ou da vida. O céu estava cinzento e o meu humor fazia-lhe concorrência direta. A alma pesava e os olhos corriam no vazio, presos algures num passado que nunca me larga.
“É tempo de retrospetiva”, dizem os especialistas das redes e dos livros de autoajuda. E eu, vá-se lá saber porquê, obedeci.
Vasculhei memórias felizes. Mexi, remexi e quanto mais cavava, mais me perdia. As memórias dolorosas, essas têm o péssimo hábito de se empoleirarem à frente, como se me quisessem lembrar que são elas quem manda. Fiquei furiosa comigo. Ingrata! É claro que vivi momentos lindos. Só que eles andam enterrados sob camadas de sobrevivência e medo.
E, de repente, lembrei-me. Lembrei-me de todas as viagens que fiz. De cada aventura, cada rasgo de coragem e, claro, de cada tombo. As lições… ah, as lições. Foi aí que o olhar se toldou outra vez. Queixo a tremer. "Não vou chorar!" - sussurrei-me. "Já chorei o suficiente."
Na verdade, não.
Ainda tenho gravada no ADN a crença absurda de que guerreiras não choram. Quantas vidas levarei a desmontar esta farsa? Quantas vidas levarei até conseguir deitar a cabeça no colo de alguém e simplesmente… chorar? Até aprender a pedir ajuda sem sentir que estou a falhar? Até conseguir gritar o que gosto, o que não gosto, o que quero e o que me mata por dentro?
Confio no invisível, nos deuses, nas fadas e nos elfos, mas tremo de medo da maldade humana. Porque será? Quantas fogueiras terei atravessado? Quantas traições e quantas exclusões ficaram tatuadas na alma? Talvez seja isso…
E depois há esta saudade inexplicável. Esta nostalgia funda, antiga, que me acompanha como uma sombra silenciosa. Saudades de quê? De quem? Talvez de um tempo em que existia alegria e paz. Tenho tantas saudades desse tempo. Talvez de um tempo onde as mulheres caminhavam juntas. Talvez.
Ou talvez seja só do Inverno que nunca mais acaba, canecos! Hum, é fácil culpar o Inverno.
Sacudi os pensamentos como quem sacode pó de uma manta velha. Peguei no primeiro casaco e saí porta fora. Eu sabia para onde ia - o meu corpo sabia. Primeiro, para a serra. Depois, para o mar.
A serra de Sintra é sagrada para mim. Lá, descalço-me e abraço árvores como quem abraça a vida. Mas é no mar que eu deixo ficar o que já não me serve.
E resulta sempre.
Volto sempre mais leve, mais inteira, mais consciente de quem sou e de quem quero ser. Volto com um lembrete claro: já concretizei tanto! E o que ainda não concretizei… hei-de fazê-lo.
O mar sabe.
Agradeço à deusa do mar, como sempre, e sorrio-lhe. Um sorriso genuíno, grato. Abro os braços para o céu e para o mar. Recebo o amor das águas e das ondinas. Sinto o peito expandir e o coração sossegar.
E então decido.
Decido largar, ali mesmo, aquela velha pele de vítima que me serviu de armadura durante anos. Lembro-me do que o meu mestre sempre me diz: "Enquanto não largares o passado, nunca haverá espaço para o novo."
E eu quero o novo. Quero tanto o novo.
Entro no mar frio, de corpo e alma. Fecho os olhos e, em vez de uma montanha, vejo-me ali mesmo - dentro de mim. Vejo-me inteira, despida das dores antigas, pronta para criar a minha história. Mergulho. A água gela-me o corpo, mas liberta-me a mente.
E é ali, naquele mergulho simples e sagrado, que me batizo de novo. Escolho-me. Escolho viver. Escolho ser feliz aqui e agora, na Terra.
E fui.
