Crónicas

"Vamos falar de almas gémeas? Vamos", por Vera Xavier

Krishnamurti, Rumi, Schopenhauer e uma cliente minha entram num bar.

Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
  • 10 mai, 16:23
Vera Xavier

Há alguns anos, sentou-se à minha frente uma senhora com um olhar que eu reconheci imediatamente, esse olhar de quem espera há demasiado tempo por algo que não chega e já não sabe muito bem se ainda acredita que vai chegar. Tinha vindo de uma consulta com uma suposta astróloga que lhe garantira, com a segurança de quem leu as estrelas e as estrelas responderam em linguagem corrente, que um colega de trabalho, com quem mal trocava palavra, era a sua alma gémea. A senhora, de coração aberto e pensamento crítico temporariamente suspenso, acreditou. Esperou e esperou e esperou. Continuou a esperar mais anos. Sim, anos. O colega, alheio à missão que lhe havia sido atribuída, sem o seu conhecimento nem consentimento, continuou a mal falar com ela. Os anos passaram, a esperança foi ficando cada vez mais gasta, como a mala que usamos demasiado porque é cómoda, mas feiinha, e quando chegou ao meu consultório estava em depressão profunda. Sozinha há muitos anos, ainda à espera de um sinal de um homem que provavelmente nem sabia o seu nome completo. Por estas e por outras razões deixei para trás uma carreira bem-sucedida na área esotérica. As pessoas adoram previsões e detestam responsabilidade. São coisas inversamente proporcionais.

Vamos, então, ao conceito que destruiu esta senhora e tantas outras, em silêncio e com romantismo oco.

A alma gémea. Esse ser perfeito, complementar, predestinado, que algures no universo existe especificamente para nós, que nos completará, nos entenderá sem precisar de explicações e chegará no momento certo, se tivermos fé suficiente e a astróloga for competente. É uma ideia tão bonita que até dói desmontá-la, é verdade. Dói, mas vou fazê-lo na mesma, porque a beleza de uma ideia não é argumento suficiente para a sua verdade, como diria Nietzsche, que tinha uma paciência zero para o romantismo sentimental e uma capacidade notável para dizer coisas desconfortáveis com uma elegância desconcertante. Gosto tanto! [E o homem, em seu orgulho, criou Deus à sua imagem e semelhança]. Não disperses, Vera!

Schopenhauer, esse senhor que acordava todos os dias convicto de que o universo era fundamentalmente irracional e a vida um exercício de sofrimento com intervalos de ilusão, diria que a atração romântica não é mais do que a Vontade, essa força cega e impessoal, a usar dois seres humanos para perpetuar a espécie, disfarçada de destino para que não fujamos a correr a uma velocidade estonteante. O amor, na visão schopenhaueriana, é uma armadilha biológica com boa banda sonora de Phill Collins. Pois é, pouco reconfortante, não é? Mas difícil de refutar às três da manhã quando a ilusão já desapareceu e ficou só o contrato de arrendamento conjunto… e o vestido de noiva que custou uma fortuna.

Krishnamurti, que já aqui visitámos e que continua a ser o convidado mais inconveniente de qualquer conversa espiritual, diria algo ainda mais perturbador e, quiçá, verdadeira: a busca pela alma gémea é, na sua essência, uma fuga ao único encontro que realmente importa, o encontro contigo própria. Enquanto procuramos fora a completude que recusamos construir dentro, estamos a adiar indefinidamente o único trabalho que produz resultados reais. Trabalho espiritual, claro. A dependência emocional de outra pessoa, por mais que a chamemos de amor ou destino ou alinhamento planetário, é uma forma elegante de não assumirmos a responsabilidade pela própria existência. Sabes quando viveu Krishnamurti? Eu digo, de 1895 a 1986.

Annie Besant e Alice Bailey, duas mulheres extraordinárias que a história teosófica teima em colocar em segundo plano atrás de Blavatsky, falavam de almas que evoluem em grupos, em famílias de consciência, em ciclos de aprendizagem partilhada. Não de uma única alma perfeita à espera algures no cosmos, mas de múltiplos encontros significativos, cada um com a sua lição, cada um no seu tempo, cada um exatamente tão imperfeito e tão humano quanto nós próprias. A ideia teosófica de evolução espiritual não comporta a passividade da espera, comporta o trabalho ativo da transformação pessoal e consciente.

Rumi - o poeta - sabia-o com a profundidade de quem passou a vida a confundir o amor humano com o amor divino, deliberadamente, porque achava que um era porta para o outro. "A tua tarefa não é procurar o amor, mas procurar e encontrar todas as barreiras que construíste contra ele", escreveu, e nesta frase está toda a diferença entre quem espera a alma gémea e quem trabalha para se tornar digna de um Amor saudável e maduro. Não é o outro que falta. Somos nós que resistimos. Quase paradoxal, não é?

O amado mestre Tagore, Calcutá, 7 de maio de 1861 - ou como alguns elementos da minha família chamariam ‘o preto’ -, com aquela ternura peculiar de quem vê o sagrado em tudo sem por isso perder o contacto com o chão, acrescentaria que o amor verdadeiro não diminui a individualidade, expande-a. Dois seres que se encontram em liberdade e se escolhem em consciência não se completam, multiplicam-se. Contudo, para isso é preciso que cada um chegue ao encontro íntegro, não partido ao meio e à procura da outra metade, porque duas metades não fazem um todo, fazem uma dependência com romantismo como cobertura, tipo, chantilly.

A prisão da alma gémea é particularmente cruel porque se camufla de esperança e mantém as pessoas ancoradas a uma narrativa que as impede de investir em si próprias, de construir relações reais com pessoas reais, de viver o presente com toda a sua magnífica imperfeição. É uma espera que tem o sabor da fidelidade e o efeito do abandono, porque enquanto esperamos pelo perfeito, abandonamos o possível, e o possível era, muitas vezes, exatamente o suficiente para nós naquele momento. O imperfeito chegou para crescermos juntos.

A senhora que veio ao meu consultório não precisava da alma gémea, ela precisava de se tornar boa companhia para si própria, de reconstruir a confiança na sua própria percepção da realidade, de perceber que nenhuma astróloga, por mais competente que seja, não tem acesso a este tipo de segredos da alma, porque esse mapa está a ser desenhado por ela, a cada escolha, a cada momento, com ou sem colega de trabalho alheio ao seu destino karmico.

As estrelas podem sugerir, até alertar, ajudar a conhecer. O destino jamais obriga, jamais. A vida que tens é a que constru ís, irmã, não a que esperas que alguém venha entregar. Não precisamos nem nunca precisámos de salvadores. Somos nós que nos salvamos, irmã!

Ajeita o teu manto vermelho Ísis, e continua.

A pergunta que fica, quando o romantismo assenta e a lucidez chega, é esta: ainda estás à espera que apareça uma metade, quando a única coisa que falta és tu, una, de volta a ti própria?

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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