Crónicas

"Quem tem medo de tirar a máscara? O Carnaval não cria personagens - apenas suspende o controlo", por Vera Xavier

Talvez não seja a loucura colectiva que assusta, mas a possibilidade de descobrires quem és quando deixas de ser tão séri@.

Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
  • 16 fev, 19:04
Vera Xavier
Vera Xavier

O Carnaval é pura psicanálise de rua - sem divã, mas com espelhos por todo o lado e, melhor de tudo, low cost

É a época em que todos assumem que estão mascarados e talvez seja a única altura do ano em que somos honestos sobre isso.

Durante o resto do tempo, vestimos personagens com uma seriedade quase militar. A profissional competente. A mãe irrepreensível. O homem racional. A mulher equilibrada. O adulto que resolve tudo. Uma roupagem social bem passada a ferro, aprovada pelos pares, que afinal não é mais do que um uniforme. E lá vamos nós, alinhados, discretos, à hora certa - pequenos soldadinhos de chumbo convencidos de que somos originais. A nossa essência é-o.

Chega fevereiro e alguém decide vestir-se de unicórnio florescente, de palhaço, de máquina de TAC mamário (de longe a melhor e mais criativa máscara que já vi), e, subitamente, é considerado uma excentricidade aceitável. A criatividade humana é imensa porque a fechamos um cofre que usamos apenas nos dias úteis das 9h às 18h?

Talvez o verdadeiro ato excêntrico seja passar onze meses a fingir que não temos partes ridículas, impulsivas, infantis ou ousadas.

Carl Jung falava da Persona como a máscara social que usamos para funcionar no mundo. Não é algo negativo. É necessária. Sem ela, a convivência seria ainda mais caótica! 

O busílis começa quando nos confundimos com a máscara. Quando acreditamos que somos apenas aquilo que mostramos. Quando a Persona se torna tão rígida que não deixa espaço para o resto. E o resto tem nome. Chama-se Sombra.

A Sombra não é o lado "mau". É tudo o que não mostramos na imagem que decidimos projetar. É a espontaneidade que reprimimos porque "não fica bem". É a irreverência que calamos para parecer... maduros. É a ousadia que arquivamos porque alguém nos disse que era exagerada. É a criança que ainda quer rir alto, mas aprendeu a rir em silêncio.

O Carnaval é um fenómeno curioso porque dá autorização colectiva para a Sombra sair à rua sem pedir nem licença nem desculpa. Durante estes dias, aquilo que seria considerado socialmente incorreto é tolerado. O exagero é permitido. A caricatura é aceite. A inversão de papéis é celebrada. E aqui surge a divisão. Há quem entre no jogo com alegria, como quem sabe que pode visitar as próprias profundezas sem se perder. Há pessoas que vestem uma fantasia e, paradoxalmente, se sentem mais próximas de si. Não porque estejam a fugir da identidade, mas porque estão a expandi-la. E há quem observe à distância, desconfortável. Não por falta de humor, mas porque a Persona está construída sobre o controlo. Sobre a previsibilidade. Sobre a necessidade de manter cada emoção no sítio certo, cada impulso na gaveta adequada.

Quando a cidade inteira decide brincar com a identidade, isso pode parecer perigoso. Se todos estão a trocar de papel, quem garante que o meu papel é fixo? Se a professora pode ser uma prostituta e o gestor pode ser uma freira malandra por uma noite, então, talvez as fronteiras não sejam tão sólidas como acreditámos.

Pensemos, o que é que realmente acontece quando alguém se permite exagerar um pouco? Desmorona-se a civilização? Cai a Bolsa? Esquece-se como se preenche uma declaração de IRS. Não.

O que cai é outra coisa. Cai a vigilância constante. Cai a necessidade de estar sempre bem. Cai a ilusão de que somos apenas a versão que mostramos nas reuniões, nos almoços formais ou nas fotografias cuidadosamente escolhidas para as redes sociais.

O controlo dá-nos a ilusão de coerência, mas a psique humana - quando não trabalhada -, está longe de ser um plano reto. É mais parecida com uma casa antiga: cheia de quartos trancados, escadas que dão para lugar nenhum e um sótão poeirento onde guardamos tudo aquilo que jurámos já não nos pertencer. 

O Carnaval abre a porta do sótão. Não obriga ninguém a entrar, mas lembra que ele existe.

Talvez o medo não seja da máscara improvisada vestida na terça-feira de Entrudo. Talvez seja do que acontece quando percebemos que a máscara que usamos o resto do ano se fundiu ao rosto.

Neste Carnaval, deixo-te um desafio que não é para menin@s:

•    Quem és tu quando te tiram o rótulo social?
•    E se essa identidade que defendes com unhas e dentes não passar de uma versão castrada e bem comportada de um ser muito mais vasto (e maravilhoso)?

Talvez a pergunta mais inquietante não seja se gostamos ou não do Carnaval.

Talvez seja esta: quanto da tua vida é Persona e quanto espaço deixas para a Sombra respirar?

Na verdade, é pergunta é: quão livre és tu?

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
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