Crónicas

Sabia que o eixo Leiria-Fátima é "o verdadeiro chakra cardíaco de Portugal"? Vera Xavier explica tudo!

Entre o fogo, a água e o despertar de Portugal.

Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
  • 9 fev, 12:52
Vera Xavier
Vera Xavier


Purificação ou Punição?

Depois de 1755, parecia que o planeta nos tinha assinado um armistício. O Terramoto foi brutal, devastador, um daqueles traumas que ficam impressos no nosso ADN como uma cicatriz que dói quando o tempo muda. Mas depois disso… o silêncio. Durante séculos, Portugal pareceu habitar uma redoma. Enquanto o mundo ardia, tremia ou se inundava, nós permanecíamos aqui, no nosso retângulo à beira-mar plantado, como se tivéssemos um acordo secreto com as placas tectónicas e as nuvens. Com algumas exceções, bem sei.

Será que confundimos paciência com esquecimento?

Até que chegou 2017. Pedrógão não foi apenas um incêndio; foi um rasgar do contrato. Ali, o fogo deixou de ser um acidente de verão para se tornar um alerta. E, agora, como se o guião tivesse mudado de elemento, chegam cheias com uma fúria inédita. Água a mais, de repente, onde a terra já suplicava por uma gota. O que nos está a tentar dizer o chão que pisamos?

Haverá uma explicação metafísica para isto? É possível, é. Mas não no sentido de um esoterismo de mercearia, e sim de uma lógica profunda: a Terra não é o palco onde nós atuamos, não, é o próprio organismo de que fazemos parte. E nenhum corpo permanece imóvel quando entra em combustão.

A ciência hoje afirma o que as tradições antigas já gritavam: o planeta tem um sistema nervoso invisível, feito de Linhas Ley - correntes de força que cruzam o globo e unem locais de poder. Se o mundo tem meridianos, Portugal é um dos seus terminais mais vibrantes.

Tudo começa em Sintra, o portal. Pousada sobre um maciço granítico que funciona como uma antena gigante, Sintra é o subconsciente do país. Ali, as linhas de energia cruzam-se de tal forma que o tempo parece ter outra densidade. Deste nó magnético, a energia flui até chegar ao eixo Leiria–Fátima, o verdadeiro chakra cardíaco de Portugal. É o nosso coração coletivo, por onde circula a fé que move montanhas e a dor que as derrete. O Vaticano tem documentados inúmeros milagres acontecidos neste ponto - em particular nos Valinhos.

Ora, os corações raramente têm vidas tranquilas. São centros de pressão. Quando um organismo precisa de mudar de rumo, é no peito que o desassossego começa. Talvez estas catástrofes sejam os eletrochoques de um coração que se deixou anestesiar. O fogo vem queimar o que deixámos secar em nós - a nossa ligação à floresta, o cuidado com o que é comum. A água, por sua vez, vem ocupar o espaço que lhe roubámos, galgando o asfalto com que tentámos calar os rios. É um ajuste de contas entre a nossa arrogância e a geometria sagrada da natureza.

Purificação? Talvez. Ajustamento? Com certeza.

Mas há um detalhe que brilha no meio da lama e das cinzas: sempre que a batalha surge, a humanidade desperta. Emerge uma onda de entreajuda tão orgânica que nos faz parecer, por breves instantes, uma família funcional. Estranhos tornam-se irmãos de balde e vassoura. Esquecemos as nacionalidades e as telhas aparecem. 

O que nos obriga a uma pergunta desconfortável: precisamos mesmo do abismo para nos lembrarmos de como se caminha de mão dada?

Talvez a Humanidade não esteja perdida; talvez esteja apenas profundamente distraída. Estes momentos são os abanões necessários para nos mantermos despertos e olharmos para além do nosso umbigo.

A Terra fala. Às vezes sussurra na brisa de Sintra, outras vezes grita na tempestade do centro do país. A questão já não é saber se acreditamos ou não na sua voz. É saber se, depois de tanto barulho, estamos finalmente dispostos a ouvir a grande mensagem. 

A Terra não nos está a castigar, ela está a convocar-nos. Ela grita para que deixemos de ser apenas inquilinos e passemos a ser guardiões.

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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